08 de julho de 2026
Geral

Combustível gera guerra regional de valores

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 6 min

Quioshi Goto

Preço de Bauru é também inferior ao praticado na média do Estado

Um clichê de motorista é reclamar do preço de combustível. Seja etanol ou gasolina, a indignação acerca do valor do litro é sempre senso comum. Em Bauru, porém, o preço praticado nas bombas é bastante inferior ao da região, o que ocorre por conta de uma briga nos bastidores. E a queda de preços na cidade angariou o ódio de postos de um município vizinho: Pederneiras.

Segundo o JC apurou, a diferença é mesmo gritante, chegando a R$ 0,40 por litro. Por conta disso, motoristas de Pederneiras estão percorrendo os 26 quilômetros que separam as duas cidades e deixando de abastecer nos postos de lá.

“Eu já tive muitos prejuízos. É muita gente que deixa de abastecer aqui para ir para Bauru. A diferença é mesmo muito grande”, disse um dos proprietários de posto, que pediu para não ser identificado.

A indignação dos pederneirenses é tamanha que, nas redes sociais, fotografaram os preços praticados nas duas cidades e sugeriram um boicote aos postos de Pederneiras. Até o fechamento desta edição, a imagem, que apontava uma diferença de R$ 0,30 no litro de gasolina e R$ 0,32 no de álcool, já tinha 134 compartilhamentos.

A reação foi rápida. Foram distribuídos mais de mil folhetos no município criticando a postura dos postos de combustível de Bauru. O JC teve acesso a um desses exemplares, que acusa os estabelecimentos bauruenses de cartel, combustível adulterado e até mesmo lavagem de dinheiro. Ninguém, porém, assumiu a autoria de tal folheto.

Em um jornal de Pederneiras, que circulou no último dia 21, o conteúdo do folheto entrou, de forma mais polida, como um “esclarecimento”. “Assim, não é de hoje que o mercado de combustível naquela cidade (Bauru) sofre com algumas distorções”, diz, em nota.

O responsável pelo esclarecimento foi o posto de combustível de Pederneiras que teve a placa de preços fotografada e divulgada nas redes sociais. A reportagem entrou em contato com a proprietária do estabelecimento, contudo ela preferiu não se manifestar.

O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo (Sincopetro) em Bauru, José Antônio Reghine, confirma que a diferença de preços é realmente grande. “Nos últimos meses, tenho viajado bastante pelo Estado e o preço de Bauru realmente é um dos menores”, complementa.

 

Pagando o ‘pato’?

Tanto no folheto quanto na nota divulgada para a população de Pederneiras, há ainda outra reclamação. Segundo eles, por conta dos preços praticados por Bauru, as distribuidoras têm compensado e vendido o combustível mais caro a cidades da região.

Eles questionam quem estaria bancando essa guerra de preços em Bauru. “A resposta é simples: são os donos de postos de combustíveis e os consumidores das cidades de Pederneiras, Lençóis Paulista, Jaú, Macatuba, Arealva, Botucatu, São Manuel etc...”, aponta a nota. 

 

Abaixo da média estadual

O preço de Bauru é também inferior ao praticado na média do Estado. De acordo com a ANP, em São Paulo, a média é de que o litro do álcool e da gasolina seja vendido nas bombas por, respectivamente, R$ 1,77 e R$ 2,71.

Desse modo, o preço de Bauru está R$ 0,24 abaixo em relação ao álcool e R$ 0,14 mais barato do que a média estadual do litro de gasolina.

 

Briga interna

Mas o que tem levado a um preço tão inferior nas bombas bauruenses? O Sincopetro afirma que é reflexo de uma briga entre uma distribuidora e os postos de bandeira branca, que começou há algum tempo na cidade.

José Reghine conta que a Ipiranga “declarou guerra” aos de bandeira branca. Desde então, os estabelecimentos dessa distribuidora baixaram seus preços bruscamente para fazer frente com esses postos. Pela lei da oferta e da procura, o efeito dominó fez com que todos equiparassem os preços baixos.

“Os proprietários de postos possuem, muitas vezes, uma margem mínima de ganho. O sindicato sabe disso, mas não pode fazer nada. O sindicato não pode incidir sobre o preço praticado”, completa o presidente do Sincopetro.

No folheto distribuído em Pederneiras e também na nota de esclarecimento divulgada, essa briga bauruense entre distribuidoras e postos sem bandeira também é exposta.

Acionada pela reportagem, a Ipiranga nega que tenha qualquer influência sobre os preços praticados na cidade.

“A Ipiranga informa que não é responsável pela definição de preços ao consumidor em nenhuma localidade onde possui atuação. Os preços dos combustíveis dos postos Ipiranga são definidos individualmente pelos seus proprietários”, declarou, em nota emitida pela assessoria de comunicação.

 

Outras cidades

De acordo com pesquisa realizada pelo JC, Bauru tem realmente o combustível mais barato de toda a região. Segundo levantamento realizado em 35 postos da cidade pela Agência Nacional de Petróleo (ANP), a média atual do litro de álcool é de R$ 1,53 e da gasolina, R$ 2,57.

O site da agência não traz os valores praticados nas bombas em municípios menores. Porém, a ANP aponta que, em Jaú, o preço médio do litro de álcool e da gasolina, é, respectivamente, R$ 1,74 e R$ 2,73. Em Botucatu, esses valores são de R$ 1,94 e R$ 2,88. Valores que se aproximam de Garça, onde o preço das bombas é de R$ 1,91 e R$ 2,90. Já em Assis, cai um pouco: R$ 1,74 para o álcool e R$ 2,76 para a gasolina. 

 

‘É por R$ 0,40’, critica consumidor

Inflamados pelo clima de manifestação que percorre de norte a sul do Brasil, os moradores de Pederneiras colocaram a questão dos preços do combustível em sua pauta de reivindicações.

De acordo com o que o JC apurou, havia até um temor de que, durante protestos, os postos pudessem sofrer algum tipo de vandalismo. Felizmente, isso não ocorreu.

“No País, estão revirando tudo por conta dos R$ 0,20. Então, por aqui, podemos dizer que é sim pelos R$ 0,40”, critica, em tom de ironia, um motorista pederneirense, que pediu para não ter a identidade revelada.

Nas redes sociais, a questão também teve repercussão. No entanto, assim como foi com a maior parte dos protestos pelo País, o assunto vinha em meio a uma tonelada de outras reivindicações, como saúde, segurança e educação. 

 

Além de outros riscos, sindicato prevê que situação pode ‘virar’ contra Bauru

Os preços baixos que, hoje, aliviam o orçamento dos bauruenses podem ser uma fórmula perigosa para a própria cidade. É a previsão pouco otimista do Sincopetro. “Como os preços estão baixos, existe o risco de os postos não conseguirem se manter e ‘quebrarem’. Já está ocorrendo isso”, explica José Antônio Reghine.

A consequência, segundo o presidente do sindicato, é exatamente o contrário do que vem ocorrendo agora. “O risco é que fiquem poucos postos na cidade e a concorrência diminua. Aí, os preços costumam aumentar muito”.

Outra consequência perigosa é a compra irregular de combustível em Bauru para vender em outros municípios. “Tive o conhecimento recente de que isso já vem ocorrendo”, alerta Reghine.

Ele explica que os postos não podem vender combustível para ser armazenado em galões, justamente por conta do risco de acidentes.