08 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Marco Cesar Campagnucci

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

O empresário Marco Cesar Campagnucci tem 57 anos, é casado e viajado. No ramo de escolas de idiomas há quase três décadas, seu trabalho começou quando ele fez um intercâmbio nos Estados Unidos para aprimorar o inglês. De volta a Bauru, Marco atuou como professor de inglês em cursinhos pré-vestibulares até abrir a sua própria escola em meados da década de 1980: “Tudo aconteceu muito por acaso, mas percebi que o meu caminho era o ensino de inglês”, completa.


Engenheiro por formação e fã de rock e blues pelo prazer da música, o entrevistado de hoje também fala sobre o novo desafio profissional já em andamento: a implantação de uma rede bauruense de escolas de idiomas, a American Corner.


Membro do Rotary Clube e tesoureiro da Fundação Inácio de Loyola, ele conta com orgulho sobre o tempo em que foi militante estudantil. Confira estas e outras histórias, a seguir.


Jornal da Cidade - Você começou a trabalhar com o ensino de idiomas ainda bem jovem. Como surgiu a oportunidade?


Marco Cesar Campagnucci - Tudo aconteceu muito por acaso porque, na verdade, eu sou de uma época em que era difícil as pessoas fazerem intercâmbios ou simplesmente viajar para o exterior, isso no final dos anos 60. E aquelas pessoas que tinham tal privilégio voltavam falando outra língua, principalmente o inglês, e eram convidadas a serem professores. Havia nisso uma possibilidade de trabalho. E foi o que aconteceu comigo. Eu fui para os Estados Unidos como aluno de intercâmbio, em 1970, voltei para o Brasil e viajei novamente para a casa da mesma família que me acolheu como intercambista. Fiquei lá por mais seis meses e, quando retornei a Bauru, comecei a dar aulas de inglês. Juntei uma grana por um ano e fui para a Inglaterra para me aprimorar linguisticamente. Entretanto, também fui com segundas intenções, pois haveria um show de rock do Led Zeppelin no dia 14 de fevereiro de 1974. Eu tinha 18 anos de idade e precisava ir (risos).         


JC - Então você é fã de rock.  


Marco - Muito mesmo. Eu sou louco por rock e blues e aquele foi um show mítico para mim. Eu comprei o bilhete com um mês de antecedência e tudo mais. Bom, depois eu voltei, em 1975, e fiz faculdade de engenharia mecânica na instituição que hoje é a Universidade Estadual Paulista (Unesp).  


JC - Informática é outro hobby?


Marco - Eu gosto muito de mexer com computadores. Monto, desmonto, conserto... Eu faço a manutenção das máquinas da escola, por exemplo, além de dar um jeitinho nos computadores da família, dos amigos, dos funcionários... É algo que eu faço por prazer.   


JC - Você chegou a atuar como engenheiro?


Marco - Nunca trabalhei com engenharia, a não ser no início, assim que terminei a faculdade e dei algumas aulas em cursinhos de matemática. Mas o meu foco sempre foi o inglês e a minha vida começou a acontecer a partir daí. Fui aluno do professor Duda e, quando ele montou a escola, em 1974, ficamos muito amigos e ele me convidou para ser professor de inglês no cursinho do Objetivo. Ele começou a abrir unidades em Lins, Botucatu, Marília... E eu passei a dar aulas em todos esses lugares. Havia acabado de me formar, mas ganhava muito mais como professor de cursinho do que ganharia como engenheiro. Eu tive oportunidade de trabalhar nessa área, mas não me pagavam nem um décimo do que eu estava ganhando como professor.   


JC - E quando você abriu a sua própria escola?  


Marco - Eu comecei a dar aulas em 1977 e, em 1985, o próprio Duda Trevisani me incentivou a montar a minha escola de idiomas, uma franquia do Yázigi. Ele seria o meu sócio, mas isso não aconteceu porque ele estava com outros planos, porém, me cedeu um espaço no Centro, onde era o Diário de Bauru, e me deixou entrar no cursinho dele como professor e ainda fazia propaganda da minha escola para os alunos. Ele foi uma mão na roda mesmo. A escola começou a crescer a ponto de chegar a ser a maior unidade do Yázigi do Brasil. Em 1995, nós chegamos a ter mais de 1.600 alunos em uma única escola. Construímos dois prédios próprios, inclusive o do Higienópolis que era uma casa da minha família, e o da Antônio Alves. Foi a primeira construção com estrutura metálica da cidade, projetada pelo Jurandyr Bueno.    


