09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Coisas que eu poderia ter feito e não fiz


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Como martelada na cabeça! Acordei de um sono octogenário! Tenho vivido a fantasia dos inúteis. Existência a gemer e a chorar. Não fiz tudo que poderia ter feito! Ah... Se pudesse inventar um engenho criando novas chances pra eu voltar e realizar o que deixei de fazer... Eu riria mais para vida e dos seus bufões nesta grande arena que é a Terra.

Minhas mãos mais fortes com apertos das mãos dos amigos sinceros e leais. Plantaria mais flores. Rosas vermelhas e brancas. Falando do amor e da paz. Desejaria sempre bom dia ao meu vizinho. Não apenas quando acordasse bem-humorado.

Brincaria de roda com as crianças na calçada que impedem a minha passagem. Faria da vida uma eterna canção de amor a abraçar os desfavorecidos que não sabem cantar e se fazer amados. Perdoaria a tudo e a todos que me machucaram física ou espiritualmente. Não me perdoaria se não os perdoasse. Rezaria mais. Desculpar-me-ia com Deus pelos desmandos dos homens ao ferir os homens e ao destruir a morada e destruir-se. Por apagar o sol e causar trevas na consciência.

O egoísmo provoca a estupidez nas escolhas. No uso irrefletido do livre arbítrio. As sombras os tornam frios e indiferentes ao próximo. Acumular bens é o que lhes importa como se eternos na Terra fossem.

Se pudesse fazer o que não fiz e poderia ter feito me dói no espírito e na carne. Escreveria na eternidade das pedras a ressurreição do amor e da boa vontade esquecida entre os homens.

Hoje, nesta Terra em que a inteligência do homem cresce a cada dia na sua criatividade a ultrapassar limites inimagináveis, paradoxalmente se apaga no crescimento da sua espiritualidade afastando-o de si mesmo e dos seus semelhantes.

Se o engenho me levasse ao passado para corrigir erros, deixaria minhas digitais no copo com água me oferecido e nas costas de quem me estendeu a mão com a taça. Apagaria a inveja do passado, o ciúme da insegurança, o caráter oculto sob a máscara do embuste, o orgulho e a vaidade de mostrar-me fisicamente ocultando a invisibilidade da hipocrisia e dos interesses pessoais.

Despertaria todas as manhãs rendendo graças ao Pai por ter acordado com o sol a me aquecer. Dormiria todas as noites conversando com Ele pelos caminhos das estrelas. Com a martelada na cabeça entendi que a vida é feita com o amor e as orações tão ausentes na sensibilidade humana. Levo na alma as pedras em que escrevi a ressurreição. Não me pesam. Leves como as bênçãos de Deus.

Munir Zalaf, escritor, palestrante e integrante da ABLetras