09 de julho de 2026
Articulistas

A arte da felicidade

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

O mau gosto é uma medida que não tem regras e nem paradigmas. Os limites são as pessoas que acham que têm bom gosto. Esse relativismo do que é bom ou ruim é que o legitima. Varia de acordo com a época, a geografia e as civilizações. O semiólogo Umberto Ecco pondera deixar ao gosto e ao temperamento de cada um a possibilidade de articular seus sentimentos mais autênticos. Quem elaborou a definição desse fenômeno foram os alemães, que inventaram a palavra "kitsch" para denominá-lo. Vem do verbo verkitschen ? para vender barato. Espécie de mentira artística proposto para um público preguiçoso que deseja o belo, mas não quer ter muito trabalho para interpretações estéticas complexas. A imitação secundária já está de bom tamanho.

O kitsch é produto de uma indústria da cultura. Está em todo lugar: na camiseta com a estampa do Che Guevara; nos filmes de far-west classe B; em O Velho e o Mar, de Hemingway; no tema beethoveniano Pour Elise, tocado no caminhão de entrega de gás; na banda de Andre Rieu tocando a Marcha Turca, de Mozart; nos anões de jardim, nos pinguins de geladeira e até nos anjinhos barrocos das igrejas. Réplica da estátua da Liberdade existe até em Paris, à margem do Sena. Las Vegas exibe uma fantástica coleção kitsch com torre Eiffel, Cristo Redentor e cópias das mais instigantes obras renascentistas. O Moisés de cassino é mais perfeito que o de Michelangelo. Na Disneyworld impera o Castelo da Branca de Neve, inspirado no Neuschwanstein, da Baviera. Os monumentos à Revolução Russa, que ainda não derrubaram são feios de doer. Acho que foi Walter Benjamin, filósofo frankfurtiano que disse ser o kitsch "tão permanente quanto o pecado". Milan Kundera ponderou que "ninguém é super-homem o bastante para escapar completamente do kitsch". Em sociologia isto é entendido como o "consumo de formas" que pode transformar-se em fetiche e ser fruída não pelo que é ou possa ser, mas pelo que representa no plano de prestígio ou da publicidade. A mensagem é compreensível e desfrutável por todos. Construir efeitos, de modo a convencer o consumidor de que ele pode ter realizado um encontro com a cultura, ou com um fetiche consagrado, é só um sinal de competência comercial. Pior que o kitsch é hostilizar um empreendedor que vem de fora, gasta R$ 50 milhões em Bauru, reabilita uma área abandonada há 30 anos, não pediu nada para ninguém, gera emprego e impostos. Só porque tem como aproach comercial a Estátua da Liberdade... Deviam dar a esse empresário uma réplica do "Bauruzinho", em reconhecimento. A caricatura humanizada do nosso sanduíche bauru virou peruada de estudantes. Muitos não entenderam que o "Bauruzinho", de pés de rodelas de tomates e olhos de picles de pepino é uma expressão artística, ato de criação. Lembro-me quando o nosso único escultor, o professor Larangeira criou o leão da avenida Nações Unidas, por encomenda do Lions. Foi criticado porque o "seu" leão nada tinha de parecido com o da Metro. É característica das classes dominantes desqualificar a arte que agrada ao povo inculto, por ser facilmente compreensível. Nem atinam à função importante, na sociedade, ao se constituir numa passagem obrigatória na educação do gosto popular, conduzindo do falso em direção do autêntico. Por isso mesmo é democrático. "Por um processo de depuração constante constrói-se o bom gosto. (O kitsch é) A arte da felicidade", observou Abraham Moles.

Artistas cultos e vanguardistas cooptaram o kitsch. Andy Wahrol incorporou ícones populares às suas obras ? latas de sopa Campbell, Marilyn Monroe, Mao-tse Tung, Pelé. Roy Liechtenstein utilizou-se de fragmentos de histórias em quadrinhos. Marcel Duchamp, um urinol. Contribuíram para tornar a arte culta mais acessível às massas e livrar um pouco o kitsch de suas conotações negativas. Suas obras estão nos mais respeitados museus do mundo. Susan Sontag cristalizou essa filosofia na frase "é belo porque é feio".


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC