10 de julho de 2026
Bairros

Entidades assistenciais são ?tesouros? dos bairros

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Estender as mãos a quem precisa. Para muitos, essa é a força que motiva a vida. E em Bauru não é difícil encontrar histórias de pessoas que se uniram e transformaram a realidade dos bairros onde vivem com a criação de entidades assistenciais.

 

Malavolta Jr.

Alunos e profissionais da Associação de Pais para a Integração Escolar da Criança Especial (Apiece)

Algumas são consideradas ‘patrimônio’ pelos moradores. Outras, tímidas no início, ganharam braços ao longo dos anos e levam seus serviços prestados também para outras regiões.  


Segundo a titular da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, 36 entidades são legalmente constituídas e têm inscrição no Conselho Municipal de Assistência Social do município. Elas prestam mais de 140 serviços em toda a cidade (confira a localização dessas associações no quadro da próxima página).


E de acordo com um levantamento realizado pela equipe da Sebes, crianças e adolescentes são o maior alvo do atendimento dessas instituições. “Em 2013 o atendimento se estenderá a 3.281 crianças e adolescentes”, acrescenta Darlene.


Ainda segundo este levantamento, a maior concentração de vagas está na região do CRAS IX de Julho: 766 crianças e adolescentes são atendidas em cinco entidades. O território do CRAS IX de Julho abrange cerca de 40 bairros.



“A vizinhança está com a gente”


Muito pobre, itinerante e com uma vontade imensa de crescer. Assim nasceu a Associação de Pais para a Integração Escolar da Criança Especial (Apiece), em 1988. Antes de ter sua sede própria, no Jardim Petrópolis, as crianças da associação ficavam na casa das mães voluntárias e eram cuidadas pelos próprios pais, que se revezavam.


“Depois que a minha filha nasceu, andando pelo Brasil eu percebi que as crianças com deficiências precisam ser olhadas. Muitas não eram vistas e estavam abandonadas em casa. Eu cheguei a tirar deficientes mentais da rua, comendo restos do lixo”, recorda Catarina Carvalho, sócia-fundadora da Apiece.


O trabalho da Apiece começou com 18 alunos e, hoje, conta com 115. E a tendência é aumentar porque as próprias famílias estão perdendo o preconceito e levando os filhos à escola, garante Catarina. “Eles são incríveis. Dançam, fazem apresentações...”.


A associação hoje é um marco bauruense na defesa dos deficientes mentais, e atende alunos de todas as idades. No bairro onde sempre esteve inserida, é mais do que isso: “Entre as melhorias que trouxemos para o bairro, até o asfalto se destaca”, salienta Catarina.


E como toda boa vizinhança, Catarina destaca que a Apiece não está sozinha no Jardim Petrópolis e que tem uma relação de irmandade com os vizinhos. “Eles nos visitam, perguntam sobre as crianças, trazem as coisas para elas... Nós também fazemos doces e compartilhamos. É uma delícia”.



Serviço


A Apiece fica na rua Zéphilo Grizoni, 7-87, Jardim Petrópolis. Os telefones de contato são (14) 3222-0368 e  3212-4662.

‘Braços que alcançam onde o governo não chega’

 

Eugênia Maria Sellmann Chaves, assistente social do Esquadrão da Vida (uma das instituições que internam e reabilitam dependentes químicos em Bauru), analisa que as entidades assistenciais são braços que fazem o que o governo, de maneira geral, não consegue fazer.


Ela acredita que, embora a demanda seja sempre maior, as entidades de Bauru têm dado conta das necessidades da cidade. “Este é um tempo de mudanças. Entre elas, as associações estão sendo chamadas para uma rede de parcerias”.


De acordo com a assistente social, grupos assistenciais começaram a se organizar em Bauru na década de 1950, com entidades como o Paiva, por exemplo. E, de lá para cá, elas precisaram se adaptar às mudanças da sociedade, ou melhor, estão em constante mudança e o foco é a qualidade do serviço prestado.


“Nós do Esquadrão, por exemplo, começamos o atendimento com um usuário de maconha, que se libertou e trouxe oito amigos para o tratamento. Hoje atendemos mais de 60 pessoas e o vício também mudou. Temos o usuário de crack, com outras características e necessidades”, aponta.

