09 de julho de 2026
Articulistas

Em busca da felicidade

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O movimento de quinta-feira, batizado de Dia Nacional de Luta, foi uma tentativa das centrais sindicais de assumir o leme da insatisfação popular. O resultado foi bem menor que o esperado. Se dependesse apenas da capacidade de mobilização dos trabalhadores organizados, o movimento não teria ocorrido. As pessoas estão cobrando para carregar cartazes e berrar durante horas na rua. Cachê de 70 reais foi pago em dinheiro na av. Paulista, para custear o lanche e a tarifa do ônibus que ainda está longe de ser zerada. Os sindicalistas profissionais foram apanhados de surpresa pela extensão do descontentamento espontaneamente manifestado nas semanas anteriores. Nem foram chamados. Pagam o preço do atrelamento aos políticos no poder. É o chamado neopeleguismo em referência aos tempos de Getúlio Vargas, quando os sindicalistas levavam uma vida boa com os subsídios do governo. Ainda hoje é assim, graças ao imposto sindical.

"O povo desunido jamais será vencido". A frase que soa herética foi dita por Ruth Cardoso, em 2002. Estava ao seu lado o sociólogo espanhol Manuel Castells que previu a "multiplicação de fontes de mudança social e sua não articulação em aparelhos políticos instrumentais que vai solapando as raízes de dominação". A sociedade em rede já traz em si o poder da identidade. Não precisa de partidos políticos e nem de sindicatos. A sociedade em rede mostrou criatividade, capacidade de mobilização e de negociação. Ouvi a estudante da Unesp dizer para à repórter que procurava "o líder" da ocupação da Prefeitura de Bauru que ali eram todos iguais. A manifestação teve participação dos Sem Terra, com sindicatos e partidos em adesão periférica, mas sem manda-chuva. O prefeito Rodrigo Agostinho fez a única coisa possível, naquele momento: ouviu as pessoas. Teve coragem, ou não havia outro jeito. Ganhou um beijo escrito a batom no vidro da porta e promessas de um reencontro em breve. Mais que a maioria dos homens públicos, os prefeitos precisam estar atentos aos recados das ruas, pois partem de pessoas que, por serem da comunidade, estão próximas dos problemas para os quais cobram soluções. Não é só pelos por um pedaço de asfalto. A extensa pauta de reivindicações depende de dinheiro, mas também de sensibilidade e uso adequado dos recursos disponíveis, com transparência (alô, Batra). Vem a propósito uma frase de Albert Hirschman numa lição acadêmica ? A política "não é a arte do possível e sim a arte de ampliar os limites conhecidos do possível". Depois da massificação dos movimentos de rua, é possível que as prioridades da população tenham se alterado de forma significativa. Compreender as mudanças e procurar contemplá-las, sem se descuidar das demandas tradicionais, precisa ser uma preocupação de todo prefeito.

As vaias dos prefeitos reunidos em Brasília à presidente Dilma Rousseff, pelo segundo ano consecutivo demonstram a falta de sintonia entre o governo federal e os governos municipais. O jabá de três bilhões de reais da presidente foi insuficiente para aplacar a ansiedade dos prefeitos. Os brasileiros que foram às ruas e os que não foram estão dizendo que uma coisa é prioritária: querem melhores serviços públicos. Vaia faz parte da democracia. O importante é ouvi-la, entendê-la e agir para que sejam silenciadas pela eficiência do setor público. Executivo e Legislativo têm culpa na eclosão da revolta. Hirschman defendia a Teoria da Dissonância Cognitiva, atribuída a Leon Festinger. Ela argumenta que as pessoas procuram manter a coerência entre suas várias crenças e opiniões, em consonância com o seu comportamento. Quando a realidade destoa daquilo que se tem arraigado na cabeça, a partir de um determinado limite o comportamento muda, e pode atingir proporções impensáveis - para o bem ou para o mal. No Brasil é comum os políticos defenderem posturas éticas e, quando chegam ao poder sucumbem às tentações que vêm com ele. A partir daí esse comportamento causa dissonâncias na cabeça de quem esperava dos seus representantes atitudes éticas e em benefício do coletivo. Chega o dia em que ocorrem mudanças nas convicções anteriores e novos fatores se juntam para formar uma nova identidade, às vezes defendida em bases absurdas ou até violentas. É automático. Não há um grande orientador intelectual da atual mobilização (nem Bakunin, do anarquismo). Os manifestantes não sustentam seus atos em partidos ou ideologias e nem mesmo no consumo de qualquer literatura mais complexa. É a cabeça que não aguenta mais tanta safadeza. Daí, nascem utopias muito além do socialismo: a busca da descoberta de um mecanismo que, finalmente nos leve à felicidade.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC