09 de julho de 2026
Regional

Agricultura regional poderá ter mudanças

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 12 min

No último dia 28 foi comemorado o Dia do Agricultor. Na região, grande parte deles atua com hortifrútis, pecuária e frutas. Sem muito a comemorar, a maioria sofre para escoar suas produções, mas vive um momento especial que pode mudar a situação. Em Duartina está se instalando uma empresa processadora de citrus que, em tese, poderá dar um alento aos pequenos e médios produtores de frutas.


Na opinião do presidente do Sindicato Rural de Bauru, Maurício Lima Verde, a instalação de uma agroindústria na região vai beneficiar não só Duartina, como todas as cidades ao entorno.


“Seria ótimo se fosse na cidade de Bauru, pela logística que temos. Mas para a agricultura  não faz muita diferença, porque são só 30 ou 40 quilômetros de distância. Muda o perfil do agricultor, se ela funcionar dentro dos parâmetros normais da agricultura. Precisamos saber quantas caixas ela  vai moer para ter uma ideia de quantos pés serão necessários para essa demanda. Só assim o pessoal vai plantar, fazer contrato e vender para ela.”


Ele alerta para os cartéis que se formam em todas as atividades agrícolas. “Como produtor, tem o que comemorar se a empresa for independente. Se for anexa às grandes, fica tudo do mesmo jeito. Se a empresa formar pomares ao redor, será ótimo para a agricultura. Vai ser bom para Duartina, que vai recolher os impostos e gerar empregos. A região também vai se beneficiar, especialmente o pequeno e médio agricultor.”


A independência total da empresa é muito difícil, comenta Lima Verde. “As grandes indústrias não deixam as pequenas sobreviverem. Essa que vai se instalar eu não sei, mas provavelmente tenha algum elo com as três maiores, Dreyfus, Cutrale ou Leão Peres. Antigamente, nós é que fixávamos o preço da caixa de laranja no polo na Federação, eles cumpriam. Agora as empresas não têm muito interesse, elas estão formando seus próprios pomares, têm estoques e uma diminuição de consumo externo.”


O ideal, na avaliação dele, era que eles falassem quantas mil caixas/ano precisam. “Só assim teriam pomares suficientes. Tem que fechar contrato, do contrário, as gigantes chegam e oferecem um pouquinho a mais e levam a laranja. A Cutrale é a maior do mundo, a Dreyfus também é grande. A Cutrale tem até navio para exportação. Se a empresa for independente, vai incentivar o pessoal a plantar. A laranja é cara, demora a produzir. Foi uma atividade bem remunerada. No momento, atravessa uma crise. Está nas mãos desse cartel.”


Lima Verde acompanha a situação da laranja no Estado de São Paulo. “O Estado detém 70% da produção nacional de laranja e atravessa uma das piores crises motivada pela queda no consumo externo. O maior comprador, Estados Unidos, apresentou uma queda de 80% no consumo de laranja. No Brasil caiu 5%. As empresas têm seus próprios pomares.”


No ano passado os agricultores perderam 100 milhões de caixa, cerca de 35% da produção. “Teve uma reunião em São Paulo. A Cutrale dos Estados Unidos participou. Todo mundo queria que eles pagassem pelo menos R$ 11,00 a caixa para cobrir o custo. As empresas foram intransigentes porque tinham estoque para exportar.”

 

Fotos: Éder Azevedo

Instalação de processadora de citrus gera expectativas nos pequenos produtores

Duartina espera pela nova fábrica

Na avaliação do diretor de Meio Ambiente, instalação da processadora vai beneficiar agricultores de toda a região


 

A cidade de Duartina (38 quilômetros de Bauru) se prepara para dar um salto no setor agroindustrial. Ainda este ano, deverá começar a funcionar no município uma processadora de citrus. A previsão extraoficial é que durante a safra de laranja e limão, a fábrica processe até 40 caminhões/dia.


