Só no último sábado, duas fotos de Drielly Carla Alves de Brito, 22 anos, foram removidas da parede da casa em que ela vivia. Um ano após a morte da universitária, foi praticamente a única coisa que mudou no local. “O quarto ainda está do jeitinho que ela deixou”, conta o pai, Luis Carlos de Brito, 46. E não foi só na residência da família que o tempo parece ter “parado”. O processo do caso não tem novidades e a Saúde ainda agoniza com a falta de vagas.
A morte de Drielly completa um ano exatamente amanhã. Após aguardar vaga de internação por três dias em uma maca no Pronto-Socorro Central (PSC) (leia mais abaixo), a universitária morreu na manhã do dia 26 de julho de 2012 acometida de uma pancreatite necro-hemorrágica com embolia pulmonar.
“Ainda é muito difícil. Há vezes que eu estou viajando sozinho, lembro dela e começo a chorar”, conta Luis de Brito, que é motorista.
A mãe da jovem entrou em depressão, quadro que ela luta até hoje para superar. Até a irmã mais nova, hoje com 12 anos, faz acompanhamento psicológico. “Nós, que acompanhamos de perto, vemos que a família desmoronou”, lamenta Elisângela Carla de Brito Fernandes, 40, tia de Drielly.
Para apurar o caso, a Polícia Civil instaurou um inquérito. Ao fim de novembro de 2012, o delegado Fábio Mariotto concluiu as investigações e apontou que o município não poderia ser responsabilizado. Na ocasião, ele declarou que, se houve alguma negligência, foi da Secretaria de Estado da Saúde ao não arrumar a vaga de internação.
Porém, o Ministério Público (MP) solicitou mais diligências aos policiais para apurar melhor o caso. Nesse tempo, o cumprimento de tais investigações complementares foram para as mãos do delegado Milton Bassoto.
Na última dessas diligências, um médico e os pais de Drielly foram ouvidos pelos policiais. Só no último dia 17, o inquérito finalmente chegou às mãos do MP.
À reportagem do JC, o promotor que cuida do caso informou que ainda não havia tido tempo de analisá-lo. Ele, que pode oferecer a denúncia à Justiça ou arquivar o processo, disse ter um prazo de 15 dias para ter uma resposta.
Cinco defensores públicos acompanham o caso. Além da área criminal, a família, que acredita em omissão e negligência, deve entrar com um pedido de indenização aos órgãos envolvidos. Entretanto, conforme o JC apurou, aguardam a decisão do MP sobre o caso.
Sindicância
Outro que apura os fatos é o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). Foi aberta uma sindicância para analisar a conduta dos médicos envolvidos. O resultado, contudo, deve demorar a sair.
O chefe da delegacia regional de Bauru do órgão, Carlos Alberto Monte Gobbo, garante que ainda não houve uma conclusão. Segundo ele, dependendo dos casos, pode levar uma média de cinco anos para uma decisão. “E, neste período, o processo segue em sigilo”, explica.
Se um ano não foi o suficiente para surgirem novidades no caso de Drielly, foi o tempo necessário para mais pessoas morrerem à espera de vagas.
No dia 5 de junho, ocorreu um dos mais emblemáticos. A operadora Gisele Valdenice Viana, 22 anos, que sofria de insuficiência renal, morreu por infecção generalizada devido a complicações em função do diabetes, após esperar por uma vaga de UTI durante dois dias.
Relembre o caso
Drielly de Brito começou a sentir dores abdominais no dia 19 de julho do ano passado e procurou o PSC, onde recebeu medicação e foi liberada. Dois dias depois, realizou exames na UPA do Mary Dota e, com necessidade de internação, voltou ao PSC para aguardar vaga no Hospital Estadual (HE).
A solicitação para internação clínica cirúrgica teria sido feita pelo PSC na madrugada do dia 25. Na madrugada do dia 26, o estado da paciente agravou-se e ela precisou ser entubada. Nova vaga foi solicitada ao Estado, desta vez para internação em UTI. O leito foi liberado duas horas depois em Promissão, a 122 quilômetros de Bauru, mas o estado da paciente não comportava o transporte. Às 6h do mesmo dia, o PSC voltou a fazer o pedido para internação no HE, que foi atendido pelo Estado às 7h, quando Drielly sucumbiu a uma pancreatite necro-hemorrágica.
Manifestação
Os familiares e amigos de Drielly Carla Alves de Brito irão realizar uma manifestação depois de amanhã em Bauru. A passeata está marcada para sair por volta das 16h do Parque Vitória Régia. O trajeto deve ser Nações Unidas, Duque de Caxias e terminar na prefeitura.
“Queremos convidar familiares e amigos das outras pessoas que morreram esperando uma vaga. Queremos que todos eles participem para exigir melhorias na nossa saúde. Desde a morte da Drielly, nada mudou”, destaca Elisângela Carla de Brito Fernandes, tia da universitária.
‘Envelheceu 10 anos e perdeu 30 kg’
Desmoronou. Essa é a palavra perfeita para traduzir o que ocorreu com a família de Drielly Carla Alves de Brito após a morte da jovem. Os sinais mais aparentes, porém, podem ser vistos em Renata Cristina de Brito, 42 anos, a mãe da universitária.
“Minha esposa envelheceu 10 anos e perdeu 30 quilos durante este um ano. Tudo por conta da tragédia”, conta Luis de Brito.
Por cerca de 15 dias após o ocorrido, ela precisou ficar com os familiares. Nesse tempo, Renata pensou até mesmo em “acabar com todo com aquele sofrimento”.
“O antigo namorado da Drielly foi outro que sofreu muito. Ele nem vem mais aqui. Diz que não consegue nos ver nessa situação tão triste”, conta o pai da jovem.
Por coincidência, o JC encontrou o namorado de Drielly em uma das manifestações que marcaram o mês de junho em Bauru. “Queremos ter a garantia de um sistema de saúde de qualidade”, disse, na ocasião. André Alvarenga, 21 anos.