10 de julho de 2026
Geral

Por liberdade, alguns preferem o frio

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Nas madrugadas intensamente frias registradas esta semana, as cobertas não parecem ser suficientes para nos aquecer em casa. Agora imagine quem não tem um teto para se proteger das baixas temperaturas. O mais impressionante é que, por não aceitarem normas, algumas pessoas preferem continuar enfrentando o julho mais frio dos últimos 13 anos nas ruas de Bauru.

 

Renata Marconi

Enquanto os termômetros registravam 7 graus, havia oito pessoas dormindo em frente ao Centro Pop

Durante a madrugada de anteontem, quando os termômetros chegaram a registrar 7 graus, havia oito pessoas dormindo em frente ao Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop), localizado na quadra 13 da rua Joaquim da Silva Martha, na Vila Noemy.


Em contrapartida à tal realidade, o albergue Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac) registrou uma procura muito aquém da esperada. Na quarta-feira, mesmo com os 4 graus da madrugada mais fria do ano, somente metade das camas da instituição estavam ocupadas (leia mais abaixo).


“Temos um sistema continuado de abordagem social noturna e encaminhamos os moradores de rua ao albergue e a casas de passagem. O que acontece é que, por não aceitarem regras de convívio, alguns preferem ficar nas ruas”, afirma a titular da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo.


Entre o grupo que estava na madrugada em frente ao Centro Pop, veio a confirmação. Um homem, de 26 anos, contou que mora na rua há oito anos após os pais morrerem e sua irmã não aceitar o seu vício nas drogas.


Ele, que trabalha como guardador de carros, não volta mais ao albergue após ter entrado com bebida no local.


O mesmo aconteceu com outro homem, de 44 anos, que vive há três anos nas ruas. Ele, que passou a perambular pela cidade após ter saído do sistema prisional, conta que arrumou uma confusão no albergue, agrediu um funcionário e não pode mais voltar ao local.


Além de proibir bebidas e drogas, o albergue segue algumas regras, como banho obrigatório e horários específicos para dormir, acordar e se alimentar. Para a Sebes, são exatamente essas normas que criam a situação surreal de pessoas que acabam preferindo o frio.


“É uma população muito complexa. Muitos não querem ir mesmo. O que fazemos é tentar criar um vínculo com eles, levando cobertas, comida e café”, conta a secretária Darlene Tendolo.



Hotel e casa


Além desse serviço no local, a titular da pasta explica que o município ainda tenta outras estratégias para atender esses moradores que se recusam a ir para o albergue. “Nós temos convênios com alguns hotéis. Porém, lá também há regras. Alguns já tiveram problemas nesses locais”.


Está sendo estudada até a locação de um imóvel para abrigá-los. “É algo que pode ocorrer em breve. Estamos vendo esta possibilidade. Pode não ter as mesmas regras do albergue, mas haverá uma série normas também. É um trabalho difícil de conquistá-los e convencê-los”, finaliza Tendolo.


As noites frias realmente preocupam. Na manhã de ontem, um morador de rua foi encontrado morto na Capital. Como o corpo, que estava na Liberdade, não tinha sinais de violência, a causa da morte deve ter sido o frio.



Serviço


Quem se deparar com alguém dormindo na rua pode solicitar a busca ativa da Sebes pelo telefone (14) 3222-6308. O plantão funciona 24 horas e uma equipe vai até o local indicado para fazer a abordagem social e o acolhimento.


Já o albergue Ceac fica na rua 7 de Setembro, 8-30, no Centro. A partir das 19h30, o local oferece banho, troca de roupa, alimentação, pernoite, café da manhã e uma triagem com atendimento social. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (14) 3366-3232.



Somente 35 pessoas dormiram no albergue

 

Com o frio intenso registrado na quarta-feira, o albergue noturno Ceac esperava receber um número maior de moradores de rua, no entanto, somente 35 pessoas pernoitaram no local.


Previamente abastecido com mais roupas de frio e cobertores, o albergue, que tem capacidade para 70 leitos, ficou com metade de suas camas disponíveis, mesmo com o termômetro marcando 4 graus, o que gerou um estranhamento por parte dos responsáveis pelo abrigo.


“Esperávamos um número bem maior de pessoas. Acredito que elas estão abrigadas em grupos e em algum lugar específico, na própria rua mesmo. Estamos averiguando onde é este esconderijo”, explica a coordenadora do albergue, Francine Tamos.


No inverno do ano passado, o local atendeu mais de 70 pessoas no mesmo dia, uma diferença exorbitante em relação a 2013.  


A coordenadora confirma o que a Sebes diz. Segundo ela, as pessoas em situação de rua têm consciência da existência do albergue, porém, não aceitam as regras do local.


Em média, o albergue atende em dias normais cerca de 20 pessoas, sendo a maioria homens em situação de rua e usuários de drogas, com idade entre 18 e 65 anos.

Fim de semana de sol

Boa notícia para quem quer aproveitar o fim de semana sem sofrer com as baixas temperaturas. O frio intenso já começou a ir embora. “Até domingo, você já vai estar ligando o ar condicionado do seu carro”, brinca o meteorologista José Carlos Figueiredo, do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp).


De acordo com ele, as temperaturas hoje ficarão entre 10 e 21 graus. “A massa de ar frio está se aproximando do oceano e a temperatura está aumentando. Já teremos um dia com mais sol”, complementa.


A previsão para amanhã é de um domingo também ensolarado com os termômetros registrando mínima de 15 graus e máxima de 25. O IPMet aponta ainda que, durante o final de semana, não deve chover.