A empresa Gota Doce vai ocupar o prédio da antiga Bratac. A transação imobiliária é resultado de uma parceria da prefeitura e a empresa. O município desembolsou cerca de R$ 500 mil para ocupar alguns dos prédios e montar uma incubadora de empresas. A reportagem entrou em contato com o responsável pela Gota Doce, mas o empresário preferiu não dar informações por enquanto.


O diretor de Meio Ambiente, Agricultura e Turismo de Duartina, engenheiro agrônomo Clóvis Serra Jr., comemora a chegada da empresa na cidade. “Foi uma conquista fantástica. Duartina teve seu auge na agricultura com o bicho da seda. Ficou conhecida como a Capital da Seda. Com todo o problema envolvendo a seda, o fio, o tecido, a Bratac encerrou suas atividades e o prédio ficou abandonado. A Bratac continuou suas atividades em Bastos. Nós conseguimos trazer o empresário que se interessou e comprou o prédio. A fábrica está se instalando.”


Positivo


Na opinião dele, a instalação da processadora vai favorecer muito o setor, tanto para Duartina quanto para toda a região. “Eles vão começar a processar limão e laranja, de início. Numa segunda etapa, eles vão processar outras frutas. Goiaba, manga, maracujá. Isso vai dar uma alavancada fantástica para o setor. A previsão inicial é espremer 40 caminhões/dia na safra.”


A expectativa é que a emprese gere 50 empregos diretos. “Tem ainda os indiretos. Com certeza vai aumentar a quantidade de pomares na região. Os pequenos produtores serão motivados a plantar goiaba, manga e maracujá. Essas frutas requerem cuidados específicos. Tem a poda, o controle fitossanitário. A grande vantagem é vender para a indústria toda a produção. É dinheiro garantido. O próprio empresário tem fazenda de laranja. Ele vai comprar principalmente daqueles que tem pomar e não tem contrato com as grandes espremedoras. Aqui na região tem muito produtor de laranja, em Duartina, Lucianópolis e Cabrália.”

 

De chapéu na mão

O pequeno agricultor, segundo o agrônomo da prefeitura de Duartina, Clóvis Serra Jr., está sempre “de chapéu na mão” para escoar sua produção. “Pequenos agricultores não têm para quem vender a produção. Se tiver muita laranja, por exemplo, o preço cai para a venda de varejo ou de atacado em nível de Ceasa. Vendendo para a processadora, o agricultor fica garantido.”


A região é de citrus e o limão pode ser uma alternativa, segundo Serra. “O limão para a venda de varejo tem que estimular a produção fora de época para conseguir um preço melhor. Quando a produção é para a indústria, quanto mais produzir mais ganha. A empresa compra tudo, não importa a época.”


Serra ressalta que, recentemente, a fábrica firmou um contrato com o Oriente Médio para fornecer suco de laranja. “Eles exportam. Semana retrasada tinha um pessoal de lá negociando com a empresa. A empresa é grande. A estrutura da Bratac possui uma estação de tratamento que possibilita a reutilização da água no processo de produção.”

Cultura favorece conservação do solo

O tipo de solo e a topografia de Duartina e região favorecem o aparecimento de erosões, explica o engenheiro agrônomo Clóvis Serra Jr. “Uma característica importante que deve ser destacada é que esse tipo de empreendimento, culturas perenes, mantém o solo sem erosão. Temos dificuldade com culturas anuais. Quanto mais mexe na terra, mais perde porque ela é altamente favorável à erosão”, diz.


Com a cultura perene, segundo ele, é possível manter o solo vegetado com graminha, roçado que protege o solo. “Faz com que a propriedade produza porque a cultura perene não tem problema de erosão de estrago de terreno. O solo fica protegido. Evita o assoreamento dos rios, de córregos e nascentes.”

Perfil do agricultor de Duartina

O município já foi considerado a Capital da Seda e em pouco tempo deverá receber o título de Capital do Suco de Laranja, ressalta, em tom de brincadeira, o engenheiro agrônomo da prefeitura, Clóvis Serra Jr. “Aqui os agricultores cultivam hortaliças. Tem pecuária, um pouco de leite e agora começam a crescer os pomares.”


