08 de julho de 2026
Geral

Religião e ciência ?comungam? a fé

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 7 min

Para que um conhecimento seja considerado verdade pela ciência é preciso partir de duas premissas. A primeira é ter sido testado e experimentado, sendo esse teste detalhado de tal forma que qualquer pesquisador possa, em qualquer parte do mundo, sob as mesmas condições, chegar ao mesmo resultado. Ponto. A segunda premissa é a de que esse conhecimento precisa ser publicado em meio especializado. Ponto de novo. E não há ponto final aqui. Porque um conhecimento científico aceito como verdade hoje pode ser inverídico amanhã.


De outro lado, para que um conhecimento seja considerado verdade por uma religião é preciso crer. Ponto final. A religião faz da fé o seu ponto de apoio. “Para o que crê nenhuma prova é necessária, para o que não crê, todas as provas do mundo, são inúteis” é a premissa. Daí é fácil afirmar que ciência e religião estão distantes, são opostos, não dão liga, são como óleo e água, como luz e escuridão, certo? Não!


Pelo menos é a conclusão a que o público chegou, na última terça-feira,  após assistir encontro entre um cientista, um pastor, um espírita e um padre. Todos concordando que ciência e religião estão ligadas em busca da verdade e comungam da mesma fé na evolução da espécie humana. Houve um consenso: em tempos modernos o contraponto que no passado já levou até cientistas e pesquisadores para a fogueira, tidos como hereges, não existe mais. O confronto foi substituído por: pesquisa com ética.



Mote do encontro


O evento foi realizado para o lançamento do livro “Queremos Saber!”, do professor-doutor Alberto Consolaro. O tema do encontro “Ciência e Religião: Fé ou Ousadia?” transformou-se em uma discussão sobre se é possível à luz da ciência, buscar a verdade, e, ao mesmo tempo, acreditar  em dogmas religiosos tendo apenas como palpável a fé, a vontade de crer naquilo que lhe é apresentado.


No debate, no Teatro de Bauru, estiveram presentes além do autor da obra, o padre Luiz Antonio Lopes Ricci, doutor em Ética Moral; o pastor Gilson Souto Maior Junior, da Igreja Batista do Estoril, bacharel e professor de Teologia, e o escritor Richard Simonetti, autor de 54 obras e defensor da doutrina espírita.


Aqui um resumo do pensamento dos debatedores. Vale a pena degustar cada uma das opiniões, suscitar (em casa mesmo!) uma discussão e até se aprofundar no assunto. Até porque como lembrou o padre Ricci “Santo Agostinho já disse” creio para compreender e compreendo para crer`. Acrescento que a ciência e igreja podem juntas buscar soluções para as questões complexas que atingem as pessoas e a sociedade”.

 

Fotos: Renan Casal

Professor Alberto Consolaro: os cientistas que se dizem ateus acreditam em uma energia maior

Alberto Consolaro

Religião também muda


“Como aconteceu com Galileu que provou o contrário do que acreditava a religião: a terra não era o centro do universo e girava em torno do sol! Quase morreu por isto, pois se retratou a contragosto. Mas a religião (no caso Igreja Católica) viu posteriormente e reconheceu que ele estava certo. Ela mudou, doeu, mas não acabou!”


“Acreditávamos e aprendemos que temos um universo infinito, hoje o conceito mudou. Hoje temos o multiverso, milhares de galáxias e milhões de planetas. As mudanças geram sintomas e sinais, mas o resultado final é o crescimento! Em outras palavras, o fato de a Igreja Católica mudar em função das descobertas científicas não é demérito, mas um sinal de vitalidade e reconhecimento de que o mundo criado ou estabelecido é dinâmico como a própria vida humana o é social e individualmente. Mas dói!”


Cientistas ateus


‘Muitos cientistas, especialmente alguns físicos não acreditam em Deus, mas ressaltam o valor de uma energia universal, energia química, inteligência ou força maior que levaram os átomos e íons se colidirem e construírem moléculas, células e tecidos. Estas forças e energias podem ser o que se chama de Deus no mundo religioso, seria apenas uma questão de nomes. Praticamente todos reconhecem que houve uma energia maior, como o próprio “big bang”.

