Seja para consultar informações, interagir com outras pessoas ou simplesmente entretenimento, a Internet e os celulares não deixam as mentes e nem saem das mãos das pessoas. Com uma tecnologia cada vez mais veloz e barata e uma mobilidade sempre crescente, a “onipresença” tecnológica causa apreensão, já que o abuso é nítido e a dependência ou vício estão a um clique ou toque. Tirando problemas profissionais óbvios de quem trabalha no dia a dia com Internet, para muitos já é um transtorno ficar desconetados mesmo em períodos mínimos fora do trabalho. Nestes casos, os efeitos podem afetar desde apenas o “dependente” até gerar prejuízos nos relacionamentos interpessoais, afastamento familiar e comprometer justamente o trabalho. É o momento do alerta: a dependência tecnológica é um fato.
São casos extremos, de quem é incapaz de se “desligar”. Pessoas que vão ao cinema e no meio do filme não resistem à tentação de usar o celular para “dar uma olhadinha” naquela rede social e ver o que está rolando, mesmo que incomodem outros que tentam assistir ao que se passa na tela. São aqueles que no meio da ceia de Natal precisam verificar se não chegou nenhum e-mail, que não conseguem estar realmente presente à reunião com os amigos porque dividem o momento com postagem de mensagens. Aquela família que, quando está em casa, fica cada um com seu smartphone em contato com o trabalho, com os colegas da escola e, quando estão no trabalho e na escola, estão ocupados se comunicando entre si. Enfim, aqueles que vivem na realidade, mas habitam o mundo virtual.
Para estes, a situação já pode ser patológica numa clara dependência da tecnologia, que é prejudicial à saúde, semelhante à dependência de drogas. “A dependência pela tecnologia é comportamental, as outras são químicas, mas ela causa o mesmo desgaste na ponta do neurônio que as drogas”, explica Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, em declaração ao blog Fator RRH.
O “diagnóstico” dá a dimensão do prejuízo que o “vício” pode acarretar e que vai muito além de se tornar um chato para as outras pessoas presentes que “não conseguem” compreender aquela necessidade incontrolável de olhar o álbum de fotos de um dos muitos amigos da rede social em meio àquela palestra caríssima, que vai sendo desperdiçada, ou ouvir sua música preferida em alto volume no transporte público sem consulta se o estilo agrada a todos.
Enquanto diminui distâncias, encurta o tempo e disponibiliza o mundo ao alcance dos dedos e dos olhos, o avanço vertiginoso da tecnologia produz novas angústias e necessidades, que são nocivas quando descontroladas. A distorção leva a efeitos colaterais. Se os amigos da rede social são sempre mais interessantes do que os da vida real, se você não nunca consegue ir dormir no horário planejado porque tem que ficar conectado, já é bom refletir. Se tudo que veio para fazê-lo ganhar tempo passa a consumi-lo em sua vida, algo está fora do desejável.
A terapeuta Sandra Leal, especialista em tecnologias, aborda justamente o gasto de tempo e a angústia da separação dos aparelhos que nos mantêm conectados. “Além de ser preciso usar um tempo bem considerável para o aprendizado e manipulação desses produtos, depois de dominados todas as particularidades de cada um desses itens, surgem outros mais modernos, que as pessoas começam a desejar, tornando-se dependentes deles, como se não soubessem o que faziam antes daquilo existir, afirma em declaração à revista Você S/A. “É incrível perceber a aflição daquelas que esquecem ou perdem um celular, que nem existia até o final do século 20. Essas pessoas estão tão dependentes que nem percebem que elas já se comunicavam, e muito bem, antes desses aparelhos existirem”, acrescenta Leal.
O site RROnline, do portal da Universidade Metodista de São Paulo, publicou recentemente texto sobre uma pesquisa realizada pela Universidade de Maryland, nos EUA, que constatou que a dependência tecnológica pode ser considerada semelhante ao vício de drogas. De acordo com a publicação, o estudo avaliou mil alunos com idades entre 17 e 23 anos, em dez países, que ficaram durante 24 horas sem celulares, redes sociais, Internet e TV.
Os resultados mostraram que 79% dos estudantes apresentaram “desde desconforto até confusão e isolamento com a restrição ao uso de eletrônicos”. Curiosamente, outro sintoma observado foi o de coceira, sensação comum em dependentes de droga em síndrome de abstinência durante períodos de tratamento. O estudo conclui que “a tecnologia vem tomando conta da vida das pessoas de forma descontrolada”. Além disso, especialistas avaliam que a exposição à tecnologia pode estar lentamente remodelando a nossa personalidade e intensificando a impaciência, esquecimentos e nos tornando cada vez mais impulsivos e narcisistas.
Por que o e-mail entrou em desuso?
Pelo mesmo motivo das cartas, hoje existem milhares de maneiras de se mandar mensagens muito mais rápidas do que o e-mail. Da mesma forma que apareceram tecnologias que substituíram as cartas, hoje isso só se mostra como um processo mais rápido. O MSN, que foi uma revolução, já é uma ferramenta ultrapassada. O chat que o Facebook implementou para muitos jovens não é assim mais tão útil quando há aplicativos para celulares como o WhatsApp, que permitem uma interação mais dinâmica, pois todo jovem tem o celular à mão a qualquer hora do dia.
Voltando ao exemplo anterior, os e-mails, assim como as cartas, ficaram hoje em dia com a função de algo mais formal.
Hoje os e-mails ainda se mantêm por serem necessários ao fazer cadastros em sites ou em jogos. O meu e-mail, por exemplo, serve para cadastrar e para mandar e receber trabalhos escolares (e enviar textos como esse, a pedido do JC).”
Gabriel Pereira, 14 anos