Alguns pequenos agricultores familiares vão produzir para a merenda escolar. “Estamos motivando os agricultores a entrar nessa modalidade de venda para escoar a produção. Ainda não temos nenhum deles efetivamente vendendo.”

 

Transação imobiliária da nova empresa foi considerada uma das maiores de Duartina

Prédio da antiga Bratac se transforma em fábrica processadora de frutas

A compra do prédio da antiga Bratac é resultado de uma parceria entre Prefeitura de Duartina e empresa Gota Doce. O município deverá assumir parte dos prédios, com a finalidade de instalar incubadoras de serviços. A empresa fica com a maioria dos prédios para instalar a processadora de frutas. A transação imobiliária foi considerada uma das maiores de Duartina.


No negócio, o município desembolsou R$ 500 mil e o restante da venda foi coberto pela empresa. O valor total não foi revelado. O empresário Valdemar Pereira dos Santos, da Gota Doce, foi contatado, mas preferiu não se pronunciar. O contrato de compra e venda foi efetivado no último dia 14 em Londrina (PR), onde está instalada a matriz da Bratac.


Na oportunidade, o prefeito Ênio Simão declarou que a cidade passa por uma nova fase de mudança de cenário. “A instalação da Gota Doce vai gerar mais empregos e renda. “Nós queremos trazer de volta os munícipes que trabalham nas cidades da região para que possam trabalhar na própria cidade onde moram, vamos trabalhar para reverter esta situação e principalmente dar emprego a todos que necessitam”.


A previsão é que a fábrica comece a funcionar em setembro deste ano e de imediato gere 50 empregos diretos, com perspectivas de dobrar a quantidade de funcionários a partir do próximo ano. De acordo com a prefeitura a empresa é brasileira, produtora e processadora de citros. Iniciou em 2009 um investimento no plantio de limão siciliano para abastecer os mercados de fruta fresca, suco concentrado congelado, NFC e óleos essenciais.

Sindicato Rural de Duartina não acredita na solução do problema

O Sindicato Rural de Duartina, que abrange ainda as cidades de Lucianópolis e Ubirajara, acredita que a instalação de uma processadora de citrus na região vai beneficiar o agricultor, porém, não vai resolver o problema que o setor atravessa.


“Nessa região a cultura de laranja predomina. O agricultor está com bastante dificuldade em vender. O preço não ajuda. As empresas não estão comprando muito porque caiu o consumo externo. As doenças que chegando. Tem uma série de coisas que estão atrapalhando o mercado. Ter uma empresa por perto ajuda, mas não resolve, o volume de produção é muito grande,” explica José Yamaguti, presidente do Sindicato Rural de Duartina.  


O problema da venda de laranja é nacional, segundo ele. “É uma fase ruim para a citricultura. Na região tem muita laranja, é uma região produtora grande e relativamente nova. Caiu o consumo externo e o estoque das indústrias é grande. Nossos maiores compradores estão nos Estados Unidos e Europa.”



Lucianópolis


De acordo com o presidente do sindicato, só Lucianópolis produz de 3 a 4 milhões de caixas de laranja pera.


“Acredito que essa empresa vá trabalhar com os médios e pequenos produtores, porque os grandes já têm contratos com as indústrias tradicionais. Seria mais uma opção de venda. Não muda o perfil do agricultor porque a citricultura passa por uma crise de preço.”


Yamaguti ressalta que a caixa de laranja deveria estar custando em torno de R$ 12,00 para cobrir os custos.


“O agricultor está recebendo R$ 7,00 por caixa que não cobre o custo de produção. O preço não aumenta porque a produção está grande e as grandes empresas alegam que têm estoques de suco suficiente. Em minha opinião, a empresa que está se instalando em Duartina consumiria cerca de 10 caminhões/dia durante a safra, algo em torno de 400 mil caixas.”

