10 de julho de 2026
Geral

Criada em mobilização histórica, Unesp completa 25 anos em Bauru

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 12 min

Arquivo/Quioshi Goto

Purini (com microfone), Quércia e Tidei em evento no Centro de Bauru em 13-8-1988

O câmpus com maior número de estudantes dos 24 da Universidade Estadual Paulista (Unesp) fica em Bauru. Nesta segunda-feira, ele completa 25 anos de atividades, após a incorporação da antiga Universidade Bauru (UB) - formalizada pelo governo do Estado em 12 de agosto de 1988, num “ato político” do então governador Orestes Quércia (PMDB), como relembram os ex-deputados Tidei de Lima e Roberto Purini.

De lá até hoje, a cidade ganhou mais uma universidade pública que refletiu na economia da cidade e em mais vagas no ensino público superior gratuito.

Os 200 alqueires de área na Vargem Limpa abrigam a estrutura de prédios, com salas de aula, laboratórios, uma rádio educativa, um colégio profissionalizante e radar meteorológico.

Quando  da  incorporação da UB havia apenas três professores com titulação de doutor e atualmente são 98% do corpo docente.

Por ano, entre salário, custeio e verba para pesquisa são injetados R$ 118,2 milhões na economia local, equivalente a 14% do orçamento da Prefeitura do Município. Essa quantia supera a receita e despesas de muitas pequenas cidades da região.

Essa evolução do ensino público reflete em atividades simples, como na lanchonete do mineiro Feliciano Soares de Oliveira, apelidado de Baiano, que cresceu  no ramo à medida que o estabelecimento de ensino estadual recebeu mais investimentos.

 

Setores

Conforme uma pesquisa feita pelo sociólogo José Murari Bovo divulgado em 2003 a vinda de unidades da Unesp para os municípios do Interior tem efeitos positivos que não se limitam a formar alunos, produzir conhecimento e prestar serviços à comunidade.

Segundo ele, em 2001, os 14 campi irrigaram com R$ 669 milhões os vários setores da economia das cidades onde estão instalados. Da pesquisa da época, Bovo chegou ao valor correspondente a 51% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) arrecadado pelo conjunto dos 14 municípios, que naquele ano, chegou a R$ 1,35 bilhão.

Só para para efeito de comparação, no câmpus de Bauru atualmente, segundo estimativas, só de folha de pagamento são R$ 26 milhões movimentados por ano só pela Faculdade de Engenharia, R$ 26 milhões na de Artes e Comunicação e R$ 32 milhões na de Ciências, mas se somar o custeio são mais de R$ 8,5 milhões que são injetados na economia anualmente.

A verba em pesquisa, por exemplo, só na Faculdade de Engenharia chega a R$ 3 milhões por ano.

Para o ex-deputado federal Tidei de Lima, depois da vinda das ferrovias no século passado para Bauru, a Unesp é o segundo fator mais importante que impulsiona o município.


Instituição injeta R$ 118 milhões  a cada ano para prestar serviços

O orçamento do câmpus de Bauru representa o equivalente a 14% do Orçamento da Prefeitura, estimado em R$ 826 milhões. Ao todo são R$ 118,2 milhões por ano entre salários, verba de custeio e de pesquisa injetados nas Faculdades de Ciências, na de Arquitetura, Artes e Comunicação e na de Engenharia.

Só com pessoal (inclusive aposentadorias) as despesas são de R$ 98,5 milhões, R$ 8,5 milhões com custeio e R$ 11,2 milhões com investimentos, conforme dados fornecidos pela assessoria de imprensa da Unesp.

Essa movimentação de dinheiro supera pequenos municípios da região de Bauru.  “Se juntar vários municípios não têm uma receita mensal e nem anual dessa”, diz Jair Manfrinato, diretor do câmpus.

Ao todo são 5.074 universitários (graduação),  744 (pós-graduação), 377 docentes e 556 servidores. O  número de estudantes supera a população de uma cidade do porte de  Iaras, de 3.996 habitantes.


