Antes de qualquer interpretação equivocada, quero deixar explícito que sou admirador do talento deste ator, e, ao contrário do que o título possa sugerir, adianto que não haverá contradição no que vou dizer daqui para frente. Se você, leitor, confiar sua paciência e tempo nesta leitura, perceberá isso. Tony Ramos habita meu imaginário, quase que de idolatria, desde meus tenros tempos em que assistia, em preto em branco, Nino, o Italianinho, na saudosa TV Tupi. Tempo em que meus pais, lavradores, colocavam em nossa mesa sempre um pedacinho de bife, havia o frango na panela e a comida era toda feita com gordura de porco. Calorias, colesterol? Nada que meia hora de enxada na roça de arroz ou café, que mantinham num árido espaço de chão, não desse conta de eliminar.
É verdade que existia uma falsa fartura porque era tudo muito impreciso. Pura subsistência. Numa geada, por exemplo, perdia-se todo o trabalho de um ano inteiro e nem sempre o Banco do Brasil, onde se buscava alguma ajuda para uma nova safra, entendia que a vida de quem vive da terra é diferente das cadeiras macias da gerência. Os animais eram criados por ali mesmo ou trocados com vizinhos do campo.
Não raro pegávamos amor pelos bichinhos. Um galetinho, um bezerro, um porquinho eram seres adoráveis. Até mais do que os cães e gatos, nossos pets (nossa, essa palavra nem existia) oficiais. Mas cresciam e, criança, não conseguia compreender porque eles não eram meus animais de estimação. Eram minha comida. O desgaste emocional diante da frieza e crueldade com que a vida diferenciava seres, em meu benefício, não me parecia justo. Justo era a sobrevivência, agora entendo. Era o que tínhamos, quando tínhamos, e devíamos agradecer a Deus por isso. Cresci e, por alicerces de berço e esforço, fui além da subsistência e mais até do que necessito ou mereço. Vivi um mundo novo. Informação, modernidade, tecnologia.
Alcancei um terceiro milênio cheio de novos paradigmas, esperanças, perspectivas. Hoje não somos mais primitivos homens de cavernas. Vivemos na era do conhecimento! E se conhecimento é um antônimo de ignorância, por que continuamos matando? Somos maus, hipócritas, omissos? Façam suas apostas! Fazemos isso porque aprendemos assim, e nossos limites enxergam nisso uma necessidade. Alimentos, vestuários, remédios, cosméticos, até mesmo a ciência!? A economia como um todo acomodou-se num círculo vicioso de dependência e aproveitamento. E não vai mudar tão cedo se eu ou você não dermos alguns passos à frente.
Há um árduo caminho que irremediavelmente temos que trilhar para continuar o nosso avanço como civilização; e isso é da nossa índole, acredite! Emprestar todo o acúmulo de credibilidade, confiança e fama para reafirmar algo que, no mínimo, deixa desconfortável quem tem a ética como referencial de vida, talvez não atrase esse processo, que naturalmente é lento, mas não ajuda em nada a fazer deste mundo um lugar melhor. Como humanos, detentores de diferenciais suficientes para apropriar-se daqueles que subjugamos, seja pela inteligência, poder ou alma, no fundo sabemos muito bem que estamos fazendo algo de errado, de injusto, de ruim. Se ainda acredita que a vida desses animais é tão maravilhosa como as embalagens de suas carnes, procure se informar (mesmo que seja no google), veja como a coisa é feita, coloque-se no lugar e depois reflita. Quando acreditamos que algo não combina com a nossa essência, mesmo que usufruímos ou dependemos dos benefícios dele, como em outrora foi com a escravidão, temos que deixar uma janela aberta para um dia tudo isso mudar.
O autor, Luís Victorelli, é jornalista e colaborador de Opinião