09 de julho de 2026
Geral

Tempo de viver requer planejamento, disciplina e organização

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 10 min

Isabela Ribeiro/Divulgação

Saber utilizar cada minuto do dia é fundamental para cumprir as tarefas e ter tempo de lazer

A série 24 horas mostra o detetive Jack Bauer, vivido pelo ator Kiefer Sutherland, correndo contra o tempo para salvar o mundo. Agente da Unidade Contra Terroristas de Los Angeles, o personagem principal trava uma batalha contra diversas ameaças como armas de destruição em massa e risco de segurança nacional e, ao mesmo tempo, tem que administrar questões pessoais que surgem no intervalo de seu dia ao mesmo tempo interminável e efêmero diante dos desafios que encara. A luta contra o relógio é a grande fonte de adrenalina da série. Se ao contrário de Bauer, seu dia parece ter menos de 24 horas e no final da “temporada” você não conseguiu vencer as “ameaças” e ainda está exausto, é hora de interromper a marcha do cronômetro e refletir para salvar o seu mundo (leia mais na página 13).

Correr contra o tempo é uma batalha do ser humano desde sempre. Porém, cada vez mais as pessoas têm tempo de menos. Ou tarefas demais? Ou perdem tempo precioso presas em uma sistemática ineficiente? A alternativa correta é a que implica em mudança de comportamento, uma vez que resolveria a questão. Se o dia não encurtou, onde estão aqueles minutos valiosos que, acumulados, absorvem momentos de lazer, relaxamento e descanso? Esta sangria diária consome horas de vida durante o ano e traz estresse e doenças. Como romper o círculo vicioso? A resposta vem de três palavras que não têm mágica e exigem comprometimento e uma certa dose de sacrifício: planejamento, disciplina e organização.

Vítor Hiroto, consultor de produtividade do Sebrae, afirma que o primeiro passo para ganhar tempo para si e sair da correria diária é se planejar, definindo horários. E, claro, se organizar e cumpri-los com o máximo de disciplina. “É ser um pouco sistemático. Isso é muito importante. Uma vez que você tenha planejado seu tempo, suas atividades, tem que fazer tudo nos devidos horários. E não ficar perdendo tempo, pensando se vai, se não vai, aquelas indecisões. Tem que ser bem sistemático”, explica.

A falta de disciplina causa a dúvida e a confusão diárias e o desencontro é fatal para que o tempo escoe e se transforme num corre-corre, com atraso frequente e a sensação de que não há tempo para nada. “Se você não tiver uma disciplina, perderá tempo pensando no que deve fazer. ‘Agora, o que eu faço? O que devo fazer?’ Tem que ter mais ou menos uma agenda do que vai fazer”, pontua Hiroto. “Vamos supor que queira fazer duas vezes por semana academia. Então, você define uma hora de terça e quinta, das 8h às 9h. Aquilo tem que ser sagrado. Tem que já ter planejado e fazer com que ocorra”, salienta o consultor.

Detalhes são importantes nesta equação do dia. Hiroto, por exemplo, dá dicas simples que podem diminuir o desperdício de tempo e o estresse que causa o atropelo de estar sempre atrasado ou no limite. Uma das orientações do consultor é fazer compras em horários alternativos. “Supermercado: vou dar uma dica que eu pratico. Vou no horário em que está mais vazio. Você não perde tempo em fila. Procurar também sempre um supermercado que está mais vazio em determinados horários. Hoje em dia, a maioria dos supermercados fica aberta até tarde”, comenta. Na mesma linha, a internet é ferramenta muito útil para ganhar tempo. “Tudo o que você puder fazer pela internet, faça”, observa Hiroto. Programar contas em débito automático e compras on-line também economizam tempo.