Unidade já foi o ‘patinho feio’, diz Jair Manfrinato

A incorporação da UB pela Unesp gerou uma “ciumeira” geral nos demais campi da Unesp.

Afinal, repentinamente um câmpus com mais de cinco mil alunos e área de 200 alqueires representava mais custos a toda a instituição. Também porque os professores da recém-unidade não tinham titulação necessária.

Depois de Botucatu, a área de Bauru é uma das maiores entre os 24 campi da universidade paulista no Estado. Segundo o ex-deputado federal Tidei de Lima, isso ocorreu porque se encampou uma instituição de ensino que poderia desequilibrar a correlação de forças com as demais unidades.

O presidente do câmpus de Bauru da Unesp e diretor da Faculdade de Engenharia, Jair Manfrinato, lembra do apelido “patinho feio” dado a recém-unidade na época.  “No começo éramos o patinho feio, mas a pressão diminuiu bem nos últimos 10 anos. Todas as unidades passaram por esse processo, aqui foi mais traumático por ser muito grande”, conta.

 

Titulação e ‘dor’

Uma das reclamações foi a falta e titulação dos docentes. Os professores incorporados tiveram prazo prazo de 10 anos para se titularem, acordo acertado na transição. “Depois que passou esse prazo resolveu o problema, mas foi dolorido. Os professores tinham que dar aula, fazer o mestrado e o doutorado”, declarou.

Quem não cumpriu o prazo foi rebaixado, teve perda de salário e até perdeu remuneração. Há quem discuta a questão judicialmente. Quando da incorporação da UB, apenas três professores haviam defendido tese. No final de 2008, 86% dos professores concursados tinham titulação de doutor e hoje são 98% de todo seu quadro de docentes (em números exatos são 351 docentes).


Baiano, carismática testemunha da evolução da universidade

O mineiro de Janaúba apelidado de Baiano com nome de batismo de Feliciano Soares de Oliveira, 73 anos, só conhecido no papel da burocracia oficial, viu de perto a evolução da Unesp de Bauru nos últimos 25 anos.

Ele próprio experimentou o “progresso” da incorporação da antiga Universidade de Bauru (UB). 

Da sua antiga barraquinha de madeira onde vendia o sanduíche “Buraco Quente” em frente ao câmpus na Vargem Limpa, hoje há lanchonete com prédio de alvenaria, conquista atribuída depois da formalização da área pela universidade paulista.

Baiano viu de perto toda a luta para a incorporação da antiga UB no final dos anos 80. “Essa instituição foi tudo para mim”, revela Baiano, ao admitir que o imenso câmpus, de cerca de 5 mil alunos, teve uma importância para sua sobrevivência.

O comerciante começou com um pequeno carrinho de cachorro quente no início dos anos 70 quando os cursos da Fundação Educacional de Bauru (FEB) funcionavam nas instalações onde é hoje a Delegacia de Ensino, ao lado da Instituição Toledo de Ensino (ITE). Ficou ali até os anos 80, quando a instituição de ensino transferiu parte de suas salas de aula para o câmpus da Vargem Limpa. “Lá no fim do mundo, no meio do mato”, lembra Baiano.

Foi a primeira “evolução” na sua vida, deixou o antigo carrinho e montou com tapumes de madeira a barraca em frente ao novo câmpus, onde vendia o famoso “Pé queimado” -  licor de cacau, mel, misturado com conhaque - e o sanduíche “Buraco Quente” para “matar a fome da ‘estudantaida’”. Não havia energia elétrica no barraco. A luz vinha de um lampião. A geladeira improvisada numa caixa de lata com as garrafas junto a enorme pedra de gelo.

Tempos bicudos também para a FEB, entidade mantida com mensalidades dos alunos e repasse pequeno da prefeitura de Bauru que estava numa crise econômica profunda, ameaçada de reduzir cursos.

Baiano não esquece que foi a promessa de Orestes Quércia em palanque numa campanha eleitoral que renderia posteriormente a incorporação da UB pela Unesp.

