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O pedreiro João Paulo de Andrade, 38 anos, tinha comprado sua Honda/CG 125 há menos de um mês. Após 40 minutos dentro de uma casa noturna na região central de Bauru, ele voltou e não mais encontrou sua moto. Ele foi apenas uma das 378 pessoas que tiveram veículos furtados na cidade no primeiro semestre deste ano. Impulsionados pelo mercado negro de peças, os crimes continuam visando o Centro.
De acordo com dados da Polícia Militar (PM), das oito vias com maior número de ocorrências de veículos furtados, sete estão no Centro. A campeã é a Rio Branco. Depois, vêm Nações Unidas, Duque de Caxias, Antônio Alves, Araújo Leite, Marcondes Salgado, Conde Francisco Matarazzo (Vila Antártica) e Gustavo Maciel.
“O Centro da cidade acaba sendo o alvo dos ladrões por conta da oportunidade. É uma espécie de lei de oferta e procura do crime”, explica o oficial de Relações Públicas do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), capitão Alan Terra. “Nesses pontos de comércio intenso, a pessoa estaciona o carro, vai trabalhar e deixa praticamente o dia todo lá”, complementa.
A moto de João Paulo foi furtada exatamente na avenida Duque de Caxias. Dias depois, o veículo foi encontrado abandonado. “Fiquei tão triste que, logo após reencontrá-la, vendi para um amigo meu. Desgostei. Moto é muito fácil de furtarem. Comprei uma caminhonete agora”, revela o pedreiro.
Apesar de, em números absolutos, as motos ainda serem menos furtadas do que os carros, a quantidade proporcional revela que os veículos de duas rodas saltam mais aos olhos dos ladrões (leia mais abaixo). Delas, a grande maioria é de baixa cilindrada.
Os dados apontam ainda que, dos 378 veículos – sejam motos e carros – furtados no primeiro semestre deste ano, 76% têm ano de fabricação entre 1990 e 2009. “Só 8% dos veículos levados são novos e seminovos”.
A explicação para tal perfil de carros e motos levados converge exatamente no “motor” desse tipo de crime: o mercado negro de autopeças. O delegado Cledson do Nascimento, da Central de Polícia Judiciária (CPJ), aponta que as quadrilhas especializadas agem justamente para alimentar tal mercado.
“Geralmente, os veículos que são subtraídos e encontrados sem uma das peças são para ‘fazer dinheiro’. Já esses que são furtados e são depenados inteiros são para alimentar lojas de autopeças do mercado negro. Por isso, intensificamos fiscalizações em desmanches e funilarias”, relata.
Mercado negro
Isso explica por que tanto os carros mais antigos quanto as motocicletas de baixa cilindrada entram na mira principal dos bandidos. Sem a garantia de fábrica e muitas vezes sem seguro, esses veículos precisam de peças para manutenção. Antenados nesse contexto, os ladrões começam a furtar para disponibilizar tais peças.
Outro indício desse motor propulsor foi o modelo campeão de furtos em Bauru. De acordo com a PM, em 2013, o Fiat/Uno Mille (modelo antigo) superou o Volkswagen/Gol. Foram levados 45 do primeiro contra 31 do segundo.
“Há muita venda de Uno atualmente. Então, segue a mesma lógica. Aumenta a frota deste modelo nas ruas e aumenta o número de consertos. Assim, os ladrões começam a visar o veículo para atender esta demanda”, teoriza o capitão Alan Terra.
Tarde e noite
No senso comum, quem opta por uma vida de crimes busca a “saída mais fácil” para conseguir bens materiais. E esta preguiça parece persistir até na trajetória criminosa. Dados dos últimos dois meses da polícia apontam que os ladrões acordaram cedo para furtar veículos no Centro-Sul de Bauru apenas em 12% dos casos.
“A grande maioria de furtos é no período vespertino e noturno, que respondem por, respectivamente 35% e 30% dos casos. 12% são de madrugada e o restante foi em horários indeterminados”, revela o capitão Samuel Gomes, comandante da 1ª Companhia da PM.
22 roubos
Seguindo a tendência dos furtos, o número de roubos de veículos também ficou estável entre 2012 e 2013. No primeiro semestre do ano passado, foram 20 ocorrências na cidade.
Já neste ano, foram apenas dois casos a mais. Entre as dicas para evitar roubos, uma muito importante é a do semáforo. De acordo com a polícia, além de muita atenção ao redor, quando a pessoa vê que o semáforo está vermelho, deve reduzir a velocidade para não ficar muito tempo parado nele e, assim, diminuir o tempo de risco.
Duas rodas na ‘mira’
As motocicletas crescem a cada dia na lista de preferência dos ladrões. Além de alimentarem o mercado negro (as de baixa cilindrada, principalmente), são usadas por criminosos na prática de outros crimes, como roubos.
Os dados da PM são enfáticos em mostrar a vulnerabilidade desses veículos. Apesar de o número absoluto de furtos de motos ainda ser menor do que o de carros, a quantidade proporcional é muito maior.
De uma frota de aproximadamente 240 mil veículos (dados atualizados do Departamento Nacional de Trânsito) em Bauru, cerca de 50 mil são motos. Mesmo representando apenas 20% do total da frota, as motos furtadas equivalem a 41% no número de ocorrências em 2013.
“É algo que preocupa. Há muito menos motos em Bauru e o número de furtos está quase alcançando o de carros. Por isso, realizamos várias abordagens a motocicletas”, frisa o capitão Alan Terra.
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Arquivo/Quioshi Goto |
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O delegado Cledson Nascimento afirma que a fragilidade da legislação punitiva colabora para a prática desse tipo de crime |
‘Acusado já foi flagrado 17 vezes furtando veículos’, conta delegado
Por meio do trabalho integrado das polícias Civil e Militar, é realizada investigação e patrulhamento para conter os números, que apresentaram pequena elevação entre o primeiro semestre de 2012 e 2013. No ano passado, foram 363 furtos contra 378 este ano. Porém, ambas as instituições criticam a fragilidade da legislação punitiva.
Para ilustrar a lacuna, o delegado Cledson Nascimento usa um exemplo quase que inacreditável. “Tem um ladrão que já foi flagrado 17 vezes furtando veículos. Eles dificilmente ficam muito tempo nas unidades prisionais. As penas são muito brandas”, critica.
Outro exemplo do delegado é uma quadrilha desbaratada pela Polícia Civil em dezembro do ano passado. Dos sete presos na época, todos já estão soltos. “Nossa investigação durou 45 dias. Já eles ficaram presos apenas 15 dias”, completa.
O furto de veículo é crime contra o patrimônio e a pena prevista é de 1 a 4 anos de reclusão. Quando considerado qualificado (com o rompimento ou destruição de obstáculo de proteção do bem), sobe para prisão compreendida entre 2 e 8 anos.