08 de julho de 2026
Articulistas

Roteiro para novela

Antonio Guedes A. Assunção
| Tempo de leitura: 3 min

Em entrevista a um canal de TV brasileiro, o brilhante senador Cristóvan Buarque disse que ninguém pode passar mais do que 8 anos no poder, inclusive ele próprio, defendeu, pois o poder corrompe! Esta afirmação do senador aplica-se a todos os cargos de direção e não apenas aos políticos de Brasília. Vamos, então, numa situação hipotética, imaginar alguém passar quase meio século dirigindo uma instituição, onde os profissionais eram remunerados por tarefa realizada. Combinação perfeita para a aplicabilidade do mais perverso instrumento maquiavélico de controle das mentes e inibidor de críticas, mesmo as mais construtivas e claramente em favor dos beneficiários desta instituição. Imaginemos o salário dos profissionais variando de acordo com o bel prazer do donatário. Associado a tudo isto, alguns profissionais, que fazem parte do staff confiável, e por isso mesmo com altos salários fixos, fiscalizando e dedurando os profissionais "rebeldes". Eis aí um enredo perfeito para uma novela que daria grande audiência.

Uma instituição é considerada séria e cientificamente respeitada internacionalmente, pelo seu poder de criação científica. Embora o dito esteja claro, vale ressaltar que criação científica significa a publicação de trabalhos científicos comunicando ao mundo acadêmico as descobertas, invenções e inovações em um determinado campo de atuação, originais e advindas dos cérebros desta instituição. A publicação de trabalhos científicos não originais é válida para o exercício de aprendizado em pesquisa científica de seus profissionais, principalmente aqueles em início de carreira. Mas isto por si só não confere o respeito internacional a uma instituição. Ser conhecido pela prestação de um serviço é uma coisa. Ser respeitado cientificamente pela geração de conhecimento é outra coisa.

Qual organismo credenciado internacionalmente alçou determinada instituição à "melhor" da América latina, por exemplo? Ser conhecida internacionalmente (ser conhecido na Bolívia já é ser conhecido internacionalmente) não significa ser Reconhecida da mesma maneira e por organismos internacioanis de peso. A propaganda intensa e ininterrupta durante anos a fio explica o "ser conhecida". Goebbles, ministro da propaganda de Hitler, dizia que uma mentira dita mil vezes torna-se uma verdade. Como dar crédito e reconhecimento a uma instituição que, apesar de ter o maior número de assistidos no mundo em determinada doença, não conseguiu até hoje estabelecer uma conduta ideal de tratamento para ela? Ou mesmo uma contribuição, por menor que seja, uma pequenina tática cirúrgica, por exemplo, para a melhoria do tratamento de determinada doença? Não existe uma só conduta terapêutica que tenha sido gerada na nossa hipotética instituição que seja adotada em algum serviço sério do nosso mundo imagináio.

Uma instituição que se limita a apenas testar técnicas e procedimentos cirúrgicos vindos de Serviços estrangeiros que assistem a um número 30 vezes menor de indivíduos não está cumprindo o seu papel de fazer avançar a ciência e, consequentemente, a melhoria da qualidade de vida de seus assistidos. Tal instituição, com tal volume de assistidos, teria por obrigação ditar normas de conduta terapêutica na sua área de atuação. Não o fazendo, não sai da mediocridade.

A força da publicidade pode induzir uma cidade inteira, carente de heróis e com a reputação maculada por ter sido conhecida durante anos por atividades menos nobres, embora muito antigas, a aceitar passiva e alegremente o redentor "canto das sereias". Não se podem creditar bônus a quem cresceu descumprindo as leis trabalhistas durante anos a fio e implantando o terror entre os profissionais, paralelo perfeito para a escravidão. Este é um roteiro de uma obra de ficção que estamos escrevendo e que faz parte da nossa rotina profissional. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.


O autor, Antonio Guedes A. Assunção, é médico cirurgião plástico e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica