08 de julho de 2026
Articulistas

Sem precipitação

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), na última quarta-feira, de aumentar a taxa básica de juros em meio ponto percentual (de 8% para 8,5% aa) é uma indicação que o Banco Central (BC) vai continuar perseguindo o objetivo de recuperar a meta de inflação sem precipitações, dentro da estratégia observada desde abril, quando iniciou o atual ciclo de contenção monetária.

Não há mesmo razão para mudar, diante da garantia do governo de dar ênfase à uma política fiscal um pouco mais restritiva e na medida em que a coleta dos dados da inflação vem mostrando uma tendência de declínio na taxa de crescimento dos preços no segundo semestre que se inicia. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou a disposição de fazer o superávit primário de 2,3% e tudo indica que ele tem o suporte da presidente Dilma Rousseff para cumprir a promessa, realizando a economia necessária, eliminando R$ 15 bilhões nos gastos de custeio da máquina burocrática. Isso não significa que tenha que cortar Previdência ou restringir os programas como "bolsa família", "luz para todos", a construção de moradias e demais investimentos que estão ampliando a inclusão social. São esses programas que ajudaram a criar o estado de bem-estar que se sustenta até hoje.

O ministro Mantega tem conhecimento profundo da realidade brasileira e compreende que a situação do governo é bastante delicada. Na verdade, nós escolhemos muito mal as nossas prioridades, durante anos, fomos laxistas no controle das despesas e estamos pagando um preço extremamente caro, que é a redução do ritmo do crescimento econômico, um aumento desagradável na taxa de inflação, embora pequeno, e um aumento no déficit em contas corrente. Agora, é preciso reconhecer que existe um enorme desperdício devido à gestão inadequada do gasto público e isso não é exclusividade federal, mas igualmente nos Estados e municípios. As administrações têm ampliado gastos, mas não para atender as necessidades que a sociedade pleiteia. Basta ouvir o que as ruas estão reivindicando. É muito dinheiro posto em atividades não produtivas, na ampliação de inexplicáveis mordomias e toda a sorte de desperdícios.

Há 20 anos a folha de pagamento do município de São Paulo consumia 20% dos recursos arrecadados e hoje consome 40%. Não se aumentou a carga tributária para investir em saúde e educação. As ruas pedem mais "verbas": mais 10% para a saúde, mais 10% em educação, mas sem perceber que o importante não é dar o dinheiro a quem pedir mais e sim procurar saber de que forma ele está sendo gasto. Há muito espaço para cortar desperdício: cuidar de administrar com seriedade programas didáticos de ensino e de gestão mais criteriosa no atendimento à saúde.

O cumprimento das promessas de resultados na política fiscal será fundamental para que tenhamos uma taxa de inflação um pouco mais baixa, um crescimento do PIB um pouco maior e para que reduza o déficit em contas-corrente.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC