09 de julho de 2026
Bairros

Falta ajudante geral no mercado de trabalho

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Éder  Azevedo

“Não há o que pague a satisfação de ver que o nosso trabalho faz bem”, afirma Antonio

O poder público e a iniciativa privada enfrentam dificuldades para encontrar profissionais dispostos a trabalhar como ajudantes gerais. A função, que pode ter atribuições variadas, demanda esforço físico e, por este motivo, está entre as atividades cada vez mais rejeitadas pelos trabalhadores.

O mesmo “apagão” de mão de obra já vinha sendo sentido pelo setor de construção civil, que sofre com a falta de pedreiros e serventes, mesmo oferecendo salários que podem chegar a R$ 3 mil. “Nesta semana (passada), uma vaga oferecia R$ 1,3 mil para a função de servente de pedreiro e um homem, qualificado para este trabalho, preferiu não aceitar”, conta o diretor regional da Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho (Sert) em Bauru, Alexandre Ciro Perin Bertoni.

Vinculado ao órgão, o Posto de Atendimento ao Trabalhador (PAT) de Bauru oferecia, na última semana, 265 vagas de emprego para ajudantes gerais em empresas de nove municípios da região. A dificuldade para preencher os cargos, segundo Bertoni, costuma ser enorme.

“A popularização da Internet provocou uma mudança de parâmetros. As novas gerações querem ter papel ativo, não querem mais desempenhar atividades braçais, até porque as possibilidades de qualificação profissional também se ampliaram ao longo dos anos”, observa.

Na Prefeitura de Bauru, a situação não é diferente. Apenas a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) precisaria de mais 60 ajudantes gerais para dobrar o atual quadro de funcionários e dar conta de todo o trabalho, que envolve limpeza de praças, coleta de galhos, capinação e auxílio às equipes de poda e supressão de árvores.

 

Desinteresse

“Hoje, com pessoal mínimo reduzido à metade, os serviços atrasam”, reconhece o titular da pasta, Valcirlei Gonçalves da Silva. E as contratações, de acordo com o prefeito Rodrigo Agostinho, não devem acontecer em breve, já que os concursos públicos abertos anteriormente não atraíram o interesse de um número suficiente de profissionais.

“Como há cada vez menos gente disposta a trabalhar, trata-se de uma mão de obra muito disputada no mercado de trabalho”, frisa. O salário inicial oferecido pela Semma é de R$ 804,60, além de vale-refeição, vale-alimentação e vale-transporte, que somam até R$ 796,00.

Mas, como a iniciativa privada geralmente paga melhor, um número mínimo acaba se voltando ao serviço público. Segundo o prefeito, trata-se de uma dificuldade que vem sendo enfrentada, de maneira mais intensa, há cerca de três anos.

“A juventude, hoje, tem mais acesso a cursos técnicos e superiores. E também há mais vagas de trabalho disponíveis em outras áreas. Por mais que sejam bem pagos, esta nova geração não está disposta ao trabalho braçal, que em muitos casos, é realmente desgastante”, pondera.

Outro agravante, segundo Rodrigo, é o fato de o Tribunal de Contas exigir, para a função, trabalhadores que tenham concluído o ensino fundamental. “E quem chegou a este nível de escolaridade dificilmente se interessa por este tipo de profissão”, completa.


Mão de obra ‘importada’

O diretor regional da Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho (Sert) em Bauru, Alexandre Ciro Perin Bertoni, salienta que Bauru vive uma “fase prodigiosa” em termos de oferta de vagas, mas muitas não são preenchidas devido à falta de pessoal interessado. Para tentar minimizar o problema, muitas empresas têm optado por “importar” mão de obra de outras cidades da região.

“Mais uma vez, vemos um fenômeno semelhante ao da construção civil, que mesmo já tendo atravessado sua fase de superaquecimento, ainda precisa trazer trabalhadores de outros Estados para trabalhar em Bauru”, comenta.


Saída

Na tentativa de suprir a falta de pessoal, a prefeitura vem, a exemplo de empresas privadas, utilizando mão de obra de reeducandos das unidades do sistema prisional semiaberto de Bauru. Segundo o prefeito Rodrigo Agostinho, há alguns anos um convênio foi firmado com o governo do Estado e, desde então, os detentos passaram a desempenhar funções, principalmente, nas secretarias municipais de Administrações Regionais e de Obras, mas também pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE) e Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).

Pela iniciativa, custeada pelo Estado, os reeducandos recebem auxílio mensal e trabalham por tempo determinado de nove meses. “Mas, mesmo com esta parceria, a falta de profissionais continua enorme. Existe a possibilidade de ampliarmos o projeto, com custeio também por parte da prefeitura. Diante do atual contexto, é algo a ser estudado”, adianta.

 

‘Eu fiquei porque amo o que faço’, diz ajudante que trabalha há 23 anos

O ajudante geral Antonio Ferreira Armendroz, 43 anos, começou cedo na profissão. Trabalhando desde os 20 anos de idade na prefeitura, ele iniciou sua carreira como ajudante, depois foi promovido como encarregado e, hoje, atua como chefe de uma equipe de nove funcionários.

Embora prefira não revelar o salário atual, Antonio diz que conseguiu criar dois filhos sem grandes ‘apertos’, mas sempre contando com a ajuda financeira da esposa. Destaca, no entanto, que não foram os rendimentos que o prenderam à profissão durante os últimos 23 anos.

“Fiquei porque eu amo o que faço. Saio com a equipe para coordenar o trabalho nas ruas, tenho contato com as pessoas, que agradecem o serviço que a gente presta. Não há o que pague a satisfação de ver que o nosso trabalho faz bem e melhora a vida das pessoas”, argumenta.