10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Said Yusuf Abu Lawi

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Isabela Ribeiro

“Sempre gostei de várias áreas do conhecimento”

“O conhecimento é fundamental para que as pessoas tenham uma trajetória de vida satisfatória, com evolução. Quando você atinge uma certa idade, olha para trás e somente encontra o conhecimento que você acumulou, e isso é no sentido amplo, diz respeito a tudo o que você vivenciou e que serviu de aprendizado”, acredita o entrevistado de hoje, Said Yusuf Abu Lawi.

E é nessa fome por conhecimento que ele encontra o combustível para a vida e para os seus projetos. Com a vida profissional voltada para a educação, uma das marcas registradas de Said é o seu trabalho de expansão do ensino superior em Bauru e em outras cidades do Brasil.

Homem de boa conversa, ele também fala sobre o companheirismo da família, histórias do passado e metas para um futuro próximo. Confira, a seguir. 

 

Jornal da Cidade - Quais foram os caminhos profissionais almejados na infância?

Said Yusuf Abu Lawi - Na verdade, eu sempre gostei de várias áreas do conhecimento, tanto que o meu primeiro vestibular foi para medicina, mas acabei partindo para a área de empresas, economia e administração. Mas a minha paixão profissional mesmo é o planejamento urbanístico, até fiz mestrado nessa área. 

 

JC - Chegou a trabalhar com urbanismo?

Said - Eu fiz alguns projetos acadêmicos para Bauru, inclusive divulgados no JC. Em 1988, eu fiz o Plano Viário de Bauru, conhecido por muita gente da área acadêmica, inclusive boa parcela das ações que são tomadas hoje no município têm como norte esse plano, embora ele não seja reconhecido. Mas, por exemplo, o complexo viário que está sendo feito no pátio da rede ferroviária federal, sobre os trilhos, foi um projeto desenvolvido dentro da Universidade Sagrado Coração (USC), onde eu estava como estudante.   

 

JC - Como teve início a sua carreira na educação?

Said - Eu comecei na educação ainda bem novo, em 1985 eu já leciona na escola Ernesto Monte, onde tive o prazer de trabalhar ao lado de alguns grandes mestres daquela escola. Eu dava aulas de contabilidade e já estava cursando a faculdade de geografia, então, eventualmente eu também dava aulas de geografia e matemática associada à gestão. Em 1986 eu fui para o Oriente Médio e voltei em 1987. Nesse retorno, passei a dar aulas no Colégio Preve Objetivo, onde fiquei um bom tempo, mais de 20 anos, para ser mais exato. Durante esse tempo, auxiliei na abertura do Instituto de Ensino Superior de Bauru (Iesb/Preve), mas passei por muitas outras atividades e por muitas outras escolas de Bauru e do Brasil.

 

JC - Fale sobre a sua experiência com a abertura de instituições de ensino superior.

Said - Em Bauru, minha primeira casa de ensino superior foi a Instituição Toledo de Ensino (ITE). Eu fiquei por dez anos lá como professor e, enquanto lecionava lá e no Preve, eu passei a trabalhar com a expansão do ensino superior. Foi justamente quando abriram as concessões para novas escolas porque, até então, era muito difícil você conseguir abrir uma faculdade. Então eu auxiliei na vinda da Universidade Paulista (Unip), na abertura e estruturação da Faculdades Integradas de Bauru (FIB), no Iesb/Preve, e também trabalhei na abertura de instituições em outras cidades brasileiras, como Londrina (Paraná), Joinville (Santa Catarina)... A finalidade era abrir instituições para frentes de trabalho para os colegas. Eu acredito que esse foi um fomento muito importante para a área do ensino superior.      

 

JC - Quais são as suas principais atividades profissionais atualmente?

Said - Eu estou como diretor do Iesb/Preve, que passou a fazer parte do grupo União das Instituições Educacionais do Estado de São Paulo (Uniesp), um grupo grande de ensino que atualmente conta com 110 faculdades, além de dois centros universitários, um em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. E continuo nesse processo de estimular o setor. Como lá atrás eu tive esse papel de abrir as faculdades como se fosse um trabalho voluntário, agora eu coordeno o programa Ciência Sem Fronteiras, o que me dá uma grande satisfação porque tenho a oportunidade de mandar alunos jovens para o exterior.

 

JC - Para você, como a educação deve ser tratada?

