10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Com fim de estímulos do Fed, moedas devem se desvalorizar

Fábio Alves
| Tempo de leitura: 7 min

A redução de bilhões de dólares em estímulos monetários pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deverá levar a uma desvalorização de mais 15% nas moedas de vários países emergentes, incluindo o real, nos próximos 6 a 12 meses, alertam especialistas internacionais.

Segundo eles, a normalização das condições monetárias nos Estados Unidos resultará num choque externo de grande magnitude para muitas economias emergentes, com alta da inflação, desaceleração maior do crescimento e com custo fiscal extra para rolar a dívida pública. Nesse mapa mundial do contágio, o Brasil está entre os mais vulneráveis a uma forte correção na bolsa de valores, no câmbio e nos juros pagos pelos títulos públicos.

Os mercados financeiros globais despencaram desde que o presidente do Fed, Ben Bernanke, deu sinais de que reduzirá o ritmo de compras de ativos, atualmente em US$ 85 bilhões por mês, a partir do segundo semestre deste ano, encerrando provavelmente esses estímulos monetários em meados de 2014.

“Estou muito pessimista em relação a todos os mercados emergentes”, diz o chefe de estratégia de mercados emergentes do banco francês Société Générale, Benoit Anne. Nos próximos seis meses, em razão dos efeitos da retirada dos estímulos monetários pelo Fed, ele prevê uma desvalorização adicional de 15% nas moedas emergentes e uma elevação em 3 pontos porcentuais dos juros pagos pelos títulos de dívida pública de países emergentes “A correção será severa.”


Tensão

No Brasil, o dólar chegou a bater R$ 2,2760, mas cedeu depois de sucessivas intervenções do Banco Central. Mesmo assim, a moeda americana acumulou naquela semana valorização de mais de 5% ante o real. No mercado futuro de juros, as taxas dos contratos com vencimento em 2017, por exemplo, já subiram 1,17 ponto porcentual na semana.

“A reação dos mercados globais que estamos observando desde o fim de maio é apenas um aperitivo de como os países emergentes vão lidar com a elevação dos juros dos títulos do Tesouro americano e, por tabela, a valorização do dólar”, explica Chris Turner, chefe global de estratégia de câmbio do ING.

Os juros pagos pelos títulos do Tesouro americano com vencimento em 10 anos subiram mais de 42% no acumulado deste ano. Esse papel fechou 2012 pagando uma taxa de 1,759%. No último dia 21, a taxa estava em 2,5%. E quando o Fed começar, de fato, a retirar os estímulos, há quem espere que os juros desses papéis superem 3%. Essa subida dos juros de mercado já começou a atrair de volta para os EUA bilhões de dólares hoje investidos em outros países.

“O prato principal (desse choque) será servido, e sentido, quando o Fed começar a, de fato, diminuir as compras de ativos e reduzir os estímulos monetários”, explica Turner. Para ele, o dólar deverá se valorizar mais 10% ante as moedas de países desenvolvidos, como o euro e o iene, nos próximos 6 a 12 meses, com as divisas de países emergentes podendo perder até 15% no período.

 

Há chance de o Brasil entrar em recessão em 2014, diz especialista


O impacto sobre o câmbio e os juros de um choque causado pela redução dos estímulos monetários pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) poderá empurrar a economia brasileira para a recessão em 2014, ou pelo menos dois trimestres seguidos de contração do Produto Interno Bruto.

“Há fortes chances de, dado a direção dos mercados, haver uma recessão no Brasil em 2014”, afirma Tony Volpon, diretor de pesquisa para mercados emergentes da Nomura Securities. “O mercado está colocando bolsa, câmbio e juros num patamar que vai fazer o crescimento da economia cair mais.”

Para Volpon, sem a crise provocada pela normalização das condições monetárias nos EUA, o Brasil já caminhava para mais um ano de PIB fraco, ao redor de 2% em 2013. Com a subida dos juros de mercado, provocando um aperto das posições financeiras, ocorrerá um ajuste recessivo. “Podemos estar caminhando para juros de 3% ou 3,5% nos títulos de 10 anos do Tesouro americano, o que levaria os juros mais longos no Brasil, como um contrato DI de 2017, para até 12%.”