JC - Você viveu na Espanha, certo?


Marco - Ao longo desses quase 30 anos de trabalho, eu ocupei praticamente todos os cargos dentro da rede Yázigi. Fui diretor e até sócio deles em uma escola na Espanha. Morei lá por dois anos por causa dessa unidade, que ensinava inglês para espanhóis, espanhol para estrangeiros e português para espanhóis. Mas eu estava com dificuldades e acabei vendendo a minha parte para um grupo alemão. É muito complicado você ter um negócio fora do País. A cultura é diferente, as leis são diferentes... Percebemos a dificuldade e paramos.  


JC - O trabalho com idiomas deve ter rendido a você uma boa bagagem de viagens.


Marco - Ah, sim. Nos anos 90, a rede Yázigi não tinha essa parte internacional bem estruturada e os alunos procuravam. Nós tínhamos contato com uma escola em Nashville, no Tennessee, e íamos para os Estados Unidos com grupos grandes de alunos que iam para estudar, para conhecer a Disney... Nessa época, a gente fazia três ou quatro viagens por ano com alunos. Normalmente, eu mesmo acompanhava os grupos. Em 2000, a rede se estruturou para as viagens. E, hoje, nós voltamos a fazer intercâmbio direto com o exterior, sem intermediários, o que acaba barateando as viagens. É uma coisa que eu também adoro fazer.   


JC - Como surgiu a necessidade de deixar a franquia para ter um nome próprio?


Marco - A gente se separou da antiga rede porque sentimos que não havia mais motivos para fazer parte dela, que foi vendida. Até 2010, tínhamos um projeto muito gostoso com a família que era a dona da rede. Enfim, foi uma transição traumática com o novo grupo, nós passamos a ser apenas mais um e optamos por montar a nossa própria escola, já que tínhamos toda a estrutura para tal coisa. Montamos a American Corner com toda a nossa experiência e estamos nos preparando para ser realmente uma rede. Ter nossa própria franquia é um objetivo.


JC - Além do trabalho, hobby e família, o que mais preenche o seu tempo?


Marco - Eu sou tesoureiro de uma fundação há três anos, a Inácio de Loyola, que nós chamamos de Casa de Nazaré. Ela abriga meninas que foram abusadas pela própria família, foram vítimas de maus tratos... Enfim, abrigamos os casos que são determinados pelo juiz. Elas não estão lá porque querem ou porque foram encontradas nas ruas, elas passaram por muitos conflitos e houve a determinação judicial para isso. E o trabalho é muito bacana lá dentro porque nós temos um ponto de cultura muito legal. Recentemente passei a fazer parte também do Rotary Clube, que ajuda a Casa de Nazaré.  


JC - Fale um pouco sobre a sua história com a militância estudantil.


Marco - Fiz parte do movimento estudantil da década de 1970, quando estava na universidade. O Brasil vivia um momento complicado com a ditadura militar, eu fui o presidente de um grupo de esquerda e nós queríamos melhorar de alguma forma ao menos o nosso mundo, o universo acadêmico. Naquela época, o Luís Carlos Azenha trabalhava no Jornal da Cidade e era meu amigo de infância. Ele fez uma entrevista comigo e o material acabou saindo em uma página inteira, com foto e tudo, mas não recebi nenhum tipo de ameaça por isso. Entretanto, os professores vinham até mim pedindo para eu tomar cuidado com o que eu falava (risos).


JC - Como você avalia os atuais protestos pelas ruas do Brasil?


Marco - Com a ditadura militar as coisas eram realmente muito mais complicadas, a gente vivia pisando em ovos. E o que eu vejo hoje é que as pessoas precisam de uma bandeira. Existe uma insatisfação generalizada por causa dos problemas brasileiros. É problema de infraestrutura, corrupção, políticos que não olham para as necessidades da população... Isso tudo acabaria explodindo em algum momento. Mas não é nada político como era naquela época. Cada um está protestando por uma coisa diferente e muitos estão aproveitando a situação, contudo, as pessoas estão mostrando a sua insatisfação ao governo.