08 de julho de 2026
Internacional

Presidente interino assume no Egito

Por Diogo Bercito | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Em meio à perseguição a líderes do grupo islâmico Irmandade Muçulmana, o ex-presidente da Suprema Corte Constitucional do Egito Adly Mahmud Mansur foi jurado ontem como presidente interino do país.

Ele substitui, assim, o primeiro presidente eleito democraticamente no Egito, Mohammed Mursi, deposto ontem em um golpe militar.

O islamita foi retirado do poder pelo Exército após milhões terem ido às ruas, durante a semana, pedir por eleições antecipadas.

Ele encontra-se detido pelas Forças Armadas e impedido de sair do país por “insulto ao poder Judiciário”. Em discurso recente, havia acusado magistrados de serem resquícios do regime do ex-ditador Hosni Mubarak.

A Irmandade, organização à qual Mursi é ligado, recusa a transição política e denuncia um golpe de Estado.

Em seu discurso de posse, Mansur afirmou que usará o poder para “consertar e corrigir a revolução”, numa referência à onda de revoltas que derrubou Mubarak em fevereiro de 2011 e abriu espaço para a eleição de Mursi.

Está previsto que sejam organizadas eleições presidenciais e parlamentares no país, após um período de transição indeterminado.

O presidente interino convidou a Irmandade Muçulmana ao diálogo. Membros do grupo, porém, afirmam sofrer perseguição pelo governo interino. Além de Mursi, ao menos oito islamitas estão detidos pelo Exército. Haveria, segundo relatos, ordens de prisão para outros 300 integrantes do grupo. Parte da liderança estaria incomunicável.

“É um golpe militar”, diz Gehad el-Haddad, porta-voz da Irmandade Muçulmana. “O fato de ter um rosto civil não torna a situação melhor.”

Ele confirmou à detenção de Mursi, sobre o qual há boatos de ter sido levado ao Ministério da Defesa, e afirma que houve conflitos nos bairros islamitas após o anúncio da deposição. Os confrontos, diz, foram provocados pela oposição.

A Promotoria pediu, ontem, a prisão do guia espiritual da entidade, Mohamed Badie, e de seu número dois, Khairat al-Shater. Eles são acusados pelos militares de incitar a violência.

“O Exército quer desmontar a máquina política da Irmandade porque tem medo de que nós sejamos eleitos de novo, caso participemos da eleição”, diz o porta-voz.

Haddad falou à reportagem nos arredores da mesquita de Rabia al-Adawiya, que se tornou quartel general de militantes e simpatizantes da Irmandade.

Homens com capacetes de construção e pedaços de pau fazem as vezes de segurança.

“Não vamos sair daqui até que Mursi seja o presidente de novo”, diz o militante Amal Hassan. “Onde estão os países que dizem defender a democracia? Por que estão calados?”. Para outro simpatizante, Mahmud Ali, o golpe que depôs Mursi é uma “contrarrevolução”. “Até agora, temos nos mantido pacificamente. Mas, se nos atacarem, vamos nos defender.”


Acuados em mesquita, islâmicos não reconhecem deposição de Mursi

Acuados na mesquita de Rabia al-Adawiya, no Cairo, integrantes da Irmandade Muçulmana afirmam que não reconhecem a deposição do presidente Mohammed Mursi. O presidente foi deposto na noite de quinta-feira (hora local), após uma ação de militares.

Ele assumiu a liderança do Egito após protestos em massa destronarem o ex-ditador Hosni Mubarak, no início de 2011. Nos meses seguintes, lidou com um país em crise política e econômica e irritou a população com sua agenda conservadora.

O ex-mandatário deixou o cargo após os militares tomarem as ruas e estabelecerem um governo interino, conduzido pelo presidente da Suprema Corte Institucional, Adly Mahmud Mansour, que jurou o cargo ontem.

Eles dizem que permanecerão ali, protegidos por militantes com pedaços de pau, até que o governo seja restituído. “É um golpe militar”, diz Gihad al-Haddad, porta-voz do grupo. “O fato de ter um rosto civil não torna isso melhor.”

Ele falou à reportagem e a um jornal espanhol, entre simpatizantes de Mursi. Haddad confirma que Mursi está detido, assim como outros membros do grupo. Ele também afirma que houve conflitos violentos nos arredores da mesquita, perpetrados pela oposição. “Tudo indica que estamos indo de volta à era da repressão. Não somos estúpidos para acreditar na capacidade da polícia de nos defender.”

Prisões

Mais cedo, os militares pediram à Promotoria a prisão dos líderes da Irmandade Muçulmana, grupo a que era vinculado o presidente Mohamed Mursi. A ordem foi emitida mesmo após o pedido de diálogo com o grupo feito pelo presidente interino, Adly Mahmud Mansur.

A prisão do guia espiritual da entidade, Mohamed Badie, e de seu número dois, Khairat al-Shater, foi pedida pelo promotor Ahmed Ezzeldin, que acusa os dois de incitar a violência e incentivar a morte de opositores que protestavam em frente à sede do grupo no Cairo, no último domingo.

A pedido dos militares, os promotores ainda emitiram mandados de prisão contra centenas de membros da Irmandade Muçulmana. De acordo com a emissora de televisão americana CNN, foram 250 ordens de prisão, enquanto o jornal britânico “Guardian” informa pelo menos 300 pedidos.