09 de julho de 2026
Articulistas

Carros assassinos

Archimedes A. Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

O então presidente Collor disse, no início dos anos 1990, que "nossos carros são uma carroça". Será que daquela época até os dias atuais essa realidade mudou? Dias atrás Bradley Brooks, da Associated Press (AP), publicou a matéria "Carros fabricados no Brasil são mortais", afirmando que eles são inseguros e não atendem minimamente aos requisitos internacionais de segurança.

A conclusão da matéria não traz novidade em si, pois é muito semelhante àquela obtida, em novembro de 2012, pela Latin NCAP, que avalia a segurança dos carros zero. Ela dizia que "os carros mais populares estão 20 anos atrasados em comparação aos dos países industrializados, e abaixo dos padrões globais".

Uma constatação similar foi obtida pela UOL Carros, que explicitava a medíocre condição de segurança de modelos fabricados no Brasil. De acordo com a Latin NCAP, a maioria dos carros nacionais chamados de populares recebeu apenas uma estrela (de 5 possíveis) no teste de impacto. Isto implica em carros mais instáveis e menos seguros, aumentando o perigo para motoristas e ocupantes.

Para Brooks, carros com estruturas mais fracas e coluna de direção frágeis proporcionam choque do volante contra o peito e abdômen do motorista em colisões frontais. Esta é a maneira mais comum e mortal de traumas, conferindo graves ferimentos em órgãos vitais. Peças e partes de painéis mal construídos "flutuam" no interior da cabine após a colisão, se transformando em projéteis perigosos, provocando ferimentos graves nos ocupantes.

O advogado americano Ralph Nader publicou, em 1965, o famoso livro "Inseguro em qualquer velocidade", se referindo aos carros dos EUA naquele período. Pelo jeito o Brasil reproduz, hoje, o panorama automobilístico americano de 50 anos atrás.

Em 2010, morreram cerca de 10 mil pessoas ocupantes de carros, no Brasil e, nos EUA, com frota de veículos 5 vezes maior, 12,5 mil ocupantes. Esses dois países rumam em direções opostas. Os EUA registraram 40% menos mortes em acidentes, em 2010, em relação à década anterior, enquanto que no Brasil, o número de mortos subiu 72%.

Brooks cita que os culpados da "tragédia nacional" são os carros aqui produzidos, com "soldas mais fracas, itens de segurança escassos e materiais de qualidade inferior, quando comparados com modelos similares fabricados para os consumidores americanos e europeus".

Itens de segurança nos carros brasileiros ainda são considerados artigos de luxo. Na verdade, a legislação brasileira relacionada à fabricação de veículos é muito frouxa no que tange à segurança. Nossos carros são caros e pouco seguros.

De quem é a culpa? Além dos altíssimos impostos embutidos nos preços dos carros, os fabricantes brasileiros trabalham com margens de lucro que atingem 10%, enquanto que os americanos se contentam com 3%. Alguma coisa precisa ser feita neste país para ajudar a reduzir a vergonhosa morbimortalidade viária. Poder público, fabricantes, órgãos gestores de trânsito e usuários são todos responsáveis. É preciso mudar para tornar o trânsito mais humano.

O autor, Archimedes A. Raia Jr., é engenheiro, especialista em Engenharia e Segurança Viária, professor da UFSCar, coautor dos livros Segurança no Trânsito e Segurança Viária e diretor de Engenharia da Assenag