09 de julho de 2026
Ser

Entrevista -João Anzanello Carrascoza

Gustavo Ranieri
| Tempo de leitura: 5 min

Uma visita ao passado

O escritor paulista João Anzanello Carrascoza, de 51 anos, recorre com frequência ao pensamento de que tempo é eternidade em movimento, atribuído ao filósofo grego Platão. É como tenta esclarecer sua ligação a um tema caro à literatura que produz: o passado.

O hábito de suas personagens revisitarem aquilo que já foi vivido, característica dos contos do penúltimo livro, Aquela Água Toda, de 2012, reincide no mais novo lançamento, Aos 7 e aos 40. O romance de estreia de Carrascoza é publicado pela Cosac Naify, que editou seus livros mais recentes, e chega às prateleiras nesta semana.

Em capítulos alternados, o protagonista, aos 7 anos, descobre sua identidade quando aprende a ler as sutilezas e o silêncio do cotidiano; depois, aos 40, é um homem esfacelado e sem personalidade. Dessa forma, como conta na entrevista a seguir, realizada em sua casa, o escritor investiga a necessidade de reencantamento do ser humano contemporâneo com o mundo.


Há uma conexão deste com outros livros seus, especialmente quando as personagens revisitam a infância vivida sem conseguir notar as antigas alegrias na fase adulta. Que questão é essa sua com o passado? Como esse tema o perturba ou encanta?

João Anzanello Carrascoza - Em geral, o espaço do passado, das coisas a que você não tem acesso senão pela memória, me interessam muito. E, à medida que você anda e revê esse passado, ele se ressignifica. Às vezes, você pode entender que aquele momento lá atrás era uma epifania, uma descoberta que, talvez, você não vivencie nunca mais. De certa maneira, cada vez mais vou entrar com olhar de redescoberta e, por vezes, até de reencantamento nesse universo que, para muitos, está morto, mas sempre vivo para mim.


Mas não há o risco de você ser rotulado como um escritor saudosista?

Carrascoza - Não me considero saudosista. Acho que nada supera o momento presente, por mais que tenha sido maravilhoso o que já foi vivido. Agora, o que já foi vivido me interessa como caminho para o que está vindo. Além disso, dentro do universo da literatura, um escritor sempre trabalha com memória e invenção, e óbvio que, uma vez que se ativa determinada lembrança, também se está reinventando-a.


Há uma passagem em que você escreve: "Por que o menino logo atingiria o ponto do caminho onde o homem que ele seria o esperava". Nesse caso, é um processo doloroso saber que crescer é irremediável?

Carrascoza - Acho que crescer é um rito de dor porque você se depara com coisas que te pareciam muito mais suaves. Mas acho que a dor é constitutiva do nosso ser e da nossa vida. E é por isso que, por vezes, a gente escreve. É uma tentativa de acariciar um pouco a nossa própria dor ou compartilhá-la com os demais para que o outro também se encontre. Quanto mais humano você é, mais a tua literatura tem condições de entrar em comunhão com o outro, mesmo que seja para entrar em comunhão com a dor. A literatura não é só feliz. Ela é melancólica, é triste, por vezes insuportável. Ao mesmo tempo, é tudo o que você tem.


Mas além dessa dor de o menino se ver crescer, há aquela sentida por ele quando adulto, ao perceber o seu próprio filho crescendo Que relação é essa?

Carrascoza - É uma coisa que eu queria trabalhar. Esse menino, quando narra aos 7 anos, faz parte de uma família que lhe deram, que não foi escolhida por ele. Por isso, ele tem um grande olhar elegíaco para ela. E esse homem adiante, aos 40, vê a família que ele se deu se desestruturando, partida. Assim, ao ver um filho crescer, aquilo lhe parece uma coisa muito dolorosa e o faz voltar ao que ele também vivenciou no passado.


Outro aspecto é a forma narrativa adotada por você na história Quando o protagonista tem 7 anos, você escreve em primeira pessoa; quando tem 40, em terceira. É de algum modo um jeito de dizer que perdemos voz própria quando crescemos?

Carrascoza - Essa leitura está certa. Quando esse personagem está com 7 anos, ele descobre uma identidade que vai dando os contornos da sua individualidade, a qual, nesse primeiro momento, é rígida. À medida que ele vai vivendo esse nosso tempo do sujeito esfacelado, ele tem várias identidades, ela se torna líquida. Ele tem outros papéis também e é difícil adquirir uma única voz, a voz tem de vir do mundo olhando para ele. Por isso, passei para a terceira pessoa, mostrando esse distanciamento.


Em "Aos 7 e aos 40", o garoto descobre a tristeza ao notar um pássaro que para de cantar ao ser engaiolado, e a morte ao perceber a ausência de um vizinho idoso. Estou certo ao pensar que essa é a sua maneira de dizer que o mundo continua a ensinar por meio das sutilezas?

Carrascoza - O que está silenciado também está dizendo. Isso faz parte da linguagem, porque o dito traz os não ditos, pressupostos ou subentendidos. Contar esta historia a partir dos 7 é contar que o outro está presente em sua vida, você precisa dele e só ele consegue te justificar. E você pode aprender com qualquer coisa, inclusive com as banais. Como dizia Drummond, o cotidiano tem doses colossais de poesia. É nele que está a possibilidade de plenitude, de aceitação da vida, de compreensão da condição humana.


Entretanto, parece que as personagens dessa história sofrem com a incomunicabilidade. Está correta essa análise?

Carrascoza - Sim, e é curioso porque eu sou professor de comunicação. Essas personagens amam uns aos outros, mas não conseguem se expressar no âmbito das palavras. Hoje, não há coisa mais vazia do que você dizer ?eu te amo? para uma pessoa. Então penso que a forma como eles se relacionam no livro já é um modo de dizer seu amor, por meio dos pequenos gestos, do silêncio, dos toques, do respeito ou de certa reverência ao perceber que o outro está vivendo o mesmo instante que você. Isso é uma comunhão. É preciso aprender a ler o outro.


O tempo presente é mesmo, como você escreve, feito de todas as ausências?

Carrascoza - O presente só fica à medida que todo o resto não existe, não é mais e nem será.