11 de julho de 2026
Articulistas

Povo nas ruas - lição para ouvidos moucos

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

Lendo e ouvindo os comentários sobre as movimentações de protesto, lembramo-nos de uma lição de administração, formulada nos idos da década de 1940, por uma equipe de especialistas, nomeada pelo governo americano, para solucionar problemas com pessoal da indústria. É uma lição extraída de um módulo de um curso destinado a resolver problemas de relacionamento humano. Nesta altura dos acontecimentos, já existem algumas propostas de atendimento às reivindicações sendo postas em prática, como a redução das tarifas do transporte público, e outras, de maior complexidade, sendo aventadas. Arriscamos trazer essa lição ao debate, apesar da simplicidade, em face de uma questão tão importante como essa, que afeta o povo e os governantes, e também sabendo que seus destinatários farão ouvido mouco, porque os princípios em que ela se fundamenta são universais.

O primeiro passo é conhecer o que realmente está acontecendo. É preciso ouvir os interessados, dos dois lados da questão, colhendo informações sobre os fatos, opiniões e sentimentos, até se ter um histórico completo da situação. Extrapolando para o caso dos protestos atuais, os fatos e as opiniões já estão mais que divulgados pela mídia. O que precisa ser mais estudado são os sentimentos que o povo procura expressar através dos manifestos. O que sentem as pessoas que vêem os políticos sendo tratados nos hospitais de primeiro mundo e os seus familiares sofrendo ou morrendo nos corredores dos hospitais em péssimas condições? O que sentem as pessoas que vêem os parlamentares recebendo verba de transporte para viajar de avião e com carros novinhos para se locomoverem, enquanto elas precisam levantar às 4h da madrugada e viajar de três a quatro horas, em pé, em trens e ônibus superlotados, para chegar ao trabalho? E que muitas vezes quebram, por falta de manutenção, deixando-as sem condução para o trabalho? O que sentem as pessoas que recebem aposentadorias que as obrigam a se endividar com os empréstimos consignados, para sobreviver, vendo funcionários, em ocupações equiparadas às suas, com aposentadorias acima de R$ 20 mil? O que sentem as pessoas de bem, que honram os seus compromissos e respeitam as leis, vendo políticos condenados por corrupção, mantidos no cargo,votando leis e recebendo salário público? O que sente o povo, diante de todos os problemas do País, resultado das promessas não cumpridas, em que confiou, vendo, a todo instante, interrupções dos programas de televisão, para os representantes dos partidos, indiferentes ao que está acontecendo, convidar para se unirem a eles? Em vez de pedir aos manifestantes que digam o que querem, procurem saber qual o sentimento que os leva à rua. E o que sentem os que, de alguma forma, são responsáveis por tudo isso, de prefeito a presidente, de vereador a senador? E os que não vão às ruas, mas estão atentos a tudo que está acontecendo, o que sentem?

O segundo passo é ponderar e decidir o que fazer. Os fatos e sentimentos colhidos devem ser estudados, levando em consideração as relações que guardam entre si, os costumes e regulamentos sobre o assunto. No presente caso, o que dizem a Constituição e as leis? O que recomendam as autoridades insuspeitas? Quais as medidas possíveis para o caso? Qual será a contribuição de cada uma para atingir o objetivo? E como cada uma afetará o povo e a Nação? Não deve ser tirada conclusão apressada. Vejam que a decisão de reduzir a tarifa criou uma contradição: se o povo quer mais e melhor transporte urbano, o que exige investimento, como isso poderá ser feito, reduzindo os recursos das empresas?

O terceiro passo são as providências para implementar o que foi decidido. A quem compete a execução? Neste caso, como o problema é abrangente, os três poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário, nas três esferas de governo, que devem estar envolvidos desde o início e nenhum poderá se furtar à sua responsabilidade. Embora o momento exija compreensão e serenidade, a implementação não pode ser protelada, mas é preciso escolher a oportunidade para agir.

Finalmente, o quarto passo é o acompanhamento das medidas tomadas, para verificar os resultados e assegurar a sua eficácia com medidas complementares que sejam necessárias. A nós, cabe acompanhar e dar palpites, como estamos fazendo.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras