08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Beija-mão


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Naquela manhã fria de julho, ele saiu de casa para ver, nas bancas de jornais, o que diziam as manchetes dos principais periódicos. Enquanto ali permaneceu observou os apressados caminhantes dirigindo-se aos locais de trabalho. Algumas pessoas aproveitavam o frescor daquela manhã para comentar as manifestações da sociedade, pedindo mais austeridade e transparências nos negócios públicos.

Os movimentos populares sempre foram acompanhados de incertezas no tocante aos resultados práticos cuja aferição, ao longo das experiências, mostraram o recheio das dificuldades. Como visto, por parte das autoridades os reclamos exercem um efeito anestésico, resultando, em muitos casos, em um comportamento insensível, e apresentam, perante as assembleias, um aranzel de lugares-comuns, como a falta de verbas ou de projetos que serão encaminhados à discussão.

Instala-se um período de expectativas até que nova onda de protestos se faça presente nas ruas. Após ouvir queixumes de toda ordem, retornou à sua casa, dirigindo-se à nova biblioteca à procura das leituras e meditações como alimento para este texto-legenda. Sendo lido por alguém, o subscritor se dará por satisfeito por ter partilhado suas inquietações sobre o que tinha visto e ouvido e suas preocupações não eram apenas aparentes.

De fato, jornal de grande circulação estampou a fotografia de eminente acadêmico beijando o anel dourado de alto dignitário da igreja romana, ambos participantes de concorrido ágape em restaurante da moda na Capital do Estado. A fotografia vista no jornal o transportou para uma longínqua era quando os reis, em ambientes promíscuos, nomeavam os papas em tertúlias de confraternização. Daquela época para o mundo atual, com exceção do visível progresso das ciências, e sob outras óticas pouco mudou. Jornais, revistas e as televisões abertas ou pagas estão em frenéticos preparativos para o registro da visita daquele que foi escolhido por um colegiado para ser o pontífice reinante. O mesmo será foco das maiores reverências por parte dos integrantes da nobreza tupiniquim e dos políticos de ocasião. Afinal, trata-se do titulado representante de Deus na terra. Todo aparato de segurança será deslocado para determinados locais para prevenir e coibir eventuais distúrbios. Observa-se, de perto ou de longe, uma quase repetição do antigo ritual romano. Sua pompa e os intermináveis discursos que serão proferidos, geralmente de natureza moralizante, culminando com o esplendor das cerimônias do beija-mão. A Terra continua mergulhada nas sombras da ignorância por falta das luzes do Evangelho do verdadeiro Jesus. Não há necessidade de grandes esforços para compreender toda indignação do povo mostrada nas ruas, indignação esta que, aos poucos, vai sendo substituída por outras de igual, maior ou menor relevância. Os políticos sabem que esse mesmo povo têm memória curta e distrai-se com o futebol e festivais pornográficos; manifestação aqui, outra acolá são acolhidas e em respostas são adocicadas com as conhecidas promessas. Com estas reflexões, ele concluiu que a origem de todos esses males repousa na falta de conhecimento de suas causas - que são profundas e, em nossa inferioridade moral, e por ser assim, toda sociedade permanece débil, impotente e dividida durante todo o tempo em que a desconfiança, a dúvida, o egoísmo, a inveja e o ódio a dominarem.

Roque Roberto Pires de Carvalho