08 de julho de 2026
Internacional

Trens voltam a circular na Espanha


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Menos de 72 horas após o descarrilamento de um trem que deixou 78 mortos em Santiago de Compostela, no norte da Espanha, a linha onde ocorreu o acidente foi restabelecida.


A Folha de S.Paulo acompanhou, na manhã de ontem, a primeira viagem do trem passando sobre os trilhos onde, na quarta-feira, houve o descarrilamento, na entrada de Santiago. A reportagem embarcou em Madri com cerca de 200 passageiros que, com apreensão, inauguravam o trajeto depois do acidente.


No exato trecho do descarrilamento, o trem freou totalmente para mostrar que não há problemas com o sistema dos trilhos.


A viagem, marcada para sair às 8h45 da estação de Chamartín, em Madri, deixou a capital madrilenha com sete minutos de atraso, incomum na malha férrea espanhola, que segundo sua administradora é uma das mais pontuais do mundo. “Vamos chegar um pouquinho mais tarde”, avisava um dos tripulantes aos passageiros.


“Estamos nervosos, mas já tinhamos comprado e decidimos arriscar”, disse o mexicano Eduardo Ramires, 48, que viajava de turismo com a mulher e os dois filhos. Idosos, muitas crianças e duas equipes de televisão também estavam entre os passageiros do trem.


No vagão da cafeteria, um dos mais afetados pelo impacto do descarrilamento - ele chegou a subir sobre outro vagão -, os passageiros comentavam o acidente com os funcionários, cujos colegas morreram no acidente.


“Já fiz esse trajeto muitas vezes, nunca houve nada. É o tipo de coisa que não dá para prever”, disse à reportagem o garçom da cafeteria Raul Mauman.


Quando, após 5h40 de viagem, o trem se aproximou do trecho do descarrilamento, os passageiros foram à janela com celulares para fotografar, demonstrando certa apreensão. Era a primeira vez que um trem de alta velocidade passaria pelos mesmos trilhos.


A três quilômetros do ponto, o trem fez uma brusca redução velocidade e passou pelo trecho a 30 km por hora. No mesmo local, o trem descarrilado registrava 190 km por hora, segundo as investigações sobre o acidente. Após frear por completo, o trem chegou à estação de Santiago de Compostela com 20 minutos de atraso.

 

Descarrilamento não inviabiliza trem-bala

O presidente da empresa espanhola Renfe, operadora estatal dos trens em seu país, afirmou que o descarrilamento não deve afetar a qualificação da empresa para disputar a licitação do trem-bala brasileiro. A empresa é uma das principais interessadas em construir o trem-bala entre Rio e Campinas, e o leilão ocorre em 13 de agosto.


“Não aconteceu numa via de alta velocidade, nem num trem de alta velocidade, e por isso não é um acidente da alta velocidade espanhola”, afirmou o presidente da Renfe, Júlio Gómez Pomar, à agência Efe.


Segundo ele, a linha onde ocorreu o acidente “é mista, de transição para a alta velocidade”, mas o trecho onde ocorreu o acidente não é de alta velocidade e por isso não teria os sistemas de segurança adequados.


Classificado como “Alvia”, o modelo que se acidentou permite usar tanto trilhos de alta velocidade, mais modernos, quanto trilhos tradicionais ibéricos, que exigem velocidades mais baixas. Na hora do acidente, o trem corria a 190 km/h numa curva que permitia no máximo 80 km/h.


Edital


Um item do edital do trem-bala no Brasil diz que a operadora interessada precisa declarar que “não participou da operação de qualquer sistema de TAV [Trem de Alta Velocidade] onde tenha ocorrido acidente fatal, no período de comprovação indicado [5 anos], por causas imputáveis à operação do sistema”.


A regra de cinco anos sem registro de vítimas foi criada principalmente para afastar operadores chineses, considerados inexperientes - em 2011 houve um acidente naquele país com 33 mortos.

 

Maquinista é preso

Foi preso anteontem, em Santiago de Compostela, o maquinista do trem. A prisão de José Francisco Garzón Amo, 52, foi anunciada à imprensa pelo ministro do Interior espanhol, Jorge Fernández Díaz. Um dos 78 mortos no acidente foi o brasileiro Fabio Cundines Antelo, 25, conforme o JC mostrou ontem.


“Desde as 19h40 (14h40 no Brasil) de sexta, ele se encontra na condição jurídica de detido por supostos delitos de homicídio por imprudência”, disse Fernández Díaz. O maquinista teria se negado a falar à polícia. Após o final do prazo de 72 horas da prisão temporária, Garzón Amo será posto à disposição da Justiça, segundo o ministro.


Ao visitar o local do acidente, próximo à entrada da cidade, Días disse haver “indícios razoáveis para considerar que [o maquinista] possa ter uma eventual responsabilidade no que ocorreu”.


Embora o ministro não tenha detalhado quais são esses indícios, as primeiras hipóteses tornadas públicas sobre as causas do acidente apontam para o excesso de velocidade do trem ao fazer a curva.