09 de julho de 2026
Geral

Profissões emergentes dividem topo com carreiras consagradas

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 8 min

João Rosan

A  vestibulanda Cendy Mendes, de 17 anos, vinculou sua escolha com a afinidade com as ciências exatas

A tradição é pilar para manter carreiras na liderança das opções dos vestibulandos. Cursos como medicina ou direito, ainda mais pela forte relevância social, mantêm seus habituais contingentes de candidatos nas faculdades País afora. Porém, os ditames do mercado evidenciam profissões que não chegam a ser novas, mas tem atrativo pelo mercado em alta.

Oscilante, o cenário para determinados cursos não apresenta o mesmo vai-e-vem para algumas áreas mais tradicionais. Medicina, por exemplo, jamais perderá a majestade de vedete entre os estudantes na época do vestibular. Diferentemente de engenharia que, apesar do status atual, já enfrentou maus bocados, com dificuldades de inserção no mercado.

Jair Manfrinato, diretor da Faculdade de Engenharia da Unesp/Bauru (FEB), confirma que a profissão vive um bom momento há muito não verificado.

Atualmente, enumera o professor, o País forma um contingente aproximado anual de 41 mil engenheiros, demanda em mais de 70% abaixo do que o necessário para atender o ritmo de crescimento em diversos setores. “No Brasil, a necessidade anual de mercado é de 70 mil profissionais”, calcula.

Para ele, o alto custo operacional de uma faculdade de engenharia é um dos fatores que tornam a formação menor do que a atual necessidade. “O Brasil importa engenheiros”, comenta.

Essa migração de profissionais, no entanto, deve ser tratada com ressalvas, observa o presidente da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru (Assenag), Afonso Fábio. “Precisamos de profissionais. Mas há necessidade de se estabelecer um critério para quem chega. Se quem vem trouxer tecnologia, conhecimento, tudo bem”, diferencia.

O representante da classe em Bauru é contrário à “importação” de novatos. “Nossos recém-formados devem ser privilegiados. A profissão ‘roeu o osso’ por muito tempo, não é justo dar o “filé” para os outros”, acentua engenheiro que também o defende parcimônia quanto a novos cursos. “Não é quantidade. É qualidade e conhecimento”, especifica.

Tanto para o diretor da faculdade quanto para o presidente da associação, o “boom” na área de engenharia se deve a retomada de investimentos. “O País passou por um longo período de estagnação. O mercado não oferecia emprego”, lembra o representante da Assenag. “O engenheiro agora vale como diamante”, compara Manfrinato.

 

Produção acelerada

Em meio aos cursos que apresentam crescimento gradual a cada ano, engenharia de produção, observa Manfrinato, tem sido um dos que mais atrai profissionais em virtude da expansão do mercado.

A procura ainda não chega ao patamar do curso de engenharia civil, que, na universidade estadual, figura atrás apenas do concorridíssimo lugar na faculdade de medicina. Porém, figura entre as áreas de maior crescimento nos últimos anos, considera o diretor da FEB. Ano passado, enumera, a relação candidato/vaga era de 27 postulantes a uma cadeira.

O ramo, que prima pelo gerenciamento de recursos humanos, financeiros e materiais para otimizar a produtividade de uma empresa, também integra a grade de cursos oferecidos pela Universidade Sagrado Coração (USC), em Bauru, cuja maior procura é pelo curso de Engenharia Civil, líder também na Universidade Paulista (Unip).

Em busca de uma vaga neste curso, a vestibulanda Cendy Mendes, de 17 anos, atribui à escolha com a afinidade com as ciências exatas. “O mercado está aquecido. Mas optei em virtude de minha facilidade com a área. Quero entrar na faculdade e ser uma aluna aplicada”, planeja. “Caso não tivesse mercado, prestaria concurso público após o curso”, acena.

 

 

Tradição enraizada

Algumas áreas tradicionais, principalmente no campo das ciências humanas, apresentam queda na absorção de mercado.

Mesmo assim, parece que os vestibulandos não se importam com a maior concorrência pós-diploma e demonstram grande procura por estas faculdades. Na Unesp, o curso de jornalismo, por exemplo, tem concorrência superior a 18 candidatos por vaga. Já na Universidade de São Paulo (USP) a peneira é ainda maior, com 41,57 candidatos/vaga.

Sempre em voga, igualmente com absorção, medicina é o curso mais procurado na mesma universidade, com concorrência maior a 185 por vaga, no campus da mesma instituição pública, em Botucatu, conforme índice de procura dos cursos para o Vestibular 2013.

É nessa briga que a jovem Bhárbara Ladeira, de 18 anos, entra forte. Além da tradição familiar, tem influência da mãe farmacêutica, ela justifica a aptidão mesclada com o mercado de trabalho sempre aberto.

“Eu não tenho dúvidas. Minha escolha é justificada por vários motivos, entre eles as portas sempre abertas para médicos, visto até mesmo a ‘importação’ de profissionais”, atribui a vestibulanda, que, neste ano, está engajada na preparação para uma bateria de provas, entre universidades públicas e privadas. “Meu dia todo é voltado para o estudo”, prioriza.