O comerciante viu de perto os embates políticos e toda a articulação para virar uma universidade pública. Algumas das conversas foi na mesa de seu bar, principalmente quando ali se reuniam os integrantes do Diretório Acadêmico.

Até hoje ele é visitado por ex-alunos, professores aposentados e todos aqueles que viveram aquele período agitado do fim da ditadura e início do governo José Sarney, após a morte de Tancredo Neves.

Essa “fama” adquirida no câmpus da Vargem Limpa garantiu a Baiano conseguir a área onde está a sua lanchonete e lhe rendeu até uma candidatura a vereador, sem conseguir os votos suficientes.

 

‘Padrinho’ foi aluno da engenharia

 

Antes de se eleger deputado federal Antonio Tidei de Lima foi aluno da primeira turma na Faculdade de Engenharia da antiga Fundação Educacional de Bauru (FEB) entre 1969 e início dos anos 70. A antiga FEB experimentava uma crise financeira, dependia das mensalidades arrecadadas dos alunos para manter seus cursos.

Ao se eleger deputado em 1978 tentou de todas as formas que o governo federal assumisse os cursos de Bauru, porém encontrou dificuldades por pertencer ao MDB, partido de oposição à Arena no final do regime militar.

A encampação só começa a ganhar força na eleição de 1986, quando Orestes Quércia enfrenta dois adversários difíceis na sucessão do Palácio dos Bandeirantes: Paulo Maluf pelo PDS e Antonio Ermírio de Morais pelo PTB. Diante disso passa a depender muito dos votos e do apoio do Interior.

Bauru tinha uma forte base do MDB. “Foi em um arroubo de palanque que Quércia disse em Bauru que se não federalizasse a UB ele a estadualizaria. Essa declaração vai ser importante, após a eleição dele ao governo, para conseguir a incorporação”, conta Tidei.

O tal comício da campanha eleitoral foi na esquina da Agenor Meira com Batista de Carvalho, o mesmo local em que, posteriormente, foi armado o palanque para formalizar a incorporação com presença do governador, vice-governador na época Almino Affonso, de Tidei de Lima, do deputado estadual Roberto Purini, entre outras lideranças políticas - foto acima.

O ex-deputado estadual Roberto Purini confirma que a grande reivindicação dos jovens era a estadualização. Eles foram lá para cobrar isso.

Tidei diz que assumiu a secretaria da Agricultura na gestão do Quércia e deixou de participar da Constituinte justamente para ficar mais perto do governo para continuar na busca da estadualização da UB.

Inicialmente tentou-se no governo de José Sarney (PMDB) a federalização da universidade sem êxito. Os compromissos do então presidente era atender demandas de Tancredo Neves, presidente eleito que morreu antes de assumir o mandato.

“O Sarney disse que estava cumprindo as promessas do Tancredo e tinha que federalizar algumas faculdades de Minas”, relembra o diálogo no Palácio do Planalto com o então presidente em que praticamente sepultou a última tentativa de a FEB ser incorporada pelo governo federal.

Purini lembra que depois da eleição de Quércia passou a ser cobrado para que se viabilizasse a estadualização da UB.

Restou, então, o governo paulista sob comando do aliado Orestes Quércia cumprir o que prometeu em palanque. Novo impasse: a Unicamp não tinha interesse em ter um câmpus fora de Campinas. A USP já tinha a Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) e também não queria assumir outros cursos e a Unesp não se cogitou inicialmente.

Quércia tentou convencer Tidei para deixar para o final do mandato. “De jeito nenhum, tem que sair agora, foi a minha resposta”, conta o ex-deputado. Aí passam a ocorrer as articulações de se criar nova universidade estadual, mas a ideia não foi muito longe, porque teria que incorporar outras unidades e difícil de passar na Assembleia, onde haveria outros interesses em jogo.

 

Reunião na madrugada

Tidei recorreu então ao irmão João Francisco Tidei de Lima, professor da Unesp de Assis, que tinha amizade com o reitor Jorge Nagle. O encontro foi marcado em São Paulo a uma hora da madrugada para discutir a possibilidade da encampação pela Unesp, afinal a instituição tinha “caráter interiorano”. A conversa se estendeu até 5h da madrugada.

