Em sua primeira missa pública no Brasil, no Santuário Nacional de Aparecida (a 469 km de Bauru), o papa Francisco classificou dinheiro e prazer de “ídolos passageiros” e disse que os cristãos devem “conservar a esperança, deixar-se surpreender por Deus e viver na alegria”.
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Reuters |
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Papa disse que vai voltar ao Brasil em 2017 |
O papa também criticou o consumismo (“os jovens não precisam de coisas”), louvou a Virgem Maria e prometeu retornar a Aparecida em 2017, quando se festejam 300 anos desde que a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada por pescadores, no rio Paraíba do Sul.
Francisco chegou de avião pela manhã ao aeroporto de São José dos Campos (SP), vindo da Base Aérea do Galeão (Rio), e dali seguiu de helicóptero a Aparecida, apesar do mau tempo no trajeto.
Segundo a organização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), cerca de 200 mil fiéis estiveram presentes à cerimônia na basílica de Aparecida, na manhã desta quarta-feira (24)- total superior ao atraído pelo antecessor de Francisco, Bento XVI, que em sua visita de 2007 levou cerca de 150 mil ao local.
A homilia de Francisco, simples, confirmou sua vocação de sumo pontífice “pastoral” - em contraste com Bento XVI, que, embora visto como grande intelectual até por ateus, mostrava relativa dificuldade de se comunicar com a massa dos fiéis.
O papa estruturou sua fala em torno das três posições que, para ele, devem guiar a vida cristã (esperança, “surpresa de Deus” e alegria).
Ao exortar os fiéis a manter a esperança, Francisco afirmou que “o ‘dragão’, o mal, faz-se presente na nossa história, mas ele não é o mais forte, Deus é o mais forte”.
É uma citação ao livro do Apocalipse, o último da Bíblia, no qual uma mulher grávida é atacada por um dragão, mas ela e seu bebê são salvos por Deus - a tradição católica interpreta a cena como um retrato tanto de Maria com Jesus quanto da igreja como “mãe” dos seus fiéis.
Todas as leituras da Bíblia na missa aludiram ao papel de Maria como “mãe e rainha” dos católicos: um trecho do livro de Ester, rainha judia que intercede por seu povo como Maria pelos fiéis, e a passagem do Evangelho em que Jesus transforma água em vinho a pedido da mãe.
De modo sutil, Francisco também incluiu em seu discurso a faceta “papa dos pobres”: recordou sua passagem por Aparecida há seis anos, na reunião geral dos bispos da América Latina.
Bênçãos
Francisco vai até cadeirante
A segurança até que tentou, mas o papa Francisco queria mesmo era quebrar protocolos. Na segunda oportunidade que teve de se aproximar do povo no Brasil, o pontífice pediu até para descer do papamóvel. Foi no trajeto ao heliponto da basílica, quando se preparava para deixar Aparecida, ontem.
Quando viu um adolescente cadeirante à sua espera no gradil, o santo padre pôs as mãos nas costas do motorista, que freou, e foi na direção do jovem, apesar da chuva. “Tremi de emoção”, disse Warlem Damião Ferreira, 14 anos, que vestia a camiseta oficial da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).
PM ganha bênção
Odair Moura, 38 anos, aluno da Escola Superior de Sargentos de São Paulo, foi ontem um dos mais de 2 mil policiais escalados para impedir que fiéis se aproximassem do papa. A tarefa não foi fácil. Peregrinos carregavam bilhetes, fotos e ornamentos religiosos, na esperança de conseguir uma bênção particular. Alguns foram contidos pelos seguranças quando tentavam se aproximar do papamóvel.
Mas ninguém conseguiu segurar o futuro sargento Moura. Postado estrategicamente na frente do seminário no momento em que o papamóvel parava, o PM pulou à frente de cinegrafistas, autoridades e agentes da Polícia Federal para chegar perto do papa. Ao esticar a mão, foi atendido por Francisco com gesto recíproco e conseguiu o que mais de 100 mil fiéis sonhavam em fazer.
No hospital
Depois de ser recepcionado por frades na capela do hospital São Francisco de Assis, na Tijuca (zona norte do Rio), o papa Francisco abençoou dez pacientes internados na unidade. Entre eles, Natalia Mozinho, 16 anos, internada desde o início desta semana, tratando de uma doença renal. “Não cheguei a dizer nada, mas ele tocou minha mão, olhou para mim”, disse a menina.
No grupo de pacientes também estava Maria da Conceição de Souza, 49 anos, que é cega. “Não vejo o papa com os olhos da carne, mas o vejo com os olhos do coração.”
‘Uso livre’ das drogas não é solução, diz papa em hospital no Rio
O papa Francisco condenou ontem as propostas de legalização das drogas em discussão no Brasil e em outros países da América Latina, e chamou os traficantes de “mercadores da morte”.
Em discurso no hospital São Francisco de Assis, que trata dependentes químicos, Francisco disse que o “uso livre” de drogas não ajuda a resolver o problema do elevado consumo de entorpecentes, e o melhor a fazer seria investir na educação dos jovens.
“Não é deixando livre o uso das drogas, como se discute em várias partes da América Latina, que se conseguirá reduzir a difusão e a influência da dependência química.”
Horas antes, em sermão na missa que celebrou na Basílica Nacional de Aparecida, o papa exortou os jovens a deixar de lado “ídolos passageiros” que “se colocam no lugar de Deus”, como dinheiro, poder, sucesso e prazer.
“Eles não precisam só de coisas, precisam sobretudo que lhes sejam propostos aqueles valores imateriais que são o coração espiritual de um povo, a memória de um povo”, disse Francisco.
Os dois pronunciamentos expuseram o rigor com que o papa pretende tratar de temas ligados ao comportamento dos jovens, foco principal de sua visita ao Brasil, iniciada na segunda-feira.