Porém, não é só “na rua” que tempo precioso é gasto por falta de planejamento e organização. Hiroto lembra que, em casa, a falta de disciplina pode “comer” fatias preciosas do seu lazer ou descanso. Momentos que poderiam ser usados para algo prazeroso ou produtivo são perdidos, diluídos na confusão. A ordem é trazer a casa arrumada e não esperar o “caos”. “Uma dica que eu dou é bagunçar o mínimo possível a casa. Claro que, quando se tem criança, não tem jeito. E terminou de fazer alguma coisa, arruma. Põe tudo no lugar. Se você deixar as coisas fora do eixo, quando a bagunça fica muito grande, perde-se muito tempo. Então, terminou de fazer algo, arruma e põe tudo em ordem.”

O raciocínio é simples: quem sabe onde estão as coisas não necessita procurar. Quem nunca passou pela experiência de precisar de um objeto e não saber onde está? Aquela roupa que estava ali e seria a perfeita para vestir hoje e... sumiu? Procurar gasta tempo. “Um dos motivos que fazem a gente perder muito tempo é procurar. Não basta só organizar, tem que saber onde está. A caixa de ferramentas, a caixa de remédios... tudo certinho. Tem que ser ordenado para você saber onde colocou”, aconselha Hiroto.

 

No trabalho

A “tríade” planejamento, disciplina e organização é extremamente válida na vida profissional. O consultor Vítor Hiroto indica que formam a base da regra dos cinco “S”, conceito que foi definido pelos japoneses e que começou na indústria (veja quadro acima). O consultor explana sobre os cinco “S”. “O primeiro S é o descarte: jogue fora o que você não precisa; segundo, organize seu local de trabalho, deixe pronto para o dia seguinte; terceiro, ordene o que você precisa, coloque cada coisa em seu lugar para saber onde estão as coisas; quarto, a limpeza, terminou de fazer alguma coisa, faz a faxina, limpa e deixa do jeito que estava antes; o quinto é disciplina, que segura os outros quatro”, explica.

Se bem aplicada, a regra dos cinco “S” previne desorganização e evita desperdício de tempo, aumentando a produtividade. No Japão, o que começou na indústria tornou-se unanimidade no mundo empresarial e executivo. “Hoje, praticamente todas as empresas industriais, de serviços e mesmo de comércio praticam isso. Senão, você começa a perder muito tempo em atividades que não geram resultados”, analisa Hiroto.

O consultor revela que a filosofia dos cinco “S” começou a chegar ao Brasil no final da década de 70, começo da década de 80. “Foi quando as grandes empresas adotaram os cinco ‘S’ para melhorar a produtividade e a organização. Imagina uma empresa com 300 funcionários trabalhando sem método e sem organização: o caos. Eles definem processos, documentam, registram e orientam”, aponta. “No dia a dia é possível adaptar para não perder tempo em coisas que não agregam à sua vida”, conclui.

 

‘Tempo quem faz é a gente’, diz psicóloga

 

Se o objetivo é ter uma boa qualidade de vida, procure não se esconder atrás de desculpas e encare que o responsável por seu tempo e atividades é você mesmo. A psicóloga Greta Souza é taxativa: “Tempo quem faz é a gente, nas escolhas que fazemos todos os dias”, define. Se a correria engoliu seu lazer, seu descanso ou seu ócio produtivo, é hora de parar e avaliar o que é importante e o que pode ser mudado. Só assim vai acabar com a incômoda constatação de que 24 horas não são suficientes para você. “Tem que repensar escolhas e valores, o que está agregando”, pontua Souza.

A reflexão só é possível por meio de uma autoanálise, princípio de qualquer mudança para se organizar, planejar e executar. “Conhecer-se é uma das coisas mais importantes. Eu tenho que me conhecer, saber minhas habilidades, qual tipo de profissão e como posso ser organizada nisso tudo. Isso não necessariamente na vida profissional, até dentro de casa”, observa Souza.

“Imagine uma família, com mãe, pai e dois filhos em que ambos os pais trabalham. Então, tem que organizar tudo, desde acordar as crianças no horário, rotina, se os filhos podem participar desta organização ou não por causa da idade. Organizar para esta rotina não ser estressante”, acrescenta. “Se os pais forem ansiosos e estressados, influenciam os filhos. Se gente é assim no trabalho, como ficam os vínculos? A gente acaba sendo o tempo inteiro modelos”, acentua.

