08 de julho de 2026
Ciências

Dia dos Pais e as incertezas!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

A ciência pode ser cruel em seus métodos e resultados, às vezes por serem incontestáveis. O genoma representa o conjunto das informações ou genes recebidos de nossos progenitores e presente em todas as células. A análise do DNA, o material do genoma, indica que só se poderá ser filho daquelas duas pessoas: os genes são muito específicos.

Nos brasileiros, os resultados revelam que 10% não são filhos do pai que imaginam ser. Isto mesmo, um em cada 10 brasileiros são filhos de outro pai e nem imaginam ou desconfiam. Entre os judeus, para se confirmar a origem há de se provar que a mãe é judia. Apenas comprovar que és filho de judeu não lhe dará a condição de judeu. Judeu é aquele que tem uma mãe judia!

Os ratos quando fecundam as fêmeas secretam um produto para formar um tampão na entrada vaginal e uterina para que outro esperma não mais fecundem-na! Isto denota não confiar em sua companheira.

Ficar só, absolutamente só, sem sequer um feixe desta luz que aquece chamada amor, parece quase impossível. As pessoas tem muito medo de ficar exclusivamente só. Parece difícil nos tolerarmos, temos medo de nós mesmo quando sozinhos. Flávio Gikovate em um de seus livros diz: seremos felizes quando assim ficarmos sozinhos; assim estaremos prontos para conviver com outra pessoa.

Muito comum ter alguém do lado e estar verdadeiramente sozinho! Dá medo de fechar um ciclo sem abrir um outro. As pessoas precisam ter ciclos de amor sempre abertos, mesmo de qualidade ruim! O medo de não achar alguém e ficar muito tempo sozinho, faz com que se abram casos de amor, antes de encerrar o mais antigo.

Por estas aventuras e desventuras se têm muitos casos de gravidez com namorados e casos antigos misturados com alta possibilidade de paternidades equivocadas. Ser pai sempre requer conviver com uma dúvida: será que sou eu o pai desta criança? Por isto adoram dizer: como parece o pai! É a cara do pai! Quando não a mulher proclama: nem parece que foi eu que fiz, tem tudo do pai, nem parece meu filho! Anos atrás, era impossível ter a certeza, mas a ciência deu um jeito nisso quando compara-se DNA da mãe, pai e filho!

Ser pai cientificamente significa negar que a lei da probabilidade matemática exista e acreditar. Para os céticos, ser pai é navegar na dúvida, até prova em contrário! Uma saída seria os testes de paternidade baratos e vendidos nas farmácias para fazer em casa mesmo, tal como medir pressão sanguínea, nível de glicose e outros exames na forma de kit! Imaginem a mulher chegando em casa com seu filho e o marido esperando-os com o kit-paternidade na mão convidando-os a fazer uma checagem. Outra saída: que na maternidade fosse obrigatório o teste de paternidade em todos os bebês!

O amor de pai difere de amor de mãe em seu estilo. A mãe tem certeza, pois tudo aconteceu em seu corpo. Ao pai resta confiar, mas quase todas as mães nos ensina a não confiar em ninguém: e aí como fica? Seria confiar, desconfiando!

O nariz de meu pai, as orelhas, as entradas, a postura física e outras características me levam a crer que sou seu filho. O jeito de ser não vale, pois aprende-se muito no conviver. Nunca fizeram o exame do meu DNA para confirmar a paternidade, mas se fizesse e falassem que não era compatível, não estaria nem aí: meu bom pai seria de qualquer forma o saudoso “seu” Luiz!

As mães nos ensinam que o amor paterno é diferente, mais distante ou mais superficial, que nunca é igual o amor materno. Tudo isto é ensinado. O pai ama o seu filho como a mãe. De minha parte eu garanto: como filho e como pai! Triste mesmo foi a constatação de um amigo nordestino: - nossa, como por aqui vocês tem tantas casas de repouso, abrigo ou asilos!

Quando se tem a demência, o mal de Alzheimer e o de Parkinson, sem o vigor e a riqueza da juventude, muitos pais e mães são colocados em casas de abrigo para não alterar o ritmo da vida familiar. Será que verdadeiramente amamos nossos pais? E quando for a nossa vez! Se seu pai tem a força vital com ou sem dinheiro, ao dar o presente do Dia dos Pais, no cartão sugiro que escreva:

“Até o fim de sua vida estarei com você, com ou sem capacidade motora, com ou sem memória, lúcido ou demente, mas estarei sempre com você, mesmo que meus filhos e minha mulher (ou marido) mandem abandoná-lo!”

Ou seja mais curto: Pai, para a fase mais tardia de sua vida, guardarei muitos beijos, abraços, afeto e acolhimento!

Feliz Dia dos Pais!


Alberto Consolaro é ?professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. Email: consolaro@uol.com.br