09 de julho de 2026
Economia & Negócios

Saldo de emprego é o pior desde 2009

Vitor Oshiro com Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

A desaceleração econômica provocou queda brusca no nível de emprego de Bauru. O primeiro semestre de 2013 já entra para a história como um dos piores na criação de novas vagas de trabalho. Para se ter uma ideia, o índice está somente um pouco acima de 2009, quando o País sofria influência da grave crise financeira internacional, e é o segundo pior em dez anos.

 

João Rosan

Desde o começo do ano, Marcus Ariovaldo da Silva, 32,

tenta, sem sucesso, arrumar emprego na área de vendas

De janeiro a junho de 2013, o saldo entre contratações e demissões foi de 466 vagas, conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados ontem pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).


No mesmo período do ano passado, foram criados 3.194 empregos formais, o que representa diminuição impressionante de 85%. E todos os setores apresentaram quedas, inclusive alguns com maior número de demissões do que contratações (leia mais abaixo).


O quadro preocupa ainda mais se comparado com 2009. Em meio à grande crise econômica que assolava o mundo inteiro, Bauru criou no primeiro semestre daquele ano 289 vagas de emprego. Ou seja, em 2013, foram gerados apenas 177 postos de trabalho a mais do aquele período crítico.


Para o economista Reinaldo Cafeo, os números só comprovam o que a visão macro já informava. “Há uma desaceleração da economia em curso”.


Segundo ele, nos últimos anos, o Brasil - incluindo Bauru - usou como estratégia a ampliação de crédito para incentivar o consumo das famílias. “Porém, este modelo se esgotou conforme há um limite para o endividamento”, explica.


A consequência é a volta da inflação e, com ela, a elevação dos juros domésticos. Ocorreu o que o economista chama de “política monetária restritiva”. “O mercado fica mais curto. As decisões de investimentos são adiadas e o resultado é um ciclo vicioso com queda no consumo, queda nas vendas, menor lucro, menos apetite em investir e, por fim, o encurtamento do mercado de trabalho”.


Com dez anos de experiência na área de vendas de material de construção, Marcus Ariovaldo da Silva, 32 anos, é um dos exemplos deste cenário bauruense. Ele foi demitido no ano passado e aproveitou para fazer uma cirurgia. A intenção era voltar ao mercado de trabalho este ano. Até agora, porém, não conseguiu nada.


“Está muito difícil. Até tentei abrir o meu próprio negócio de venda de espaços publicitários, mas não decolou. Tenho grande experiência em vendas e estou no último ano da graduação em marketing. Ou seja, tenho qualificação e, mesmo assim, não consigo nada”, lamenta.


O economista Mauro Gallo aponta que a falta de oportunidades no contexto atual realmente atinge todos os trabalhadores. Contudo, os mais qualificados, como é o caso do currículo de Marcus, sofrem menos.


“A causa é realmente a desaceleração da economia e é algo que afeta a todos. Porém, o Brasil ainda vive certa falta de mão de obra qualificada. Então, aqueles menos qualificados são os mais atingidos”, destaca Gallo.



Ainda positivo


Apesar da queda constante na geração de empregos, é importante notar que o saldo ainda é positivo. Ou seja, as demissões ainda não superaram as contratações.


Reinaldo Cafeo explica que os empresários tendem a segurar seus empregados, pois tiveram dificuldades em contratar no melhor momento da economia. “Treinaram equipe e não querem dispensar sem ter certeza que a economia efetivamente se deteriorou. Assim, seguram seus recursos humanos, sacrificando margem de lucro e esperando que a economia mude para melhor”, complementa.

 

Pior que o cenário nacional

Apesar de o Brasil todo sofrer com a desaceleração, os 466 empregos criados em Bauru de janeiro a junho de 2013 representam uma redução muito maior do que o contexto nacional (leia mais na página 18).


Em relação ao mesmo período de 2012, o índice de queda em todo o País foi de 21,1%. Em Bauru, a redução registrada foi de 85%.


Outro dado histórico é que a média bauruense é a segunda pior em uma década. Tirando 2009, o primeiro semestre deste ano só fica à frente na criação de novos postos de trabalho do que o mesmo período de 2002, quando foram gerados 102 empregos.

 

Agropecuária e indústrias demitiram mais do que contrataram neste ano, apontam dados do Caged

Os dados apresentados ontem pelo Caged apontam que todos os setores da economia apresentaram redução no saldo de empregos no primeiro semestre deste ano em Bauru. Alguns chegaram a apresentar índice negativo. Foram os casos da agropecuária e das indústrias.


No setor agropecuário, foram admitidos 349 trabalhadores, enquanto 407 foram desligados, o que representa saldo negativo de 58. Já nas indústrias bauruenses, o Caged aponta que 3.795 trabalhadores foram contratados e 3.833 desligados, gerando índice negativo de 38 vagas.


O setor de serviços – considerado o ponto forte de Bauru – foi o que mais gerou empregos neste primeiro semestre. Foram 261 novos postos de trabalho. O economista Reinaldo Cafeo explica que essa caraterística é o que conta para Bauru não ter uma situação ainda pior.


“Áreas da saúde, educação, recuperação de crédito, entre outras, possuem outra dinâmica que não depende muito do consumo das famílias via crédito. São áreas necessárias. No caso de recuperação de crédito, é algo que até cresce quando a economia não vai bem. Por outro lado, o comércio varejista está mais suscetível aos reflexos deste momento”, finaliza.

Vai melhorar?

Os economistas apontam que a situação irá melhorar em um futuro próximo. Porém, não será uma melhora gritante. “O segundo semestre não será tão bom quanto anos anteriores, porém, não será tão ruim como foi o primeiro semestre”, aponta Reinaldo Cafeo.


Como o controle da inflação é prioridade, a perspectiva de melhora, para o economista, virá somente após o mês de setembro. “Até lá o movimento do emprego será semelhante ao cenário atual”.


Mauro Gallo, contudo, enxerga melhoras somente em 2014. “Tanto que estão falando até em mudanças no governo para conseguir acelerar a economia”, complementa.