“Na reunião falei que o Quércia queria criar uma quarta universidade e com isso reduziria os recursos a todas as universidades. O caminho que achamos era melhor à Unesp encampar a UB. Foi daí que Nagle levou a questão ao Conselho da Unesp”, relembrou.

 

Um fator importante foi o governo injetar recursos para estadualizar Bauru.

O próprio Tidei admite que foi “um ato político” de Quércia que possibilitou que o câmpus de Bauru passasse para a Unesp. Houve vários impasses devido a necessidade de se encontrar uma saída jurídica. O primeiro ato foi o protocolo de intenções.

Purini confirma que a promessa de Quércia foi cumprida. “Foi um trabalho político e realmente o Quércia honrou o compromisso”.

Em agosto de 1988 foi formalizada a encampação da então Universidade de Bauru (UB) mantida pela Fundação. Naquela época a Unesp tinha 15 câmpus, hoje são 24. Foram incorporados 4.372 universitários e 200 professores distribuídos em 22 cursos de graduação. Atualmente são 21 cursos e e 5.074 na graduação e 744 na pós-graduação.

Tidei lembra que até hoje o ex-reitor Jorge Nagle não ganhou homenagem da Câmara de Bauru, nem título de cidadão por exemplo, embora tenha contribuído para que o câmpus virasse público.


Política: decisiva para incorporação

Para o professor Geraldo Bergamo, ex-reitor acadêmico da Universidade de Bauru (UB), o comício da campanha eleitoral ao Palácio dos Bandeirantes realizado em Bauru em 86 foi decisivo para Orestes Quércia (PMDB) cumprir a promessa depois de eleito.

“Quando ele (Quércia)  esteve aqui, estava em baixa. No comício, cada vez que ele falava, o assunto dominado pela plateia era a estadualização da UB”, conta Bergamo.

Foi quando o então candidato disse que se, não saísse a federalização iria estadualizar a universidade, mas Bergamo lembra que há um outro fator: na expansão da Unesp havia um vazio no meio do Estado, justamente a região de Bauru.

“Se olhar o mapa da época, havia falta de unidades justamente em Bauru. Havia um documento produzido cinco anos antes que sugeria que a expansão da universidade passava também pelo centro do Estado”, lembrou.

Bergamo cita que a incorporação foi importante à cidade porque a UB enfrentava uma crise financeira e uma das consequências seria o fechamento de cursos.


E a faculdade de medicina?

O fato de a Famesp, instituição ligada à Faculdade de Medicina de Botucatu, praticamente deter, hoje, o controle de quase toda a rede hospitalar de Bauru, é um elemento facilitador para abrir um curso de medicina na cidade pela Unesp.

Em agenda oficial no município de Botucatu, no final de dezembro de 2012, o governador Geraldo Alckmin já havia sinalizado seu empenho para a viabilização do antigo sonho da Faculdade de Medicina em Bauru. Na ocasião, conforme o JC noticiou, ele colocou os cinco hospitais públicos instalados na cidade à disposição da Universidade Estadual Paulista (Unesp).


Luiz Ferreira Martins, 1º reitor

O jornal “Em Foco” do hospital Centrinho/USP traz, em edição de 2005, matéria assinada por Elaine de Sousa com breve histórico da Unesp. Em 1973, no final do mandato da diretoria da FOB/USP (Faculdade de Odontologia de Bauru), o professor Luiz Ferreira Martins foi convidado pelo então governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, para chefiar a Coordenação da Administração do Ensino Superior, à qual eram vinculados 14 institutos isolados - escolas públicas criadas pelo governo estadual e administradas pela secretaria da Educação.

Após muitos debates, a lei de criação da Unesp (Universidade Estadual Paulista) - nome sugerido pelo próprio professor Luiz Martins e acrescido, por sugestão do então presidente do Conselho Estadual de Educação, Moacyr Expedito Marret Vaz Guimarães, de “Júlio de Mesquita Filho” - foi  promulgada em janeiro de 1976.