No limite

Segundo ele, o Brasil está entrando na crise atual numa posição enfraquecida, sem espaço na política econômica, como em 2008, para lidar com a parada súbita do fluxo de capital “Em 2008, tínhamos superávit primário acima de 3,5%, por exemplo. Além disso, a China em 2009 salvou o mundo, o que não acontecerá agora.”

Na opinião do economista-chefe para América Latina do banco Goldman Sachs, Alberto Ramos, o Brasil vai lidar com o choque externo provocado pelas ações do Fed numa posição de vulnerabilidade. “O déficit de conta corrente aumentou, o crescimento econômico está baixo e a inflação está muito alta”, diz Ramos. “Porém um câmbio mais depreciado agora vai interferir nesse processo, então talvez teria de vir um arrocho de juros para rebalancear a economia.”

Por outro lado, promover um choque nos juros básicos neste momento é inviável politicamente, observa Ramos. “Infelizmente, o ciclo eleitoral vai interferir no que seria a melhor postura em termos de ajuste de política econômica para lidar com a crise”, afirma.

Ramos acredita que o Banco Central deveria subir a taxa Selic para 10% ou 11% no curto prazo para lidar com o câmbio mais desvalorizado. De toda a forma, o risco de que o ciclo de aperto monetário seja ampliado para além de 9,25% é grande, acrescenta.

“O problema é que o Brasil entrou no pior momento de mudança no cenário mundial com fundamentos fiscais deteriorados e com baixa credibilidade da política econômica”, afirma. “E como estamos com inflação alta, o governo poderá ter de validar uma contração do PIB por algum período para que a economia se reajuste e possa enfrentar esse novo cenário, mas é nenhum o apetite político para provocar uma contração no mercado de trabalho, diante dos protestos que estamos vendo nas ruas do País.” 

 

Saída de recursos

O efeito do choque com a normalização das condições monetárias nos EUA será sentido via reversão dos fluxos de capitais nos países emergentes, na opinião de Ilan Solot, estrategista de câmbio da corretora Brown Brothers Harriman em Londres. “O pior do ajuste (à redução dos estímulos pelo Fed) está acontecendo agora, nessa primeira fase”, diz Solot. Ele acredita, contudo, que a saída de capital deverá continuar. “Eu diria que já passamos por dois terços do ajuste, mas de agora em diante o ajuste ficará mais seletivo entre os emergentes.”

Para ele, países emergentes com mercados locais de renda fixa e variável mais líquidos, como Brasil e México, deverão sofrer com maior saída de recursos, uma vez que os investidores estrangeiros não terão tanta facilidade em sacar suas aplicações de mercados ilíquidos, como Colômbia ou Tailândia, para migrar de volta para os EUA.

Solot, do BBH, Benoit Anne, do Société Générale, e Chris Turner, do ING, citam também como os mais vulneráveis aqueles países emergentes com déficits crescentes de conta corrente, pois com a reversão dos fluxos de capital esses países não terão como suprir suas necessidades de financiamento externo. Nesse grupo estão Brasil, Indonésia, Ucrânia, México, África do Sul, Turquia e Índia.

Muitos desses países foram os que mais receberam recursos de portfólio (como investimentos em bolsas e aplicações em renda fixa) nos últimos anos, segundo o diretor de Pesquisas para a América Latina da Nomura Securities, Tony Volpon. Segundo levantamento feito por Volpon, entre 2009 e 2012, o México recebeu US$ 340,1 bilhões - o equivalente a 8% do Produto Interno Bruto (PIB) mexicano - em fluxo de capital. No mesmo período, o Brasil recebeu US$ 354,3 bilhões, ou 4,2% do PIB.

A Turquia foi beneficiada com entradas de US$ 196 bilhões, ou 6,7% do PIB. Na África do Sul, aplicações de renda fixa e variável somaram US$ 50,8 bilhões, ou 3,5% do PIB, entre 2009 e 2012, enquanto na Indonésia esse número foi de US$ 69,7 bilhões, ou 2,3% do PIB.

“Uma parada súbita no fluxo de capital não significa necessariamente uma saída de recursos, mas resulta frequentemente numa desaceleração na taxa de crescimento desses fluxos”, diz Volpon. “A literatura empírica mostra que tais eventos geram uma série de ajustes cíclicos altamente negativos, manifestando-se na necessidade de rapidamente reduzir os déficits de conta corrente através de uma depreciação substancial da taxa real de câmbio.”