Pode haver luz no emaranhado de análises que procuram entender por que e pelo que agem esses jovens e esse povo todo que tomou as ruas do Brasil, querendo fazer crer que o país, que já andava cansado, enfim acordou. De fato, eles nem de longe lembram aqueles senhores de gravata e maquiagem que posaram, anos atrás, pregando a bazófia do "cansei". Ali só havia conversa. Agora, há atitude, há protesto, ainda que pareça faltar um manifesto. Tarifa de ônibus, saúde, educação e a denúncia do ralo de dinheiro da corrupção e do desperdício em obras para a Copa, tudo isso faz sentido. Mas a mensagem geral é de que o pão e circo que a modernidade reeditou já não satisfaz.
O que não justifica, mas dá argumento à repressão, é quando a oportunidade vira oportunismo, e este descamba em vandalismo. Ou no crime mesmo de quem se aproveita do tumulto para saquear e depredar o que custa a construir. "Sobe, sobe, os notebooks estão lá em cima, aqui embaixo só tem roupa", gritava um dos cinquenta que invadiram uma loja das Pernambucanas no centro de São Paulo. "Fogo na burguesia" era palavra de ordem estampada em muros do Rio. No fim, entre o legítimo direito de tentar mudar uma realidade que precisa mesmo mudar e a rebeldia desenfreada que não distingue causas e alvos, resta a evidência de uma crise da autoridade, prevista na filosofia, e que agora dá prova de si.
Nosso Congresso, afinal, representa quem? Nossa polícia protege o quê? Nossos impostos, para que servem? Nossa justiça, o que garante? Que valores orientam a política e o poder? Todo um projeto de civilidade está em jogo e em xeque aí. O "protesto, logo existo", síntese pós-cartesiana dessa geração que respira complexidade, pode não ter essas respostas, nem ser ainda o rompante de nossa primavera. Mas já atraiu andorinhas suficientes para fazer verão.
O autor, professor dr. Francisco Rolfsen Belda, é professor de jornalismo na Universidade Estadual Paulista - Unesp, câmpus de Bauru