 

A ajuda que alimenta e aquece

As mãos da Casa da Sopa são algumas das mais conhecidas de Bauru por alimentar diariamente dezenas de famílias da Vila Dutra. Com o amor e o trabalho dos voluntários, quilos e mais quilos de macarrão, carne e diversos legumes se transformam na sopa que é distribuída no bairro desde 1998.


Tudo começou, segundo a voluntária coordenadora da ação Rose Lopes, no final de novembro de 1998, quando um pequeno grupo de amigos teve a ideia de fazer um almoço de Natal para famílias carentes. Assim, 35 kits foram montados e distribuídos com comida e brinquedos.


A iniciativa cresceu. No ano 2000, 25 voluntários ajudaram na confecção de 128 kits, além de saquinhos de doces e brinquedos. “Começamos a ganhar fortes aliados, como empresas, clubes e lojas da cidade”, acrescenta Rose.


Sopa


De acordo com Rose, a ideia da sopa partiu de um ferroviário aposentado (já falecido) que comentou se sentir triste por não poder ajudar as famílias em dificuldade de seus antigos colegas de trabalho.


“Voltei para casa pensando sobre o assunto”. Liguei para algumas amigas e, no dia 7 de janeiro de 2003, fizemos os primeiros 70 litros de sopa para 12 famílias. No dia seguinte já eram 35 e, hoje, chegam a 300 pessoas”, enumera.  



Ramificação


A notícia se espalhou e logo famílias de outros bairros começaram a procurar a Casa da Sopa da Vila Dutra. “Então montamos uma cozinha no Jardim Ouro Verde. Fizemos o mesmo na Vila Santista, em 2005, e na Vila Ipiranga, no início do ano”, conta Rose.


Além de sopa e pães, roupas, sapatos, ração para cães e gatos, remédios, faldas geriátricas, cestas básicas, leites especiais, campanhas de Natal, do agasalho e até uma escolinha de futebol fazem parte das ações do grupo.


“Começamos com poucos voluntários e agora somos dezenas. Contamos com a parceria do governo municipal, de empresários da cidade e de muitos voluntários queridos. Ganhei muitos amigos com esse projeto. Somos um grupo onde todos têm o mesmo valor”.


 

Serviço


A Casa da Sopa fica na Alameda Ponta Porã, 2-31, Vila Dutra. Um dos telefones de contato é o (14) 3238-7702


Por novas vidas

Preparar mulheres para o parto e para os cuidados com o recém-nascido, além de tirar as dúvidas e orientar as mães de primeira ou de muitas viagens. É com carinho e tais objetivos que um grupo de amigas se reúne semanalmente, há 25 anos, nos fundos da sede do Centro Espírita Irmã Catarina, na Vila Cardia, para as aulas do Curso de Orientação e Assistência à Mulher Gestante. O programa atende, em média, 20 gestantes por sábado.


A coordenadora do projeto, Sueli Carvalho Goulart, recorda que as gestantes sempre procuraram o centro espírita em busca de enxoval. “Eu comecei a fazer um por semana. Na época, eu morava na Vila Cardia e consegui a ajuda de amigas. Descobri que havia um curso específico para gestantes. Fiz a minha inscrição, recebi o material e, em 1988, começamos o curso com três grávidas”.


Dez aulas de orientação e assistência compõem o curso. Ao final, as futuras mamães recebem um enxoval completo para o bebê. A confraternização entre elas é outro ponto positivo destacado pela coordenadora.


“Elas trocam experiências e fazem amizade. Algumas até voltam ao grupo para apresentar o filho. Também trabalhamos a autoestima das mães”. O grupo de gestantes recebe mulheres de vários bairros.


Voluntários multiprofissionais


As duas décadas e meia de existência trouxeram uma relação íntima entre o curso e algumas senhoras da Vila Cardia, que dedicam parte de seus dias no preparo dos enxovais. “Elas se reúnem para esse trabalho. É uma ação que não visa a religião, apenas a ajuda humanitária. E estendemos essa obra também para o Bela Vista”, aponta Sueli.


