08 de julho de 2026
Articulistas

A greve e a democracia

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

A greve, matrona alquebrada e frágil, há muito resta ultrapassada. A força sindical sobrevive a usufruir de contribuições assistenciais e, esporadicamente, retira dos armários megafones e caixas de som a exibir a mesmice por minguados dias alardeando direitos e conquistas. Pouco trabalho e muito barulho, torna evidente o ínfimo período de representação se comparado ao compromisso assumido para a proteção de seus associados. Caberia aos sindicatos intermediar junto aos empregadores, diuturnamente, durante o deslizar do ano, demonstrando promissor trabalho efetivo revestido de ordem e determinação para a proteção de seus colaboradores compulsórios.

O barulho temporário denota o precário cumprimento da obrigação de fazer, que além de mal elaborada se compara à inócua operação tapa buracos de ruas e avenidas em véspera de eleições, ou seja, remenda, remenda e faz nascer o provisório definitivo. Atualmente, o ultrapassado movimento grevista, nada mais é que a sobra rançosa do século passado, cujo resultado prejudica sobremaneira milhares de trabalhadores, estudantes, famílias e crianças, criando o caos social.

Onde está o direito de ir e vir gravado na Constituição Brasileira? Onde esconderam o fiel da balança que afere o equilíbrio da verdadeira cidadania? O que se demonstra é que a população está refém de poucos, escancarando a grande e vergonhosa realidade que agasalha nosso País: a ditadura mascarada e implacável, que escraviza o proletariado dependente, miseravelmente assistido, quer na educação, quer na saúde e, acima de tudo, fragilizado moralmente.

Para que insistir em greves se o poder resta nas poderosas mãos de quem empunhou estandartes carmins, símbolos de proteção aos trabalhadores? Onde e como resgatar o escondido direito constitucional que não delega poderes à minoria em cercear o direito da maioria? Retrógada se mostra a atitude dos sindicatos, em pleno século XXI quanto à necessidade de mostrar domínio sob a égide de convulsão social.

Urge repensar o modus operandi da força sindical, que, no século passado, se dizia útil para a conquista das irmãs siamesas: cidadania e democracia. Porém, se ambas foram conquistadas e constantemente cantadas em prosa e verso, qual a causa da ousadia oferecida à minoria em manipular o direito da maioria? Seria um abuso de poder? Ou um prenúncio de retrocesso político? Ou pior, talvez uma forma de engessar a vontade popular e dar continuidade ao covarde processo da utilização da canga de plástico?


A autora, Valderez de Mello, é advogada, pedagoga, psicopedagoga - autora de Trama e Urdidura e Lágrimas Brasileiras