O Brasil está sendo assolado por uma onda de violência que vem na contramão da sua fama de possuir um povo ordeiro e pacato. Esse movimento tomou conta de muitas capitais, fazendo uma série de reivindicações, várias delas incorporadas depois e plenamente justificadas ? como a melhoria da saúde pública -, mas que não justificam a violência. Resultado: muitos manifestantes, policiais e profissionais da imprensa feridos; muitos bens, públicos e privados, totalmente destruídos ou saqueados. O estopim que detonou esse movimento foi aceso pelo povo de São Paulo.
Os brasileiros estão fartos de tomar conhecimento de crimes bárbaros que ocorrem com uma frequência assustadora. Apenas um exemplo (chocante!): como o pai, nervoso diante da mira de um revólver, demorasse para retirar o filho (de dois anos) da cadeirinha presa ao carro que estava sendo roubado, o bandido atirou. Matou o filho e feriu o pai. Diante de fatos tão graves como esse, o povo brasileiro manteve-se praticamente impassível, desmentindo aquele axioma: "violência gera violência". Em casos como esse, a violência gerou apenas dois sentimentos: a dor dos familiares que perderam seus entes queridos e a solidariedade de quem já viveu situação semelhante. E provocou, também, uma manifestação contra a violência, da qual participaram cerca de cinquenta pessoas.
Entretanto, quando o preço das passagens aumentou vinte centavos, o efeito foi devastador. Começou como uma onda, quase inocente. Foi crescendo, crescendo, até se transformar num tsunami, com estragos materiais bem menores, mas com estragos morais infinitamente superiores. É evidente que essa destruição foi provocada por vândalos e baderneiros, que costumam aproveitar-se dessas situações. Mas há uma coisa que incomoda: será que aqueles bem-intencionados, que encontraram no preço das passagens um motivo para protestar, jamais viram em tantos crimes um motivo para se insurgir contra a violência? Não é possível fazer uma comparação entre os valores postos em jogo, mesmo porque a vida é o bem supremo que o homem possui. No entanto, é possível comparar o número de manifestantes em cada um dos movimentos. A morte de um ser humano leva 50 pessoas às ruas. Vinte centavos tiram 50 mil ou 100 mil pessoas de suas casas, dispostas a enfrentar o que der e vier. Alguma coisa está errada! Pelo jeito, certas atitudes não são tomadas seguindo os ditames do coração. Nem da razão. Ao que tudo indica, certos atos são ditados pela parte mais sensível do corpo humano: o bolso!
O autor, Ismar Pereira, é adovogado aposentado e colaborador de opinião