Além das senhoras e das doações recebidas, as aulas contam com a participação de profissionais voluntários de várias áreas. “Nutricionistas, assistentes sociais e médicos fazem questão de ajudar. Sem o voluntariado, o trabalho não seria tão bem feito como é”, frisa Sueli.



Serviço


O Curso de Orientação e Assistência à Mulher Gestante é realizado nas manhãs de sábado na rua Rio Grande do Norte, 1-45 (fundos), Vila Cardia. Mais informações pelos telefones (14) 3281-7668 e 3234-4594.

 

Duas décadas contra todos os preconceitos

Apesar de estar no Parque Jaraguá desde a sua fundação, em 1992, a Associação de Apoio à Pessoa com Aids de Bauru (Sapab) atende a população da cidade toda. Neste bairro, o acolhimento e o atendimento é feito com os adultos. Ainda há a sede administrativa na rua Bernardino de Campos e o serviço de acolhimento institucional e abrigo para crianças e adolescentes, na Vila Lemos.


A entidade nasceu, segundo a sua coordenadora Márcia Pereira da Silva, quando a epidemia estava no auge. “A doença já estava mais controlada, mas as pessoas não tinham para onde ir. Por isso muitos pacientes ficavam internados mesmo recebendo alta hospitalar. Isso acontecia porque muitos viviam sozinhos, estavam com os vínculos familiares rompidos...”


Foi quando um infectologista e uma assistente social vivenciaram de perto essa realidade e se juntaram a outras pessoas para criar uma casa de apoio, como já havia em outras cidades. A ajuda veio de muitos lados, mas o preconceito também.


“A primeira casa escolhida foi em um determinado bairro da cidade. Mas quando o dono do imóvel soube do que se tratava, ele se recusou a alugar a casa”.


Foi então que “seo” Paiva entrou na história e ofereceu um imóvel no Parque Jaraguá. “No início acolhíamos apenas homens. Até que apareceu a primeira mulher e, em seguida, a primeira criança com HIV. Esta última não resistiu e uma de nossas unidades tem o nome dela”, revela Márcia.


A Sapab foi a primeira entidade a acolher grupos de irmãos em Bauru, segundo a coordenadora. Atualmente, ela abriga 12 adultos e 19 crianças portadoras ou não do vírus HIV.


Além de abrigo e medicamentos, os adultos recebem orientações para a vida. “A gente os ajuda a definir um projeto de vida, a realizar os seus sonhos e a se restabelecer na sociedade. Um deles, por exemplo, faz faculdade de direito”.



Serviço


A sede administrativa da Sapab fica na rua Bernardino de Campos, 2-45, Vila Falcão. O telefone de contato é o (14) 3226-2002.

Douglas Reis

Equipe da Casa da Sopa da Vila Dutra em ação; entidade chega a alimentar mais de 300 pessoas por dia 

Via de acesso ao mercado de trabalho

Fundada em 1972, a Legião Feminina de Bauru prepara adolescentes de 15 a 18 anos para o primeiro emprego em parceria com a Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes) e o Serviço de Inclusão Produtiva. Secretariado, desenvolvimento pessoal e informática são os cursos oferecidos às meninas.


Paula Ramiro Nocerino é assistente social e coordenadora da instituição. Ela lembra que a Legião Feminina está no mesmo endereço desde a sua fundação e, embora não tenha criado vínculos com a vizinhança, por estar na região central da cidade está em um lugar de fácil acesso para as alunas, que vêm de diversas regiões da cidade.


“A entidade foi criada pelo Lions Clube Bauru Norte e Sul. Antes, o curso era voltado para atividades artesanais, como bordado e corte e costura, por exemplo. Mas evoluímos com as necessidades do mercado de trabalho”, analisa.


Atualmente, a ação tem 200 meninas em treinamento e 210 no mercado de trabalho. De acordo com a coordenadora, cerca de 90% das alunas conseguem emprego depois ou mesmo durante o curso. A entidade oferece 200 vagas semestrais. Além das aulas, as adolescentes recebem refeições gratuitas, lanche e ajuda de custo com o vale transporte. Para se inscreverem, elas devem estar matriculadas na rede regular de ensino.



Serviço


A Legião Feminina de Bauru atende na Praça Rodrigues de Abreu, 1-37, Centro. O telefone é (14)3223-0760.