É quase 2014 d.C. Toda a Gália está ocupada pelos romanos sertanejos universitários. Toda não, uma pequena aldeia ainda resiste ao invasor. Assim adulterada, a lendária introdução dos gibis do Asterix parece cair como uma luva para a cidade de Paraíso do Norte, um enclave de rock’n’roll no meio de uma região dominada por agroboys e pela música sertaneja no norte do Paraná (a cerca de 520 km da capital, Curitiba).
Há seis anos, o prefeito, um quarentão inconformado com a falta de opções para o gênero na cidade, com o predomínio das picapes com caixas de som em cima tocando só sertanejo na frente dos bares e dos postos de gasolina, resolveu fazer uma aposta arriscada: organizou um festival que leva para a cidade de 12 mil habitantes bandas alternativas que quase ninguém conhece: Walverdes, Nevilton, Identidade, Superguidis, Cartolas , Relespública, Giovanni Caruso e o Escambau, Zeferina Bomba, Daniel Beleza e os Corações em Fúria.
Na primeira edição, o público estranhou um pouco: apenas 700 pessoas foram conferir a excentricidade do prefeito. Na segunda, já havia 1,3 mil pessoas, e o público foi crescendo a uma média de 700 pessoas por edição. Shows como os de Wander Wildner, em 2009, o de Matanza, em 2011, o do Cachorro Grande, em 2012, tiraram das tocas todos os camisetas pretas da região, que nesta sexta-feira se reúnem de novo na cidade.
Como no SWU, o festival oferece espaço em camping para quem vem de longe. O próprio prefeito enche sua casa de hóspedes. O festival quer ser conhecido nacionalmente pela “camaradagem”, dizem moradores, que se esmeram na recepção aos que vêm de fora. No sábado, as bandas todas são recebidas em um grande churrasco (que também implica em algumas jam sessions, pocket shows e apresentações misturadas).
Em 2009 houve um caso curioso: a banda Zeferina Bomba, de João Pessoa (PB) tocaria em Paraíso. Era, como de hábito, o mês de julho, mas estava mais frio do que de costume: 3 graus Celsius de temperatura. Estava de matar paraibano de frio. E o Ilson Barros, vocalista do Zeferina, desavisado, chegou à cidade só de shorts e camiseta. Os organizadores providenciaram roupas de frio para ele. No meio do show, ele saiu-se com essa: “Vim ao Paraíso do Rock e me deram de comer e me deram de vestir. Adorei este festival”.
Deu tão certo que o prefeito foi reeleito. A oposição, ao contrário do que se pensa, nem chiou muito. “Nem é uma questão de oposição. Existe um preconceito em relação ao rock e roqueiros. Levei muita pancada no início, mas com o crescimento do festival em relação a público e mídia, as críticas foram diminuindo”, diz Carlos Vizzotto, o Beto, um ex-garoto que cresceu ouvindo Led Zeppelin, Stones, Deep Purple, Black Sabbath (e hoje adora rock argentino, bandas como Divididos, Ratones Paranoicos, Ataque 77, El mato a um Policia Motorizado, Norma). Pelas imediações, Vizzotto já é chamado de “Prefeito Rock’n’Roll”.
Ganhou fama
A coisa foi encorpando e a fama do Paraíso do Rock chegou a outras partes do País. “Eu fui até lá em 2009 porque sou muito fã do Wander Wildner. Acabei conhecendo ele pessoalmente”, comemora o médico gaúcho Francisco Carlos Luciani, que desde então tem por hábito deixar a cidade nessa época do ano e dirigir milhares de quilômetros desde o Rio Grande do Sul até o norte do Paraná para ir ao festival. “É muito legal, nunca me arrependi. Com certeza é algo inusitado, por causa do domínio absoluto da cultura sertaneja naquela região”, analisa Luciani.
O designer Jonas Davanço, da vizinha cidade de Cianorte, é outro habitué. “Acho que o melhor de lá é a dedicação e o modo com que todos tratam os visitantes. E é de verdade, eu já vi pessoas como o Wander Wildner, o Beto Bruno do Cachorro Grande e até o Jimmy do Matanza, os três nada bem humorados no dia a dia, rasgando elogios à cidade e ao festival”, contou Davanço.