Conhecer os próprios limites é outro ponto fundamental para não passar da medida e não acumular tarefas que não poderá cumprir e só trarão frustração e estresse.

“É importante saber até onde a gente pode ir. Vamos pensar na questão profissional: imagine um auxiliar de escritório, por exemplo, em meio à papelada e com um monte de coisas para fazer. Primeiro, eu estou escolhendo esta profissão. É uma escolha consciente? Posso dar conta de tudo? Como eu posso me organizar?”, lista.

A psicóloga destaca que a escolha da profissão precisa estar vinculada com as habilidades e potencial para aquele tipo de trabalho. “No exemplo do escritório, dentro das coisas que se pode fazer estão ter uma mesa organizada, não deixar papelada espalhada, se organizar com pastas, separar o que usa no dia a dia e o que não usa”, aponta.

 

Hora de parar

Quando já não é possível administrar a própria vida e todos os dias se tornam martírios com o carrasco relógio lhe escravizando e atropelando, é hora de parar. Algo está errado e tem que mudar.

“A partir do momento em que você se conhece, sabe o que normal para você. A pessoa tem que perceber que não está em seu normal. E a gente volta para o autoconhecimento. Se eu sei o que é normal para mim, vou detectar onde eu extrapolei o meu limite. Por que estou desta forma?”, explica Souza.

Segundo a psicóloga, cabem, neste momento, perguntas fundamentais como: qual é a prioridade? Será que minha saúde não é uma prioridade?

Souza alerta que as pessoas se habituam à rotina corrida, sem tempo para si, e ficam doentes. “Tudo se torna um hábito. Tornou-se um hábito ficar estressado? Espera aí, isso não é bom para mim. Vamos mudar para um hábito mais saudável e transformar isso”, ressalta.

A psicóloga ressalta que é importante para se manter saudável ter, pelo menos uma vez por semana, o momento reservado para o lazer.

“Familiar e individual. Este momento não precisa ser viajar, sair de onde está. Você gosta de escutar música? É meia horinha, um tempinho que eu tenho só para mim. Tomar um banho mais relaxante. E momentos em família. Jogar juntos. Tentar fazer com que a rotina seja prazerosa”, observa. Caso contrário, o preço pode ser alto. “Você não tem tempo para nada e as relações se desfazem”, constata.

 

Hora de trabalhar e hora de descansar e curtir

 

Uma das máximas do capitalismo afirma que “time is money”. Realmente, tempo é dinheiro, até o tempo de descanso e lazer. A psicóloga Greta Souza afirma que é cada vez maior a tendência entre empresas da noção de que o bem-estar de seus funcionários reflete na produção e, aí sim, produção de qualidade é dinheiro. Quem não investe na valorização do descanso e do lazer, fazendo seu empregado feliz, está na contramão da história.

“Hoje, as melhores empresas agregam valores neste sentido, querem o bem-estar do funcionário. As empresas pequenas esgotam os funcionários. As empresas maiores querem o bem-estar do funcionário e da família do funcionário. Isso reflete na produção e no crescimento ou não daquela empresa”, explica Souza. Em uma equação óbvia, empregado satisfeito trabalha melhor, empregado descontente... “Um funcionário bem organizado e que tem uma estrutura legal, vai com certeza dar frutos para aquela empresa. A empresa vai sair ganhando também”, comenta a psicóloga.

Cabe também ao funcionário entender a importância de ter um tempo para esfriar a cabeça, se afastar dos problemas profissionais, fazendo uma reciclagem para o tempo no trabalho. Já diz a canção de Beto Guedes: “Lembra que o sono é sagrado e alimenta de horizontes o tempo acordado de viver.” Digressão à parte, a saúde para trabalhar bem depende do tempo de descanso e lazer também. “É preciso colocar prioridades. Não deixar de trabalhar, mas precisa estar bem para trabalhar”, conclui Souza.