08 de julho de 2026
Ciências

Células-tronco: a esperança e a realidade

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min


Dentes formados com células-tronco por pesquisadores chineses! Osso produzido pelas células-tronco em laboratório espanhol. Carne de hambúrguer produzida por células-tronco bovinas ingerida por voluntários em Londres! Daqui a pouco teremos: Banco Central produz dinheiro a partir de células-tronco! Ou seriam cédulas-tronco?

Viagens mentais na ciência são livres e os caminhos, sem porteiras. Na ficção científica, não há mais diferença entre expectativa e imaginação; a distância entre elas se encurtou, se confundem. A ficção está em crise de criatividade. Depois das entrevistas com pesquisadores e algumas ideias geniais, sempre vem uma frase final: “- muitos estudos e alguns anos levarão para aplicar isto em humanos, com testes em laboratórios, animais e ensaios clínicos; o trabalho ainda vai ser publicado!” Tudo muito vago, mais para ficção que para realidade.

A expectativa é a antessala da frustração. O ansioso vive infeliz, come muito e range os dentes; lá se vão as formas e os dentes!!!! Quando noticia-se uma pesquisa publicada na revista científica, a viagem mental já foi analisada pelos editores, o relatado se aproxima mais da aplicabilidade, a realidade está a alguns passos.

Muitos pesquisadores falam antes da publicação e anos depois se descobre que os resultados nem foram enviados para as revistas científicas. Mas serviu para impressionar socialmente e pressionar chefes, instituições e agências financiadoras de pesquisa, sem contar aquele “cartaz” na família e amigos. Com as células-tronco acontece isto: muito se divulga e pouco de prático existe, apenas esperança, mas em ciência, a esperança não pode sobrepor!

Cada célula de embrião com 8 a 16 células e alguns dias de idade pode dar origem a um novo ser separadamente. Têm pleno potencial de gerar qualquer dos 206 tipos de células, são totipotentes. Estas “células-tronco embrionárias” são capazes de se transformar ou diferenciar em qualquer célula, mesmo após longos períodos de inatividade como embriões congelados.

Algumas células adultas não se multiplicam, mas em cultura as células-tronco embrionárias se reproduzem aos milhares. Injetadas em locais lesados como coração, rim e cérebro podem ser induzidas a formar novas células devolvendo aos órgãos as funções especiais. No entanto, ainda não se têm o conhecimento de como controlar sua proliferação e renovação para não gerarem neoplasias malignas.

Nos tecidos e órgãos adultos há um pequeno percentual de células quase embrionárias de reserva ou “células-tronco teciduais”. Os tecidos usam-nas para reparar lesões por traumatismos, doenças ou envelhecimento, mas de forma muito limitada. Por esta razão e por questões éticas e morais, os cientistas procuram obter células-tronco de tecidos adultas e por regressão voltam-nas ao estágio embrionário por “desdiferenciação”. Cultivadas em laboratório, passam a ser injetadas para refazer tecidos e órgãos, as vezes no próprio doador.

As “células-tronco teciduais” tem seus limites pois não conseguem diferenciar-se em qualquer tecido. Elas podem ser reprogramadas geneticamente no laboratório e sofrem uma regressão total e voltam a ser totipotentes e chamadas de “células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs)”.

Muitas pessoas acabam por acreditar que injetar células-tronco fornece garantia de que os tecidos e órgãos serão refeitos. Não é assim. A origem e a manipulação das células, o tratamento que foram submetidas e em que local e situação serão utilizadas são aspectos fundamentais para o sucesso terapêutico. Injetar células-tronco teciduais em alguém é muito sério e oferece riscos, incluindo-se o câncer. Submeter-se a protocolos experimentais autorizados tem seus riscos e pode valer a pena, mas tem gente submetendo-se a isso quase que ou “clandestinamente” e com “profissionais” que nem médicos são!

Na prática não existe no mundo nenhum protocolo terapêutico ou tratamento autorizado para uso geral de células tronco em pessoas portadoras de uma determinada doença. Alguns poucos protocolos são experiências com casos especiais sob supervisão e autorização de conselhos de ética, Anvisa, Ministério da Saúde e CFM. As células-tronco oferecem esperanças e perspectivas, mas ainda não representam uma realidade aplicável às pessoas em geral: são pesquisas laboratoriais e eventuais ensaios excepcionalmente autorizados.

Tenhamos calma e paciência!


Observatório

Dentes por células-tronco - Na China isolou-se células epiteliais da urina humana e, em laboratório, tornaram-nas “células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs)”. Ao colocar estas células no mesênquima dentário de ratos e inserir o conjunto nas cápsulas renais, Jinglei Cai e sua equipe conseguiram obter estruturas semelhantes a dentes humanos em 3 semanas. Os dentes apresentaram esmalte, dentina, cemento e polpa com plena organização dos ameloblastos e odontoblastos. Na revista “Cell Regeneration Journal” de acesso livre www.cellregenerationjournal.com/content/2/1/6 os resultados são impressionantes e devem ser checados e reproduzidos em outros laboratórios.

Vegetariano não! As células-tronco de vaca são colocadas em meios de cultura junto com anéis espiralados. Ao colonizar a superfície destes anéis iniciam a produção de proteínas filamentares formando uma massa tipo carne bovina como produziriam no organismo bovino. Chamar este tipo de carne de “vegetariana” representa um engano conceitual muito grande, pois continua sendo de origem animal. O entusiasta cientista holandês está divulgando a ideia em Londres após os trabalhos originais na Universidade de Maastricht. Mark Post acredita que o hambúrguer apresentado e oferecido a voluntários pode ser alternativa para a escassez de alimentos.