10 de julho de 2026
Geral

Saúde: greve em hospitais já restringe oferta de internação, avalia município

Por Tisa Moraes | Com Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 6 min

A rotina de internações dos pacientes que aguardam vaga no Pronto-Socorro Central (PSC) foi prejudicada já no primeiro dia de greve dos funcionários das principais unidades hospitalares públicas de Bauru.


Segundo o Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde, embora 27 pessoas estivessem na fila de espera por internação, nenhuma vaga foi liberada, ontem.

Na avaliação do diretor do DUE, Luiz Antônio Bertozo Sabbag, a restrição estaria relacionada à paralisação dos funcionários.


“É uma situação bastante atípica. Em dias críticos, há liberação de ao menos três ou quatro vagas. Acredito que, com menos gente trabalhando, certamente eles não poderiam usar a capacidade total de leitos, porque não haveria pessoal suficiente para acompanhar estes pacientes”.


Ele acrescenta que, hoje, com a continuidade da greve, a tendência é de acúmulo de um número ainda maior de pessoas na fila por internação.

Renan Casal

Grevistas em frente ao Hospital Estadual

Procurada pela reportagem, a Fundação para o Desenvolvimento Médico Hospitalar (Famesp), que administra os hospitais, afirmou a greve não foi responsável por negativa de vaga.


A assessoria de imprensa da entidade, no entanto, não soube informar a quantidade de leitos liberados ao longo do dia e orientou o JC a obter os números junto município - que informa exatamente sobre a falta de oferta de vaga.


Questionada, a Secretaria de Estado da Saúde adiantou que a informação só poderia ser dada a partir dos nomes dos pacientes que eventualmente tivessem sido encaminhados às unidades hospitalares. Mas, conforme reforçou o diretor do DUE do município, nenhuma vaga de internação foi ofertada das 7h da manhã - quando a paralisação teve início – até às 18h de ontem.


A greve dos trabalhadores da saúde atingiu as cinco unidades geridas pela Famesp em Bauru: os hospitais Estadual (HE), de Base (HB) e Manoel de Abreu, Maternidade Santa Isabel e Ambulatório de Especialidades Médicas (AME). Segundo informações do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos e Serviços de Saúde de Bauru (Seessb), todos os percentuais de funcionários previamente acordados foram mantidos e nenhum paciente ficou sem atendimento.


Sem avanço


No Hospital Manoel de Abreu, Maternidade e HB, trabalharam 70% dos funcionários. No AME, permaneceram em atividade 50% dos trabalhadores. Já no HE, continuaram trabalhando 50% dos funcionários dos ambulatórios, 70% dos que atuam na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e de 50% do centro cirúrgico.


“Nossos salários estão rebaixados e muitos funcionários estão sobrecarregados”,  garante Vera Lúcia Salvadio Pimentel, presidente do Seessb. A negociação do sindicato junto à diretoria da Famesp se arrasta desde maio, após a fundação elevar em 6,5% os vencimentos de todos os seus funcionários.  Os trabalhadores, contudo, reivindicam reajuste salarial de 20%, aumento do vale-alimentação de R$ 275,00 para R$ 400,00 e do auxílio-creche de R$ 130,00 para R$ 200,00, além da contratação de mais funcionários pela fundação, que, atualmente, emprega cerca de 3,4 mil servidores nas cinco instituições.


Ao longo do processo, a Famesp chegou a propor aumento do vale-alimentação para R$ 300,00 e do auxílio-creche para R$ 150,00, o que não foi aceito pela categoria. Sem avanço nas negociações, a paralisação continua hoje.

 

Acima da inflação

Segundo o Departamento Regional de Saúde de Bauru (DRS-6), desde abril, mais de 3 mil técnicos de enfermagem do HE, HB, Hospital Manoel de Abreu, Maternidade Santa Isabel e AME já estão recebendo os salários e benefícios reajustados em 6,5%, índice acima da inflação, de acordo com a proposta oferecida.


O DRS destaca que, em julho, foram convocados 25 técnicos de enfermagem e 27 enfermeiros para o HB para atender as resoluções em vigor. Em relação às demais unidades, a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde destaca que o quadro de funcionários é suficiente para o atendimento da demanda atual e está dentro da legislação preconizada.