 

Padre Ricci

 Padre Ricci: jamais as pesquisas podem partir de um mal mesmo que o objetivo seja bom

Parceria sem antagonismo


“Não há antagonismo entre fé e ciência, podemos sim usar a fé para mover a ciência, as experiência para  evoluirmos .  A Igreja vê a ciência como parceira, ela só tem sentido como parceira de Deus, tudo vem Dele e é assim que se deve atuar, não se deve pensar e pesquisar como se nós seres humanos não fôssemos criaturas Dele. A Igreja não demoniza a ciência, antes a considera como uma aliada na busca da verdade e da melhoria da qualidade de vida para todos.  A Igreja não substitui a ciência e nem quer ocupar o seu lugar. Apenas que ser uma voz, que a partir da Fé em Cristo, oferece sua contribuição numa atitude dialogal em vista do bem comum e da defesa da vida. Ciência e Igreja podem juntas buscar soluções para as questões complexas que atingem as pessoas e a sociedade.


Ética é essencial


“O que ainda falta é conjugar ciência e ética. Não é possível fazer ciência sem critérios éticos, que são como que balizas para tutelar a dignidade da vida em todas as fases de sua existência.  A bioética tem por objetivo construir ponte entre ciência e ética, de tal modo que tudo aquilo que seja tecnicamente possível seja também eticamente admissível. Vejo que a ciência está mais permeável à ética e às implicações relacionadas à vida humana e não humana”.

 

 Pastor Gilson: para o teólogo o conhecimento é válido se for para a glória de Deus

Pastor Gilson

Conhecimento x sabedoria


“Há os que conhecem muito e não são sábios. A sabedoria começa quando o homem teme a Deus (Provérbios 9:10), quando nos lembramos que somos pó, e que somos totalmente dependentes Dele. A verdadeira sabedoria nasce de um relacionamento com Deus, de tal modo que o conhecimento só é válido se for para a glória de Deus (que implicaria em amar a Deus sobre todas as coisas, o maior mandamento) e para abençoar o ser humano (amar o próximo como a nós mesmos).


Ciência não é inimiga


“Não vemos a ciência como inimiga, mas sim como um meio para ajudar a sociedade a se tornar melhor. A ciência sem ética torna-se uma ilusão para o ser humano porque a pessoa passa a pensar que é dona absoluta da verdade, quando a verdade absoluta está em Deus. Através da ciência Deus capacita o homem a fazer o melhor para o próximo e trazer a glória de Deus. Por isso Deus nos capacitou para pensar, refletir. Se bem usada, a ciência trará como Ele quer, o bem no final”.

 

Richard Simonetti:

Richard Simonetti: o espiritismo não passa pelos métodos científicos, mas  pode ser comprovado

Ciência  x Espiritismo


“O Espiritismo, como religião deve estar estribado na ciência. Por exemplo: a doutrina ensina que o espírito é imortal e que há possibilidade de intercâmbio com os mortos. Temos aqui a ideia religiosa. A ciência deve contribuir para comprovar essa tese. Não podemos levar o Espírito ao laboratório e efetuar experiência como se faz com uma tese de química, mas podemos estudar fatos que evidenciam essa realidade”.


“O Espiritismo defende a harmonização da ciência com a religião, pois a ciência sem a religião cai no materialismo. A religião sem a ciência cai no fanatismo. Por isso, ao codificar a Doutrina Espírita, com a publicação de O Livro dos Espíritos, em  1857, Kardec proclamou que `é verdadeira é aquela que pode encarar a razão face a face”.  


Estudos provam a imortalidade


“Chico Xavier é um exemplo típico, digno de estudos e evidência do espiritismo. Recebeu poesias de perto de 300 poetas desencarnados, do Brasil e de Portugal, cada qual se apresentando com seu estilo próprio, identificador. Considerando que “o estilo é o homem”, e que é muito difícil imitar até mesmo um único estilo literário, é inconcebível que um mineiro humilde, que mal fez o grupo escolar, pudesse imitar o estilo de tanta gente, tantos espíritos que se identificam não apenas enunciando seu nome, mas fazendo-se reconhecer pelo seu estilo, pela sua maneira de compor poesias. Fora do círculo religioso temos incontáveis fenômenos que evidenciam a imortalidade da alma”.


“Nenhuma ciência ou religião conseguirá resolver os graves problemas  humanidade, enquanto os homens não estiverem dispostos a vivenciar a orientação de Jesus, apresentado pela doutrina Espírita como a maior figura da humanidade, a enfatizar que devemos fazer ao próximo todo o bem que gostaríamos que nos fosse feito”.