O legado que a Copa do Mundo de 2014 deixará para o Brasil é questionável. Exemplos não faltam de obras faraônicas que se tornarão verdadeiros elefantes brancos após a realização do evento, algumas delas erguidas mais para satisfazer o ego dos políticos locais e de parte da população que, ingenuamente, entrou nesse oba-oba exibicionista. O Estádio Nacional de Brasília (Mané Garrincha), a Arena Pantanal, a Arena Manaus e a Arena Castelão são os principais candidatos a terem um destino semelhante a alguns que foram construídos para a Copa da África do Sul e que hoje estão praticamente abandonados.
A distribuição dos jogos por 12 cidades-sede, 4 a mais do que normalmente ocorre nesses eventos, aliada às exigências do Padrão Fifa na construção ou adequação dessas arenas, e aos desvios de praxe, resultarão na Copa do Mundo mais cara da história. Um detalhe pouco percebido pelo torcedor comum, mas que já vem causando desconforto entre o comitê interno e a Fifa refere-se aos gramados, muito criticados na Copa das Confederações, o torneio teste para a Copa do Mundo.
A complexidade climática de um país continental como o Brasil tem dado muita dor de cabeça aos responsáveis pela implantação dos gramados padrão Fifa. É só imaginar as diferenças entre as condições de clima (chuvas, temperatura, luminosidade) de cidades como Manaus, Fortaleza e Porto Alegre para termos uma ideia das dificuldades a serem superadas.
A tendência recente de construção de arenas, em que o público fica muito próximo do gramado e as arquibancadas são mais inclinadas e cobertas, pode ser muito confortável para o público e favorável ao espetáculo, mas tem seu preço, e não é baixo. Na construção civil praticamente todos os fatores podem ser controlados e soluções são sempre encontradas para cada demanda, ao gosto do freguês.
Quando se lida com a natureza viva, no entanto, o buraco é mais embaixo. E a grama, com sua complexidade biológica, tem limitações de adaptação a ambientes estranhos às suas necessidades fisiológicas. É comum relegar-se a um plano secundário nos projetos arquitetônicos a presença de vegetação, seja decorativa ou funcional, construindo-se estruturas em que o seu desenvolvimento adequado torna-se praticamente impossível. No caso desses estádios de futebol, pelo menos enquanto as gramas artificiais não se tornarem uma opção viável, se é que um dia o serão, são necessários complexos e dispendiosos artifícios para se oferecer as condições minimamente favoráveis à implantação e manutenção dos gramados nos padrões exigidos.
Para os pequenos países europeus, com clima bem definido, organização impecável e futebol milionário, não é difícil manter gramados padrão Fifa nas espetaculares arenas tipo Camp Nou, do Barcelona. No Brasil, no entanto, soluções mirabolantes têm sido testadas nas mais diversas condições, como o sistema de resfriamento, inédito no mundo, para o gramado "europeu" adotado na Arena Itaquerão, em São Paulo.
A utilização de equipamentos importados para complementar a luminosidade exigida pelos gramados, com custo de energia elétrica próximo de 100 mil reais mensais, é um indicador importante a definir a sobrevivência dessas arenas após a Copa do Mundo de 2014. É a Fifa exigindo estádios de padrão europeu em um país latino-americano de dimensões continentais, para uma Copa do Mundo a ser realizada no inverno. É o pobre pagando mais caro que o rico pelo mesmo produto, sem a certeza de que terá condições de utilizá-lo depois que as visitas forem embora.
O autor, Luiz Alberto Coradi, é engenheiro agrônomo e vice-presidente da Assenag