Recentemente, Bauru foi "presentada" por uma grande rede de varejo com uma réplica imponente da Estátua da Liberdade, de 35m de altura. Amada por uns, odiada por outros, há até mesmo abaixo-assinados circulando na internet defendendo ou não a dita cuja. A despeito de juízos de valor, de a acharmos bonitinha ou feia, vale pararmos um pouco e pensar: o que significa um símbolo (e não vamos aqui nem entrar na discussão do seu significado) de uma metrópole estadunidense em uma das "portas de entrada" de nossa cidade?
É fato que um ícone destes mexe com o imaginário popular, ainda mais pela forma como a cultura estadunidense nos é imposta, sempre colocada como melhor que a nossa, ditando como devemos nos portar ou o que consumir.
Já ouvi alguns comentarem que é melhor a estátua enfeitando a cidade do que nada. Mas, afinal, é isso o que queremos? Qual o significado cultural disto em nossa cidade? O que queremos mostrar?
Muito mais do que um simples enfeite urbano, é interessante pensar nas intenções existentes em um marco deste tipo em uma cidade. A socióloga Sharon Zukin, em seus estudos na década de 1990, ilustra bem essa situação ao falar das novas cidades pós-modernas: desprovidas de monumentos referenciais históricos, as cidades criam para si imagens vernaculares esvaziadas de sentido. É o arquétipo Disney World, onde são criadas paisagens ilusórias desprovidas de sentido cultural profundo, que se voltam apenas para um entretenimento visando o consumo. Assim, nas palavras de Zukin, as indústrias da cultura e do consumo dão cada vez mais as cartas no centro da reestruturação urbana.
De minha parte, prefiro lutar por uma paisagem urbana que nós, como cidadãos, possamos construir com as nossas vivências, em espaços públicos de qualidade, para que saiamos deste círculo vicioso de shoppings centers, onde para se exercer o lazer é preciso estar sempre e cada vez mais consumindo produtos que nem sempre são necessários. Templos onde consumimos imagens impostas pelos grandes conglomerados empresariais como se fossem imprescindíveis para atingirmos a felicidade.
Assim, escolho mil vezes uma paisagem limpa, onde posso olhar o pôr do sol no horizonte bauruense do que uma obra industrializada que não represente nenhuma herança cultural genuína e simbolize somente mais uma vitória do hiper-consumo em nossa cidade.
Aline Silva Santos - Arquiteta e Urbanista