Bauru: mais uma morte por A-H1N1. Bauru: chegando a 6 mil casos de Dengue. Bauru: pertence à região mais rica do Brasil (e da América Latina inteira!). Sentiu a contradição? Bem-vindo ao Brasil: um país de contrastes inquestionáveis. Por aqui, conseguimos ser a 6ª maior economia do mundo. Mas, por aqui, conseguimos ser o 85º em IDH. Somos um verdadeiro paradoxo social. E Bauru, claro, é um exemplar perfeito desta nação... A expressão "país de terceiro mundo" é da época da Guerra Fria. E queria indicar os países mais atrasados: que não faziam parte nem do grupo dos EUA e nem do grupo da União Soviética, na época. Entretanto, na atualidade, a expressão ganhou uso pejorativo. Hoje, ela apenas identifica atrasos sociais absurdos em um ou outro país. No caso do nosso bauruense Brasil ou nossa brasileira Bauru, quando o assunto é: saúde, educação e segurança vemos, então, a denúncia do nosso terceiro-mundismo (ainda que ostentemos um berço esplêndido de crescimento econômico). Sim, tudo isso é uma dialética confusa e devastadora.
A maior praga da História foi a Peste Negra. Matou dezenas de milhões de seres humanos! Lá vai uma curiosidade: os europeus diziam que a Peste era doença de pobre. Diziam que os judeus estrangeiros é que estavam trazendo a praga para a Europa. Os pobres, por sua vez, sem ter a quem culpar, culpavam a Deus. Ou, melhor dizendo: culpavam os pecados humanos. A Peste seria, então, mera punição divina lançada contra a humanidade. Também a AIDS muitas vezes foi acusada disso. Hoje, entretanto, bem sabemos que a Peste Negra foi causada pela má higiene da sociedade do século XIV. E, por sua vez, a AIDS só se pega por sangue contaminado. Ou seja, a sociedade atual apela menos para Deus quando o assunto são epidemias.
Ora, com a ascensão das democracias no mundo, as regiões se tornaram pertenças de seus povos. Na prática, falando diretamente, isso significa que Bauru pertence aos seus habitantes. E, legalmente, possui um governo instituído, responsável por seu desenvolvimento. Sendo assim, ao menos por aqui, ao menos na atualidade, ninguém vai tolerar o nosso prefeito (ou seja lá quem for) dizendo que as mortes por Dengue ou por Influenza A são culpa dos pobres ou culpa de um ou outro Deus... E não usar desculpas, obviamente, já é um bom primeiro passo. O segundo, como diria o filósofo Sartre, seria "assumir o nosso papel de intervenção na sociedade".
Assumamos a realidade: somos um país riquíssimo; somos um país com necessidades de saúde básica a serem atendidas. Identicamente o mesmo vale para Bauru: somos uma cidade das mais ricas; somos um município com necessidades gritantes em sua saúde. Diante disso, se Sartre estiver certo: democracia é algo construído a muitas mãos. Questões que surgem então: o prefeito está sujando as suas mãos para limpar os lotes para o combate da Dengue? Os nossos vereadores estão nas ruas controlando esse número assombroso, 6 mil, casos no município? E o povo? O povo se informa sobre como vencer a gripe A-H1N1? As metas de vacinação popular por acaso foram atingidas?!
Enfim, no Brasil-Bauru não adianta o rico se fechar dentro de condomínios. Pois nossas doenças ainda são das mais democráticas possíveis: o mosquito da Dengue pode voar até 1km para encontrar a sua vítima. Já pensou? Por isso, não há como se esconder. Ou a sociedade (rico e pobre, preto e branco, hetero e homo, ateu e crente...) se une em função de nossa política social, se une em função do nosso projeto de democracia, ou então vamos continuar neste país de contrastes. Neste povo terceiro-mundista, que ainda não leu Sartre e não assumiu o seu papel social. Um povo que já tem algum dinheiro no bolso, já consegue ganhar a vida trabalhando, mas, infelizmente, ainda perde a vida, perde a vida de fato, muitas vezes, com doenças evitáveis como a Gripe e outras, facilmente evitáveis, como a Dengue.
O autor, Wellington Anselmo Martins, é professor, mestrando em Filosofia, graduado em Filosofia e estudante de Jornalismo / am.wellington@hotmail.com