Um problema crônico da saúde pública de Bauru, mais uma vez, deixou suas vítimas. Três pessoas morreram no Pronto-Socorro Central (PSC), nesta sexta-feira (26), à espera de vagas para internação hospitalar. Conforme o JC apurou, duas delas – um homem de 44 anos e uma mulher de 71 anos – estavam na fila desde segunda-feira.
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Malavolta Jr. |
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Pacientes aguardam por vaga de internação nos corredores do Pronto-Socorro Central |
A terceira vítima foi uma idosa de 91 anos, que havia dado entrada no PSC anteontem. O município confirmou as mortes, mas preferiu não informar os nomes dos pacientes e nem as doenças que os acometiam.
Devido ao adiantado da hora, não foi possível contatar a Secretaria de Estado da Saúde para questionar o motivo da demora para a oferta das vagas. Numa infeliz coincidência, a morte das três vítimas ocorreu exatamente um ano depois de a estudante universitária Drielly Carla Alves de Brito, 22 anos, falecer nas mesmas circunstâncias. Para relembrar a data, familiares da jovem realizarão passeata hoje (leia mais abaixo).
Embora as mortes de pacientes na fila de espera por vagas de internação tenham se tornado uma triste constante, o número de três óbitos no mesmo dia é considerado elevado. No mês passado, por exemplo, 22 pessoas que aguardavam transferência para hospitais públicos morreram no Pronto-Socorro, uma média inferior a um óbito por dia.
Para se ter uma ideia, até o final da tarde de ontem, 30 pessoas deitadas em macas espalhadas pelos corredores e alas do PSC ainda esperavam encaminhamento para leitos hospitalares. Outras cinco, apenas, haviam conseguido a internação no Hospital de Base e no Hospital Estadual.
Inquérito e lei
No final da tarde de ontem, Ivone Vicente Pompiano, 72 anos, ainda esperava uma vaga, após procurar o PSC, na noite do dia anterior. Reclamando de dores no peito e de falta de ar, ela foi diagnosticada com pneumonia, quadro que pode ser ainda mais delicado para pacientes que, como ela, sofrem de diabetes e hipertensão.
“Estou me sentindo mal há quatro dias e só venho piorando. Quando vi que não tinha mais jeito, vim para o pronto-socorro. O atendimento aqui sempre foi bom, mas espero conseguir a internação logo”, pondera.
Já Gercídio Cândido Barbosa aparentava desespero diante do sogro do filho, de 67 anos, que apresentava sintomas de hemorragia. O homem começou a sentir-se mal na madrugada de ontem e, até o final da tarde, ainda não havia conseguido vaga hospitalar. “Ele fez exames, mas ninguém conseguiu descobrir o que ele tem. Ele está usando fraldão para conter a hemorragia, mas está muito mal”, comenta o parente.
O número reduzido de leitos hospitalares em Bauru gerou instauração de inquérito civil por parte do Ministério Público Federal (MPF), além de ter culminado em mortes, como a da jovem Drielly, em julho do ano passado. Outros óbitos de pacientes à espera de leitos, principalmente de UTI, foram divulgados pelo Jornal da Cidade ao longo de 2013.
No mês passado, a Câmara Municipal aprovou lei que obriga a publicação no Diário Oficial de Bauru dos pacientes que aguardam vagas em hospitais por mais de 48 horas nas unidades de saúde do município. O texto foi sancionado pelo prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) e entrará em vigor a partir de 6 de agosto.
Passeata
Os familiares e amigos de Drielly Carla Alves de Brito realizarão, hoje, uma manifestação em Bauru. A passeata está marcada para sair por volta das 16h do Parque Vitória Régia. O protesto deve seguir em direção às avenidas Nações Unidas e Duque de Caxias, com término em frente à sede da prefeitura.
A morte de Drielly completou, ontem, exatamente um ano. Diagnosticada com colecistite aguda calculosa (inflamação e cálculos na vesícula), ela precisava ser submetida a uma cirurgia, mas permaneceu à espera de vaga de internação por três dias em uma maca instalada improvisadamente no corredor no Pronto-Socorro Central (PSC). A universitária morreu na manhã do dia 26 de julho de 2012, acometida de uma pancreatite necro-hemorrágica com embolia pulmonar.