Intermediação

De acordo com Vera Lúcia Salvadio Pimentel, presidente do Seessb, o governador Geraldo Alckmin teria se comprometido a conversar com o chefe de gabinete da Secretaria de Estado da Saúde, Reynaldo Mapelli Júnior, na tentativa de intermediar uma solução que possa por fim à greve.


Ao JC, a assessoria da pasta informou que continua aberta ao diálogo, mas, em entrevista coletiva concedida ontem à imprensa, em sua visita a Bauru, Alckmin destacou que o Estado não tem como intervir, já que os trabalhadores não são contratados pelo governo.


Anteontem, no entanto, o vice-diretor-presidente da Famesp, Antônio Rugolo Júnior, informou que tentaria se reunir, até o final desta semana, com representantes da Secretaria de Estado da Saúde em busca de recursos que possam atender a ao menos parte das reivindicações dos trabalhadores.

Demora no HE

Por meio de nota, a diretoria da Famesp informou que, apesar das paralisações, não houve impacto significativo para a assistência aos pacientes ao longo do dia de ontem. A única exceção foi o Hospital Estadual (HE), onde 50 trabalhadores não teriam cumprido suas atividades, acarretando em demora para a realização de alguns procedimentos do centro cirúrgico e endoscopia.

Sobrecarga?

Em frente o Hospital Estadual, os manifestantes pediam, em tom de protesto, mais atenção por parte da fundação e do governo do Estado. “Trabalhamos sobrecarregados. O hospital tem metas para atingir, mas não tem funcionário suficiente, isso acaba diminuindo a qualidade dos atendimentos. Eles marcam de 30 a 40 cirurgias por dia, mas não temos funcionários para isso tudo”, reclama a técnica de enfermagem do Centro Cirúrgico, Sabrina Moreira Mateus.


“Por conta da falta de funcionários, acabamos trabalhando em esquema de revezamento cobrindo outros setores”, acrescenta o auxiliar de enfermagem Ariel Aveline.


Além disso, segundo o representante da comissão formada pelos trabalhadores, Diego Vieira, os funcionários do HE também criticam os descontos salariais que a unidade estaria aplicando nos últimos meses em relação ao banco de horas.


No Hospital Estadual, quem precisava de atendimento informou não ter sido afetado pela paralisação.


“Minha neta veio fazer quimioterapia e foi atendida normalmente”, avaliou a aposentada Cleunice Pereira, de 58 anos, sobre o primeiro dia de paralisação no HE.


A diarista Ivanilde Romão também não teve problemas com o atendimento de seu filho de 10 anos. “Viemos de Jaú para uma consulta com o oftalmologista”.


Por volta das 10h, parte dos grevistas que estava em frente aos hospitais seguiu rumo ao prédio da Central de Polícia Judiciária (CPJ), onde o governador Geraldo Alckimin era recepcionado. Do lado de fora e de forma pacífica, os manifestantes reivindicaram melhores condições de trabalho.

HE amanhece sob protestos e cena deve se repetida por trabalhadores

Munidos de cartazes, faixas e nariz de palhaço, funcionários das cinco principais unidades hospitalares públicas de Bauru, geridas pela Famesp, cruzaram os braços na manhã de ontem. A cena deve se repetir hoje, com a continuidade do movimento.


Por volta das 7h, mais de 250 trabalhadores, entre técnicos de enfermagem e auxiliares, do Hospital Estadual (HE) protestavam em frente à portaria A da unidade. Apesar das tensões geradas nas unidades pelas paralisações simultâneas, o movimento manteve um efetivo de 50% a 70% dos funcionários trabalhando para garantir o atendimento das emergências e urgências.


Conforme o JC apurou, no período da manhã, a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Adulta do HE, por exemplo, que estava com os 11 leitos ocupados, permaneceu com cinco funcionários no atendimento ao invés de nove no período da manhã. Na UTI pediátrica, ao invés de sete, trabalhavam quatro funcionários, neste mesmo período.


De acordo com os manifestantes, o contingente que varia de 50% a 70% deve permanecer até a próxima terça-feira, quando funcionários, poder público e a Famesp se reunirão para uma audiência no Ministério Público do Trabalho (MPT).


Caso nenhum acordo seja firmado, a categoria promete intensificar as paralisações, diminuindo ainda mais o efetivo dentro das unidades de saúde a partir da próxima quarta-feira.