10 de julho de 2026
Geral

Tempo frio: do mau humor ao glamour

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Duas famílias, duas realidades distintas e um mesmo frio. Na periferia, a dona de casa Bruna Mayara Cavalcanti Guedes, de 20 anos, “se vira nos trinta” e improvisa um quarto na casa da sogra para que ela o marido e o filho de um ano não sofram com o vento que entra pelas frestas do barraco de madeira onde moram.

 

Malavolta Jr.

Danuza, Beatriz, Tiago e Luzia: família Gasparoto

utiliza a tecnologia para conseguir se aquecer

Na zona sul, a fisioterapeuta Danuza Gasparoto, de 28 anos, liga o aquecedor em seu quarto e no quarto do filho de dois anos, 10 minutos antes de dormir.


Cada bauruense se protegeu de forma diferente para enfrentar a madrugada mais fria dos últimos anos na cidade.


Segundo o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), por volta das 6h de ontem os termômetros indicavam 3,9ºC, número que representou sensação térmica de 0ºC até -4ºC em alguns locais na cidade por conta do vento.


Por tornar difíceis e incômodas tarefas simples do dia a dia, como por exemplo, lavar roupas e louças, o frio é visto como um vilão por algumas pessoas, principalmente pela população da periferia, como da favela do Jardim Europa.


“Saio de casa às 5h30 de bicicleta para ir ao trabalho e o frio atrapalha muito o percurso, já me deixa nervoso e de mau humor logo cedo”, comenta o armador Elson Diego Guimarães, de 25 anos, morador do local e marido de Bruna.


A mesma opinião é compartilhada por Emerson Barbosa, de 28 anos, que na manhã de ontem perambulava pelas vielas de terra do bairro envolto a um cobertor.


“O inverno é terrível. Já fui morador de rua e sei o que é passar frio de verdade. Atrapalha a vida, não dá para dormir direito. Dá um mau humor que só vendo”, afirma.



Aconchego


Já para outras, como é o caso da fisioterapeuta Danuza, o frio é sinônimo de aconchego, glamour e de facilidades, já que o movimento nas ruas da cidade, segundo ela, costuma baixar em dias mais frios.


“Eu amo o frio. Não acho os dias chuvosos e nublados tristes. Tudo fica menos lotado e as pessoas se vestem de forma mais elegante”, ressalta a moradora, que ontem tirou a manhã de trabalho para ficar com o filho em casa por conta do frio.


De fato, dificuldade é uma palavra que não entra para a rotina da família Gasparoto quando o assunto é a chegada de baixas temperaturas.


Para secar as roupas, secadora elétrica. Para tomar banho, chuveiro potente e aquecedor. Para aquecer os ambientes, ar condicionado quente.


Sorte para o pequeno Tiago Gasparoto, de 2 anos, que divide com a mãe, a cuidadora Luiza D’ Alessandro, 28 anos, e a filha dela, Beatriz D’Alessandro, de 8 anos, horas e horas de aconchego do sofá na sala da residência, localizada na rua Carlos Del Plete, no Jardim Europa, zona sul.


A algumas quadras dali, a situação não parece tão diferente, apesar das privações materiais.


No barraco da rua 1 da favela do Jardim Europa, a família Guimarães faz do aconchego e do calor humano uma alternativa contra o frio.


“Tenho que me virar com uma coberta só, então eu durmo abraçadinha com ele (Nicolas, seu filho de 1 ano). E quando está muito frio, como hoje (ontem), dormimos junto com meus cunhados na casa de alvenaria da minha sogra”, explica Bruna Guedes, sentada na cama de seu barraco de dois cômodos, aos fundos da casa da sogra, junto aos cunhados Gabriel Guimarães, de 13 anos, e Cintia Cruz, de 10 anos.

 

Alimento coadjuvante

O proprietário de um restaurante especializado no preparo de caldos dos mais variados sabores, Valdemir Sanvezzo, conta que os amantes do frio lotam a casa localizada em frente ao Vitória Régia durante todo o inverno.


“O movimento aumenta estrondosamente e o pessoal adotou o caldinho e adora”, frisa. Segundo ele, os caldos mais populares são de vaca atolada, caldo verde e de feijão (denominado feijoca) que, segundo Sanvezzo, são super saudáveis.  


A estudante de arquitetura Daniela Kumagai, 25 anos, diz ter assustado com o frio dos últimos dias e que só estava preparada porque trouxe roupas do Japão. Quanto à alimentação, ela diz mudar bastante nesta época. “A gente não toma tanto suco, tanta água gelada e procura comer mais caldos, sopas, é uma alimentação mais leve, por isso viemos aqui”, conta.  


O gerente comercial Italo Teixeira, 31 anos, é um dos que amam o frio e costuma frequentar o restaurante especializado em caldinhos. Apesar de não frequentar a casa há algum tempo, foi inevitável passar por lá nos últimos dias. ”No frio sentimos mais fome”, concluiu.