08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Em defesa do Centrinho


| Tempo de leitura: 4 min

Escrevo este texto para expressar minha opinião - e indignação - com a reportagem publicada sobre o Centrinho em 14/06/2013. Após cursar Odontologia na FOB, durante seis anos frequentei cursos de pós-graduação no Centrinho e há quase 10 anos tenho orgulho de pertencer ao seu corpo clínico após aprovação em concurso público - tendo sido criada em Bauru, na adolescência decidi cursar odontologia pelo sonho de trabalhar no Centrinho. Pertenço à Seção de Odontopediatria, cuja produção aumentou de acordo com a referida reportagem - apesar de as especialidades com aumento na produção terem sido referenciadas em letras miúdas, enquanto aquelas cuja produção supostamente reduziu terem sido apresentadas em letras enormes. Pertenço, também, à categoria de profissionais cuja jornada foi reduzida - outra incorreção da reportagem, uma vez que esta alteração de jornada atingiu outras profissões e não atingiu os fonoaudiólogos, ao contrário do mencionado. Estes aspectos já seriam suficientes para minha indignação, revelando uma natureza mais tendenciosa que esclarecedora e definitivamente não imparcial da reportagem. Mas minha indignação não para por aí. Há muito mais sobre o Centrinho do que a reportagem faz crer e que deve ser conhecido pela população da cidade.

Iniciando pelos números, a forma de faturamento de procedimentos pelo SUS não é exatamente clara, nem matemática, e muito menos imutável ao longo do tempo. A produção de um centro de atendimento à saúde faturada pelo SUS pode ser contada como número de pacientes, número de atendimentos, número de procedimentos... O que já pode dar origem a uma série de confusões. Existem ainda muitos outros aspectos relacionados à produção, como, por exemplo, a disponibilidade e concessão de recursos do TFD (Tratamento Fora do Domicílio), verba da qual a grande maioria dos pacientes de outras regiões depende para se deslocar até o Centrinho.

Somado a isto, existem estratégias do próprio Centrinho para promover a descentralização do tratamento. Só quem tem o problema pode imaginar as dificuldades enfrentadas pelas famílias para viajar horas - ou dias - para conseguir o tratamento necessário para seus entes queridos. No passado, e ainda hoje, isto levou muitas famílias a transferir suas residências para Bauru, para ficarem mais próximas do tratamento. Em 46 anos de existência, o Centrinho sempre se dedicou à capacitação de profissionais para atendimento destes pacientes em suas regiões de origem. Em longo prazo, isto deu frutos, e hoje o Centrinho não está só - hoje existem outros centros absorvendo ao menos parte da demanda de suas regiões. Isto é altamente benéfico para os pacientes, facilitando seu acesso ao tratamento, e também para o Centrinho, que não se preocupa apenas com números de atendimentos, mas também com sua qualidade. Apesar de todas as "mudanças" e "problemas" listados na reportagem, continuamos sendo o maior centro de tratamento de fissuras labiopalatinas no País. Continuamos oferecendo atendimento de qualidade e realizando pesquisas - graças ao ainda enorme número de pacientes que atendemos - para definir protocolos de tratamento que possam oferecer os melhores resultados. Inclusive, muitos funcionários da instituição encabeçaram e estão envolvidos em uma iniciativa nacional, já realizada em países desenvolvidos, com o objetivo de aprimorar e padronizar o tratamento realizado aqui e em outros centros. Em março deste ano, o Centrinho hospedou uma reunião deste grupo envolvendo quase 100 participantes das cinco regiões do País, que estão oferecendo o atendimento necessário aos pacientes próximos às suas casas. Em maio deste ano, o congresso mundial de fissuras labiopalatinas realizado na cidade de Orlando recebeu mais de 1.500 congressistas, no qual o Brasil foi a maior delegação após os Estados Unidos, contando com cerca de 150 congressistas, dos quais apenas um terço era do Centrinho - sendo os outros de outros centros brasileiros, e em sua maioria ex-alunos do próprio Centrinho.

Apesar de não sermos perfeitos, acredito que o atendimento realizado no Centrinho é muito superior comparado à maior parte dos hospitais da rede SUS e continuamos fazendo todo o possível para nossos pacientes. Isto inclui funcionários antigos e novos, aqueles que tiveram alterações no contrato, e até funcionários da Funcraf ainda na ativa, que permanecem trabalhando com total dedicação. Isto inclui, principalmente, a atual administração, representada pela dra. Regina, que assumiu o Centrinho em um período de intensas mudanças e adaptações e, apesar disto, tem conseguido manter o atendimento com a qualidade e dedicação de sempre, exercendo uma administração transparente, imparcial e plenamente dentro da Lei, para uma instituição pertencente ao Estado.

Alguns trechos da reportagem ofenderam centenas de funcionários - maioria dentro do Centrinho - que oferecem seus serviços com amor e carinho pelos pacientes, apesar das limitações inerentes aos serviços públicos de saúde brasileiros. Alguns trechos generalizam para a maioria problemas e opiniões tendenciosas e até politiqueiras de uma minoria, com um caráter pouco informado e informativo sobre a real situação de nosso querido Centrinho. Assim encerro este texto, com a esperança de que a população bauruense saiba que o Centrinho continua sendo motivo de orgulho para a cidade - e convidando quem se interessar a nos visitar e conhecer de perto o trabalho que realizamos e, principalmente, o nível de satisfação de nossos pacientes, que são a real razão de nossa existência.


Gisele da Silva Dalben