Entre os vestibulandos, observa José Carlos Marques, diretor-coordenador de ensino médio e Cursinhos do Iesb/Preve, apesar da grande atratividade por áreas com mercado aquecido, a tradição ainda pesa. “As tradicionais continuam fortes, principalmente direito e medicina”, observa. “No entanto, áreas como a de engenharia têm crescido muito”, reconhece.

Outras instituições também mostram que a tradição ainda fala mais alto na hora da escolha. Na Instituição Toledo de Ensino (ITE), por exemplo, o direito é a razão da própria fundação do centro acadêmico, apesar de outras áreas novas despontarem com força (leia abaixo).

O bacharelado também lidera nas Faculdades Integradas de Bauru (FIB), também lidera, ao lado de agronomia. 

 

Voar, mas sempre com os pés no chão 

 

Ninguém é proibido de sonhar. Mas manter os pés no chão é importante até mesmo para aproveitar a oportunidade das oscilações de mercado e, na hora certa, unir o útil ao agradável. Essa foi a fórmula utilizada por Otávio Siqueira Farah, que esperou a primeira formação universitária para, em seguida, decolar, literalmente, com os sonhos.

Estudante do primeiro ano na instituição, Otávio Siqueira Farah, de 26 anos, é um dos exemplos de que o diploma universitário em determinada área não significa ponto final dentro da graduação.

Formado em design, ele optou por complementar a formação com um novo curso. “Escolhi a engenharia de produção pela visão abrangente que a faculdade proporciona”, justifica. “É um curso que aborda conceitos de administração, economia, enfim, tudo relacionado ao processo produtivo. Será muito válido seja para uma empresa quanto para empreender”, considera.

Já o caminho de Rodrigo Otero foi em outra direção. Graduado em direito, ele observou a mudança de ventos no mercado da profissão que exercia para abraçar o ofício que sempre amou: a aviação. “Eu já pilotava antes de fazer direito, mas não era aviador profissional. Advoguei por um tempo e até fiz pós-graduação. Quando a aviação melhorou, resolvi me profissionalizar e mudar de trabalho”, detalha.

Hoje co-piloto de uma grande companhia aérea, ele busca chegar a condição de comandante. Formado no curso de Ciências Aeronáuticas da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Farah comemora o céu de brigadeiro vivido pela área atualmente. “Hoje sou realizado profissionalmente”, celebra o aviador, de 33 anos, Otero.

O cenário positivo para a aviação, observa o coordenador do curso na faculdade bauruense, Edson Mitsui, deve-se, em muito, à falta de profissionais no mercado. “Quem sai bem formado, principalmente, tem boa empregabilidade ou até deixa a faculdade já empregado”, incentiva.

Com duração de três anos, o curso, entretanto, esbarra no alto custo das horas práticas de voo, com valor estimado entre R$ 300 e R$ 400. Para se tornar piloto de aviação privada, o aluno precisa voar, no mínimo, 35 horas.

A pilotagem comercial requer, pelo menos, 150 horas práticas, detalha Mitsui. Linhas aéreas exigem experiência mínima de 1.500 horas.

Neste último caso, minimiza o coordenador, o tempo de voo é adquirido automaticamente, já durante exercício da profissão. Outras formas de amortizar o custo são propiciadas por financiamento estudantil, inclusive pelo Fies. “Os valores são relativos. Comparados a o investimento de um dentista, que monta o consultório, não são elevados”, relativiza.

 

Mercado não é tudo

O procedimento adotado pela jovem vestibulanda é o correto, orientam orientadores vocacionais. Seguir apenas o que dita o mercado no momento não é o ideal, da mesma forma como seguir alguma carreira sem nenhum potencial de empregabilidade no futuro.

“Mercado é importante, mas o candidato deve, acima de tudo se conhecer”, recomenda o psicólogo e orientador profissional Lucas Faria Gonçalves, da Unesp/Bauru.

Ceder aos desejos de pais que ficam em cima, muitas vezes para a realização de sonhos frustrados dos mesmos, ou então seguir os instintos sem levar em conta o futuro ou apenas se ligar nas cifras de uma profissão promissora, mas sem qualquer afinidade, são os outros erros na hora de escolher uma carreira. “O impulso causa arrependimentos mais tarde”, adverte.

O ideal, recomenda, é o equilíbrio, que somente é alcançado após o autoconhecimento. “Muitas vezes, habilidades até então desconhecidas são descobertas”, comenta o orientador vocacional. Segundo o psicólogo, um trabalho de aconselhamento profissional dura, em média, 12 sessões.

Reorientação profissional, salienta, não é exclusividade para jovens vestibulandos. “Nunca é tarde (para rever vocação). Há casos de pessoas com muitos anos de profissão que se redescobrem”, incentiva.

Se, por um lado, é um erro pensar apenas no status ou cifras de determinada profissão quando não há a mínima afinidade com o trabalho, o psicólogo também chama a atenção para jovens com “excesso de idealismo” que, mais tarde, é refletido em arrependimento.

“Escolher uma carreira sem garantia quando se vive no conforto da casa dos pais é um risco. Muitas vezes, esse candidato não imagina como será a vida quando tiver que se virar sozinho”, ilustra.