Said - Eu vejo a educação como uma instituição. Ela não pode ser tratada como um ministério ou uma secretaria de Estado, somente. Ela tem de ser encarada como uma instituição, tal qual é o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Eu acho até que o ministro da Educação deveria ser eleito, e não nomeado. Se pararmos para pensar, todas as instituições que dependem das pessoas para operar, dependem da educação, ou seja, quem forma os desembargadores, os juízes, promotores, médicos, políticos... e tudo o que pudermos imaginar, é a educação. Então ela deve ser priorizada no País e não ser colocada em um segundo plano. A educação é a base de todo o processo de qualquer outra instituição e precisa ser considerada a principal delas. O conhecimento é o maior bem que uma pessoa pode ter.   

 

JC - Por falar em conhecimento, quantas faculdades você tem?

Said - Eu sou bacharel em economia, ciências contábeis, administração e geografia. Fiz licenciatura em geografia, mestrado em planejamento urbano e regional, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), e estou concluindo um doutorado em saúde coletiva pela Universidade de São Paulo (USP). 

 

JC - A TV Preve também é um projeto que contou com a sua participação, certo?

Said - Também como voluntário, eu fiz um programa da faculdade para divulgar a comunidade científica e acadêmica, o “Iesb é Notícia”. Mais tarde, com o falecimento do Valdomir Mandaliti, eu assumi o programa “É Direito”, onde fiquei por dez anos e contei com a colaboração de excelentes profissionais do direito. A ideia era levar informações da área jurídica principalmente para as pessoas que não entendem muito bem da legislação. Era um programa muito bom sobre temas do cotidiano da sociedade. E por causa desses programas, eu tenho até o registro profissional de jornalismo. Também gosto de escrever, às vezes, para o jornal.

 

JC - Com qual finalidade você passou uma temporada no Oriente Médio?

Said - Eu fui para visitar alguns familiares paternos. Meu pai é palestino e veio para o Brasil quando a Organização das Nações Unidas (ONU) promoveu uma divisão de terras entre Israel e palestinos, em 1948, e a família perdeu as terras que possuía por terem ficado do lado de Israel. Ele veio sozinho para o Brasil e deixou meu avô, irmãos, irmãs... Ele foi obrigado a sair de sua terra, onde tinha dois filhos. Aqui, conheceu minha mãe, casou-se e teve mais cinco filhos. Então aproveitei para conhecer todo mundo que vive lá.     

 

JC - E o que você achou da experiência?

Said - É uma cultura diferente da nossa, mas em termos de relacionamento familiar é praticamente a mesma coisa. Eu acabo tendo um pouco do Oriente e do Ocidente na minha cabeça e é preciso administrar isso, porque o modo de pensar de um oriental é completamente diferente do modo de pensar de um ocidental. Ter esses dois lados me enriquece, mas às vezes é conflitante. É preciso observar bem o meio para tomar a atitude certa. Eu, por exemplo, me beneficio da paciência oriental na sala de aula (risos).

 

JC - Projetos para um futuro próximo?

Said - Eu quero terminar o doutorado que estou fazendo na USP de Bauru. Minha esposa está fazendo um mestrado, então eu gosto de dizer que em casa somos quatro estudantes. Esse é o nosso costume, o de estudar, ou melhor, o de conhecer. A gente busca conhecimento. O conhecimento é fundamental para que as pessoas tenham uma trajetória de vida satisfatória, com evolução. Quando você atinge uma certa idade, olha para trás e somente encontra o conhecimento que você acumulou, e isso é no sentido amplo, diz respeito a tudo o que você vivenciou e que serviu de aprendizado. Na direção do Iesb, meu objetivo é expandir a instituição. Nós crescemos no primeiro semestre em número de alunos e estou abrindo novos cursos de engenharia, área que está precisando.

 

JC - O que você gosta de fazer quando não está trabalhando e estudando?

Said - Eu gosto de ver filmes, de preferência ao lado da minha família. Gosto muito de comédias, mas os filmes com roteiros comoventes também chamam a minha atenção. O cinema serve como alimento para o espírito. 

 

Perfil

Nome: Said Yusuf Abu Lawi

Idade: 49 anos

Cidade: Bauru

Signo: Escorpião

Esposa: Elaine Regina

Filhos: Youssef Said e Yohann Said

Hobby: Ver programas de humor e filmes de comédia com a família

Livro de cabeceira: “Só depende de você”

Filme preferido: “1492 - A Conquista do Paraíso”

Estilo musical predileto: Música clássica

Time: São Paulo e Noroeste

Para quem dá nota 10: Para a minha esposa e meus filhos

Para quem dá nota 0: Para os praticantes de injustiças

E-mail: saidyusuf@usp.br