Feirantes comercializam frutas, verduras e legumes frescos uma vez por semana

Lençóis tem varejão para agricultor

Feira realizada todos os domingos possibilita aos pequenos agricultores escoar produção em local com grande frequência

Os pequenos e o agricultor familiar de Lençóis Paulista e região escoa parte de sua produção no varejão municipal. Uma feira realizada todos os domingos na área central da cidade, ao lado do museu Alexandre Chitto. O índice de frequência no local atinge cerca de quatro mil pessoas por edição.


Ao todo, são 22 feirantes mercadores e 15 produtores que se acomodam em seus boxes para atender a população, comercializando frutas, verduras e legumes, todos fresquinhos. O diretor de Agricultura e Meio Ambiente, Benedito Luiz Martins, explica que os feirantes produtores são aqueles que vendem os produtos produzidos em suas próprias propriedades rurais.


“Os feirantes mercadores são os que adquirem produtos e comercializam no varejão. São considerados feirantes mercadores aqueles que confeccionam produtos em casa, tais como pão, doces, salgados, suco, artesanato, açougue, dentre outros.”


O varejão leva o nome de Lídio Ruiz, seu fundador, e é realizado desde a década de 80. “‘Seo’ Lídio que começou o varejão na década de 80. Ele morreu há pouco tempo. Ele já foi realizado na rua José Paulino sob as árvores do estacionamento central desta rua, que separa o Paço Municipal da Escola Estadual Virgílio Capoani.  Posteriormente foi transferido para o local que é hoje, rua Coronel Joaquim Anselmo Martins, 603. Uma parte do barracão é da prefeitura e a outra, a diretoria de agricultura loca. É um local de fácil acesso.”


Segundo Martins, no varejão é vendido um pouco de tudo. “Eles vendem folhas, ramas, raízes como a mandioca, frutas como a laranja, mexerica e limão. O que eles produzem eles trazem para feira. A dona Doraci, que é mulher do seo Lídio, do sítio Rosinha, vende frutas de época. Ela tem jabuticaba. Na época em que os pés estão carregados, ela traz para vender no varejão. O mesmo acontece na época do milho, mandioca etc.”


Os agricultores familiares também vendem seus produtos para a merenda escolar, enfatiza o diretor. “Eles se organizam e fazem as vendas diretamente na Diretoria de Licitação. Alguns produzem focados para essa venda. Outros produzem hortaliças variadas. Juntos eles participam da licitação e entregam na cozinha piloto. Esses agricultores se compromissaram com a entrega de alface, escarola, almeirão, couve, cheiro verde, mandioca, rúcula e também linguiça e pernil suíno. São seis pequenos produtores que fornecem produtos para a Prefeitura Municipal. Este ano a Prefeitura Municipal adquiriu produtos cujos valores totais somaram R$ 63.577,00.”


O Varejão Lídio Ruiz funciona todos os domingos, das 6h às 12h.

 

Borebi vai ter Feira da Lua

Escoar a produção de pequenos agricultores e agricultores familiares é um problema para os municípios de menor porte. Para facilitar o escoamento e oferecer para a população um produto mais fresco, direto do produtor, a prefeitura de Borebi vai tirar do papel um projeto batizado de Feira da Lua. A previsão é que ainda este ano, as barracas ocupem semanalmente a praça principal, oferecendo toda a produção local.


O agrônomo da prefeitura, José Guilherme Benedetti, enfatiza que a Feira da Lua vai ter mais atrativos porque envolve outras secretarias. “É a união da secretaria da agricultura, educação e saúde. Vamos ter apresentações de dança, teatro e hip hop, além de acompanhamento de pressão arterial, dentre outros.”


O projeto aguarda alguns contatos para ser efetivado. “A feira vai ser semanal. Estamos entrando em contato com empresas da região para patrocinar as barracas. Temos cerca de 30 agricultores familiares que conseguirão escoar parte da produção. Queremos atrair pessoas para a praça. Vai ter hortaliças, frutas de época, leite, frango, ovos. Alguns deles se adequaram e estão vendendo para a merenda escolar.”