Em recente comentário falei de um artigo superinteressante da inteligente jornalista Raquel Landim na Folha de São Paulo, no qual ela desvenda mais uma jabuticaba da realidade brasileira: somos a única economia do planeta capaz de lidar simultaneamente com 29 índices de inflação! Eles são construídos por quatro respeitáveis instituições - IBGE, FGV, FIPE e DIEESE - que medem no tempo, no espaço e em diversos setores as variações das taxas a inflação, divulgadas em períodos certos em todas as frequências. Constroem até mesmo índices diários, exclusivos, pagos pelos clientes interessados (à FGV) por necessidade de ofício.
Antes de terminar de redigir o comentário, tive que acrescentar apressadamente um novo índice ao jaboticabal: no último dia 7 de junho a Ordem dos Economistas do Brasil relançou o seu Índice de Custo de Vida da Classe Média, que acompanha 468 bens e serviços. Divido com meus leitores uma singela questão: o brasileiro é ou não é o cidadão do mundo mais bem informado e atualizado sobre os problemas da inflação? A jornalista Raquel Landim ofereceu mais uma informação no seu excelente artigo, a de que "na Austrália o índice da inflação é divulgado à cada três meses"...
Isso me trouxe à lembrança a "batalha dos índices" que ocupou enormes espaços da mídia (impressa, televisiva e blogueira) nos meses de março e abril, a propósito da "inflação do tomate", quando estava no auge o "cabo-de-guerra" entre o governo e o sistema financeiro para decidir sobre a necessidade de elevação das taxas de juro como o instrumento capaz de impedir que a meta da inflação fosse ultrapassada.
Venceram os argumentos e os poderosos músculos do "mercado". A taxa Selic subiu de 7,25% para os atuais 8% aa. reiniciando o alegre retorno em direção à "meta" de colocar a taxa de juros brasileira novamente no topo do mundo. E a banda superior da meta de inflação (6,5%) foi apenas levemente ultrapassada por um breve período, enquanto os índices de preços passaram a se comportar de forma mais civilizada com a regularização da oferta dos produtos da agricultura.
Decorrido o período para normalização da produção, os preços retornaram aos níveis habituais e a terrível "inflação do tomate" deixou de existir para a mídia. A atoarda, no entanto, cumprira o seu papel de turbinar as expectativas, com o tomate servindo de isca e motivo para diversos índices mostrarem uma inflação "fora de controle", que a elevação dos preços estava se generalizando em toda a economia e que a "salvação da pátria" dependia do aumento da taxa de juros.
Na ocasião, não foram considerados os fatos que mostravam que o problema do tomate era sazonal. Em cada mercado particular os preços variam em função das características da demanda e da oferta. A demanda é condicionada por hábitos culturalmente determinados (as donas de casa têm dificuldade de substituir o tomate nas receitas que aprenderam com suas avós). Do lado da oferta, ela é fixa no curto prazo: depende da área plantada há 90 dias em resposta aos estímulos recebidos dos preços no momento do plantio. Se há um problema climático que reduza a quantidade ofertada, o equilíbrio entre a oferta e a procura no curto prazo exige um dramático aumento do preço. Isso não é inflação. É um ajuste de preço relativo que cortará a demanda para ajustá-la ao nível da oferta. Como aconteceu com o preço do tomate que voltou ao patamar antigo, aliás em menos de 90 dias...
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC