08 de julho de 2026
Articulistas

Endividamento e qualidade
de vida

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

Muitas famílias brasileiras ascenderam socialmente. A classe média ficou mais robusta e com isso elevaram o padrão de vida. Padrão de vida mais elevado é sinônimo de aumento no consumo, quer pela possibilidade de aumentar a quantidade consumida, quer pela melhoria na qualidade do produto consumido. Na prática existia e ainda existe o que podemos denominar de demanda reprimida. São milhões de brasileiros que sempre quiseram ampliar seu consumo, mas a renda não permitia.

Quando as condições de vida melhoram, os envolvidos querem "tirar o atraso". E é neste momento que muitas famílias podem dar início aos problemas financeiros. O apelo por consumir é enorme. Eletroeletrônicos com prazos alongados, com parcelas fixas, sem juros. Veículos sem entrada e prazos confortáveis para pagar. Vestuários pagos com cartão com parcelamento atraente. Viagens para pagar em 12 vezes. Enfim, apelos não faltam e, quando a mensagem da venda atinge diretamente a expectativa do consumidor, a compra se concretiza.

Mesmo com melhoria da renda, sabemos que é finita. A somatória de prestações, mais a melhoria do perfil de consumo de bens básicos, mais a contratação de plano de saúde, mais Internet, celular e tantos outros compromissos não são suportados por esta limitada renda. A conta no final do mês não fecha. Gastos superiores à renda, ou o consumidor começa a ficar inadimplente nas contas assumidas, ou, normalmente, se endivida no banco ou na administradora do cartão de crédito. Surgem os juros para rolar a dívida. Juros são novos gastos que, somados aos gastos já existentes, comem ainda mais a já comprometida renda. Resumo: as famílias se endividam e entram em um ciclo vicioso. Não dormem à noite. As brigas com os familiares se acentuam. São efetuados empréstimos junto a amigos e parentes. A convivência social já não é prazerosa. O resultado é perda de qualidade de vida.

Observem que este ciclo é perverso e pode levar a doenças como, por exemplo, à depressão. É preciso romper com isso. Para que isso ocorra, as famílias precisam ser determinadas. O primeiro passo é admitir que a gestão das finanças do lar está errada. Em seguida, a família deve ser reunida para que encontre uma solução coletiva. Todos os membros da família precisam ajudar, cada qual como pode. Os filhos segurando a pressão por consumo de produtos supérfluos. Os pais direcionando o consumo para o que é essencial.

Em seguida, é preciso listar as dívidas. Os credores devem ser procurados para um acordo. Inicie pelas dívidas que incidam mais juros. Se for parcelar as dívidas pendentes, analise qual a real possibilidade em assumir uma prestação. Não adianta aceitar qualquer valor e depois de pouco tempo descobrir que não pode honrar tal compromisso. Priorize o pagamento das contas que garantam a segurança da família, como aluguel ou prestação da casa, água e luz. Corte o celular. Saia dos juros.

Não podemos permitir que o status, o desejo em possuir bens materiais, a inveja e tantas outras armadilhas impostas pela sociedade moderna, nos leve a perder qualidade de vida. Não faz o menor sentido se render aos apelos do consumo pelo consumo. Lembre-se de que quem compra o que não precisa, venderá o que precisa. Endividamento faz as famílias perderem qualidade de vida. Não aceite isso passivamente. Aja imediatamente!

O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, diretor regional do Corecon e articulista do JC