A História registra, que quando o povo entrou na Bastilha, havia um único preso. Não era um revolucionário, e sim um alcoólatra. Mas, mesmo assim, significou a conquista do poder pelo povo. O Estado significava agora o "Nós", não mais o "Eu" do absolutismo monárquico. A nova ordem social não surgiu de repente, foram mais de 200 anos de iluminismo até que o povo chegasse pela primeira vez à razão natural da sua existência: "todos são iguais perante a lei". Pelo menos ao nascer. No Brasil, país considerado pacato por quem conhece pouco a História, não foi diferente. A maioria dos nossos livros ainda mostram os resultados na ótica dos "vencedores" ou manipuladores de resultados. Parece ser de propósito que o povo nunca se envolve e assim construímos os mitos e heróis "macunaimizados", se me permitem um neologismo.
Um povo que aprendeu muito cedo que "quem tem juízo obedece, pois quem não tem apanha". E assim fez sempre, delegando seu poder político aos representantes dessa classe. Observamos que não é que não se envolve em política, não se envolve nos partidos, pois ainda hoje, poucos acreditam nas siglas. Estas são substituídas pelo cotidiano: rei e rainha do rádio, rei da juventude, rei do futebol e assim segue a realeza. Com isso não se prende a políticos, somente a alguns carismáticos.
Recentemente a História do Brasil, foi marcada por um período chamado de Ditadura Militar, a luta pela democratização e a conquista de uma Constituição, a mais plena lei de conquistas da cidadania. É claro que poucos leram, mas o importante, hoje, é poder dizer que a temos e podemos usá-la. As inquietações foram se acomodando à medida que avançamos no crescimento e progresso econômico. Pouco se fez pelo social. Com isso, a fábrica de votos está garantida.
Recentemente tivemos o movimento dos "caras pintadas". A juventude saiu à rua para pedir e exigir, sem derramamento de sangue, a saída de um presidente eleito democraticamente. Não foram poucas, as vezes que citamos a sua alienação, a sua conformidade e a sua acomodação. A conquista de votar aos 16 anos mais pareceu uma novidade do que uma conquista de cidadania plena, ou seja, eu faço parte do sistema e posso modificá-lo.
Quando tudo parecia bem e acomodado, quando a maioria dos jovens "tuiutava" sobre seus interesses, inclusive, muitas vezes nos incomodando nas salas de aulas, pela falta de atenção a matéria dada, pois estavam seguindo alguém, vimos atônitos outra situação. Acredito que até o momento ninguém tem clara noção de que isso acontece e, reforço, ainda ninguém tem condições de explicar esse fenômeno. São meras especulações. Precisaremos de um tempo maior para amadurecer o que está acontecendo e suas consequências. É uma situação nova, sem lideranças políticas ou de outras esferas. Se alguém assumir este papel hoje, será deixado de lado. O movimento não é partidário, não é religioso, não se identifica com nada, apenas com o social. Alguns exageram nas suas reivindicações. A maioria está mais preocupada com o ir e vir, e quanto pagará por isso. Está mais preocupada com as filas da morte na saúde; está muito mais preocupada com a falta de escolas, professores e verbas educacionais. Para eles, naturalmente, o ser humano é o patrimônio maior. Este sim deve ser primeiramente preservado. Não se pode acomodar, quando, inclusive ele, não tem lugar para tratar de uma "simples gripe mortal" ou mesmo de uma doença comum no Brasil, já erradicada na maioria dos países.
O movimento das ruas tomou parte de outras cidades, primeiramente em busca de cidadania e da substituição de governos totalitários. No Brasil, diferentemente, usando da sua dimensão democrática, o povo dá um passo novo e importante. As instituições diversas deverão, em tempo, observar, analisar e aprofundar este processo e se organizar, pois também poderão passar por modificações.
Quem sabe antes de chegarmos a uma hecatombe, uma nova ordem social chegará e não precisaremos mais de pedras ou paus, porque teremos um mundo melhor, mais humano, mais fraterno, onde as condições de vida sejam favoráveis a todos. Onde será possível não mais esperar a vida eterna para se conquistar o céu, porque aqui, o sonho de se ter um novo céu e uma nova Terra, veio de um sacrifício de cruz, que pudesse nos libertar e que, nos tornássemos semelhantes, como filhos e filhas de Deus. Para uns, utopia. Para nós, esperança. E "a esperança não decepciona" (Rm 5,5).
Professor mestre diácono José Rafael Mazzoni, coordenador do curso de Geografia da Universidade Sagrado Coração