08 de julho de 2026
Articulistas

A insatisfação é geral

Pedro Tobias
| Tempo de leitura: 3 min

Eu era estudante em Paris no ano de 1968 e fui às ruas nas manifestações. De fato, não tinha a compreensão total do que estava fazendo ali, mas sabia que tinha que estar. Quarenta e cinco anos depois, ainda tentam contar e explicar o que aconteceu, como e porque ocorreu. Sei que havia uma revolta no ar. Uma rebelião que explodia sem que o motivo real surgisse em algum cartaz e as autoridades entendessem. O Governo se perdeu em brigas internas e o movimento cresceu do dia para noite.

De todos os movimentos que participei ou estive, fora as guerras, pois integrei os "Médicos sem Fronteiras", nada me explica mais do que este paralelo com o que ocorre hoje no Brasil e aquela França onde vivi e pós-graduei-me médico. Penso que o atual movimento reflete uma insatisfação de valores políticos, éticos e morais que atingem a forma democrática que nós estabelecemos: a representação.

Esta democracia representativa cansou. Não consegue mais dar respostas que a sociedade precisa. O político de hoje, perante o eleitor, é um ônus que ele tem que pagar e pagar caro. Este mesmo eleitor vê e sente que seus impostos estão sendo mal investidos em obras faraônicas desnecessárias, como os gastos de R$ 25 bilhões em torno da Copa do Mundo, quando falta o básico, o simples. Programas eleitoreiros desviando recursos do transporte, da educação, da saúde e da segurança. Mais ainda, o achincalhe impróprio praticado contra o Supremo e a má conduta perante as leis. O dinheiro público nas mãos de quadrilheiros e por aí está o desgoverno. O que fazer?

Então, vamos protestar e dizer que como está não aceitamos mais. Três reais e vinte centavos para nos tratarem feito gado, apertados, sem conforto nenhum, correndo risco para ir ao trabalho, ou escola, ou qualquer lugar, "tá aí o que me faltava".

Correndo o risco de errar em nome de uma análise ligeira, pois os cartazes de ontem eram muito bem elaborados, com pautas surpreendentes até para um deputado estadual com quatro mandatos, como por exemplo: "Que a especulação imobiliária pague por obras que tragam melhorias para os bairros mais pobres". Vimos que sabem o que pedir. Querem mais hospitais, ensino com qualidade, um basta à corrupção e também pedem paz, além de outros desejos. Este foi meu sentimento do pulsar das ruas.

Eles cansaram da democracia representativa e querem pedir diretamente aos governos. Não estão reconhecendo mais os partidos e nem os políticos. A democracia participativa, que pode ser a solução, ainda é muito incipiente e necessita prioritariamente da militância, acabar com os partidos com "donos", partidos com legendas de aluguel, democratizando e fortalecendo mais os ideológicos.

Não há como discutir mais a legitimidade dos que estão nas ruas do Brasil se mobilizando. Estão fazendo o papel que a Nação exige de todas as suas gerações. Contra as ditaduras, por uma nova Constituinte, pelas liberdades democráticas, pelas Diretas Já, Fora Collor. Todas vencidas. Ganhou o País e a Nação, e agora?

Temos que vencer juntos pelo Brasil e nossas futuras gerações, que graças ao dinamismo brasileiro, estarão também se manifestando nas ruas. Sinto que a maior vitória é conseguirmos ampliar a ponte entre representantes e representados. O mandato popular é para abrir os sentidos para os acontecimentos e não para escondê-los.

O autor, Pedro Tobias, é deputado estadual