08 de julho de 2026
Saúde

Como prevenir o câncer?

Ellias M. Abreu Lima
| Tempo de leitura: 5 min

A prevenção do câncer pode ser entendida como qualquer ação tomada com o intuito de diminuir o número de casos da doença numa determinada população. Paralelamente, espera-se que com a diminuição da incidência ocorra também uma diminuição dos casos fatais. Câncer não é uma doença única, mas um grupo distinto de patologias. Nossa genética, nossos hábitos alimentares, de vida e fatores ambientais podem constituir fatores protetores ou causadores de determinada neoplasia.

Nas últimas décadas, com o aumento crescente da incidência de câncer na população, cientistas estão cada vez mais engajados na descoberta de maneiras mais eficientes de preveni-lo, através da identificação de agentes causadores, mudanças na dieta e estilo de vida, detecção precoce de lesões pré-cancerígenas e desenvolvimento de medicamentos que as tratam ou estabilizam.

Há dois tipos de prevenção: prevenção primária e secundária. A primeira consiste na mudança dos hábitos pessoais de um indivíduo com o objetivo de reduzir a influência dos fatores ambientais causadores de uma determinada doença.

A segunda, diferentemente, foca no seu diagnóstico precoce, partindo da premissa de que quanto mais precoce o diagnóstico do câncer maiores são as chances de cura do paciente. Isso também tem um impacto econômico, uma vez que os altos custos do tratamento podem ser evitados quando há um programa de prevenção eficiente e de baixo custo.

O câncer tem um forte componente genético, fator esse que é inerente ao indivíduo e até o momento não pode ser suprimido. Entretanto, outros fatores de risco são evitáveis. O tabagismo está relacionado ao câncer de pulmão, cavidade oral, laringe, esôfago, estômago, rim, bexiga e pâncreas. Estima-se que, se o hábito de fumar fosse banido da humanidade, ocorreria uma redução de 30% na incidência das neoplasias.

O consumo excessivo de álcool por sua vez, principalmente o de bebidas destiladas, está relacionado ao desenvolvimento de câncer de esôfago, estômago, mama e intestino.


Atividade física

Com relação às atividades físicas, existem estudos convincentes que apontam para o seu efeito benéfico na prevenção do câncer de mama e cólon. Outros estudos, mas ainda preliminares, apontam possível ligação de exercícios regulares com a redução dos riscos de câncer de próstata, pulmão e endométrio.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA recomenda uma frequência de atividade física moderada por pelo menos 30 minutos cinco vezes por semana ou 20 minutos de atividade vigorosa 3 ou mais vezes por semana. A obesidade também interfere na incidência, elevando as chances de câncer de mama na pós-menopausa, colorretal, endométrio, esôfago, rim e pâncreas.


Agentes infecciosos

Alguns agentes infecciosos também constituem fatores de risco para neoplasias. O vírus do HPV está fortemente ligado ao câncer de colo uterino, assim como o vírus da hepatite B ao câncer de fígado, o vírus do Epstein-Barr ao linfoma de Burkitt e a bactéria Helicobacter pylori ao linfoma MALT do estômago. O desenvolvimento de vacinas tem sido uma arma efetiva na prevenção primária do câncer.

Atualmente o FDA (Food and Drug Administration), órgão norte-americano responsável pela aprovação e liberação do uso medicamentos no país, aprova o uso de duas vacinas para prevenção do câncer: da hepatite B para prevenção de câncer de fígado e do HPV para prevenção de câncer de colo do útero.

A exposição à radiação é outro fator de risco importante e potencialmente evitável. A radiação ultravioleta proveniente do sol é o principal fator de risco para desenvolvimento de câncer de pele não melanoma. O hábito de proteger a pele com filtro solar, utilizar vestimentas protetoras e evitar a exposição em horários de pico pode reduzir as chances de desenvolver câncer de pele.

A radiação ionizante utilizada principalmente em procedimentos médicos diagnósticos como o raio X e tomografias contribui para o aumento dos casos de leucemia, câncer de tireoide e de mama, tanto em pacientes que se submetem ao exame como em profissionais envolvidos na sua realização. As medicações imunossupressoras, amplamente utilizadas na medicina para tratamento de doenças relacionadas aos fenômenos de autoimunidade, podem aumentar as chances dos pacientes adquirirem câncer ao reduzir as defesas do organismo contra as células malignas.


Hábitos alimentares

Os hábitos alimentares exercem papel fundamental na prevenção primária do câncer. Dietas ricas em sal e alimentos defumados podem aumentar a incidência de neoplasias de estômago. Da mesma forma, uma dieta rica em gordura e pobre em fibras pode aumentar as chances de um indivíduo desenvolver câncer de intestino.

Há um grande questionamento sobre a relação entre dietas ricas em antioxidantes (beta-caroteno, vitaminas C, E, A, luteína, licopeno e o selênio) e redução da incidência de câncer, sendo um assunto ainda controverso. Antioxidantes são substâncias encontradas na natureza principalmente em frutas e vegetais. Elas protegem as células contra danos causados pelos radicais livres, substâncias fundamentais no processo de carcinogênese.

Estudos pré-clinicos utilizando cultura de células e cobaias animais apontam para um possível efeito preventivo do câncer nas moléculas antioxidantes. Entretanto, grandes estudos clínicos realizados em humanos levaram a resultados conflitantes e o real benefício dessas substâncias ainda permanece incerto.

Por ora, não há indicação de reposição de antioxidantes com objetivos de prevenção do câncer. Da mesma maneira, estudos envolvendo outras vitaminas (complexo B, D e ácido folínico) têm falhado em mostrar algum benefício neste sentido.


Agentes químicos

Agentes químicos ambientais também podem aumentar os casos de neoplasia na população. Tabagismo passivo, poluição e exposição ao asbesto estão relacionados ao câncer de pulmão. Pesticidas e outros poluentes e água contaminada com arsênio podem ser maléficos.

Vale ressaltar também a utilização de medicamentos para prevenção de neoplasias. O tamoxifeno e exemestane são exemplos de medicamentos estudados no sentido de reduzir a incidência de câncer de mama em algumas populações.

A finasterida também foi estudada em câncer de próstata, assim como a aspirina e outros anti-inflamatórios da classe COX-2 estão sendo estudados na quimioprevenção do câncer de intestino.

Enfim, são muitas as variáveis individuais e ambientais que determinam o desenvolvimento de uma neoplasia. A sua identificação é muito importante no processo de prevenção primária e secundária.

Neste contexto, os hábitos culturais de uma população, assim como medidas governamentais no sentido de construir um sistema de saúde abrangente devem caminhar juntos para que se possa ver uma redução efetiva na incidência e na mortalidade de câncer no mundo.