11 de julho de 2026
Política

Em protesto na UPA Ipiranga, família exige exumação de corpo de paciente

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

A família de André Luiz da Silva Rocha, 33 anos, paciente que sofria de problemas psiquiátricos e morreu há uma semana na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Ipiranga ao ser contido por um segurança, quer a exumação do corpo dele.

Segundo Jarildo Carlos Alves, irmão da vítima, o advogado contratado por eles tomará essa providência nesta semana. Para parentes e amigos, a causa da morte de André também tem relação com a violência sofrida pelo paciente.

André foi ferido na região da cabeça mas, segundo o laudo necroscópico, o mais provável é que a medicação Midazolam 15 miligramas, utilizada para sedá-lo, ao interagir com outros remédios utilizados pelo rapaz, tenha tirado a vida dele. Inconformados com a situação, cerca de 40 pessoas fizeram um protesto ontem pela manhã em frente à unidade de saúde.

Com muitos cartazes e apitos, pediam justiça e a presença de um representante da Secretaria Municipal da Saúde, que não compareceu, segundo informaram. Os manifestantes permaneceram no local até as 11h30 e prometeram novo protesto para amanhã, durante a sessão legislativa. Hoje, ficaram de contatar parentes de outras vítimas da precariedade da saúde pública e o grupo Bauru Acordou para se juntarem a eles no protesto, explica Adriano Albino, presidente da organização não-governamental Sem Limites.

Adriano orientou a família a pedir indenização pela morte de André, que trabalhava como entregador de água e morava com a mãe, Maria Conceição Alves Rocha, 73 anos, e um irmão num imóvel no Jardim Vitória, onde foi velado. “Eu vi o ferimento na cabeça dele. Estava afundada”, comentava ontem Maria Conceição, ao recordar-se do sepultamento do filho.

A família também criticou a demora para ser comunicada do óbito de André, que morava a cerca de um quilômetro de distância da UPA. Os manifestantes ainda questionaram o fato da assistente social que teria sido ferida por André não ter sido submetida a exame de corpo de delito.

A informação, no entanto, foi negada pelo diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde, Luiz Antônio Bertozo Sabbag. Segundo ele, a profissional não só fez o exame, como ainda está abalada emocionalmente com o episódio e foi transferida de unidade, pelo menos provisoriamente.

O segurança também saiu da unidade e passa por curso de reciclagem providenciado pela empresa terceirizada pela qual é contratado, acrescenta Sabbag, que lamenta a fatalidade.


‘Local não foi preservado para perícia’, denunciam os parentes

Parentes e amigos de André Luiz da Silva Rocha criticaram o fato de não ter sido preservado o local onde ele e o segurança da UPA Ipiranga entraram em luta corporal, no domingo passado. Também questionam o fato do segurança da unidade não ter sido preso em flagrante por lesão corporal grave ou homicídio. A situação fará com que a família procure a Polícia Civil em busca de esclarecimentos, garante Adriano Albino, presidente da organização não-governamental Sem Limites, que apoiou o protesto ontem.

No entanto, segundo o diretor do Departamento de Urgência e Emergência da Secretaria Municipal de Saúde, Luiz Antônio Bertozo Sabbag, que domingo passado esteve na UPA, a polícia pediu para todos ficarem no prédio até que o resultado preliminar do exame necroscópico fosse conhecido.

A medida foi necessária justamente para balizar a conduta da Polícia Civil, que reiterou ontem ter tomado todas as iniciativas, inclusive a confecção do boletim de ocorrência.

Na ocasião, a autoridade policial explicou à reportagem que o coração de André estava inchado, talvez por conta das medicações que ele fazia por conta dos problemas psiquiátricos. A suposição é que a morte tenha sido provocada por interação medicamentosa, mas os exames laboratoriais só saem oficialmente em cerca de 20 dias.

“As autoridades de Bauru estão colocando panos quentes no caso, mas não vamos aceitar”, reiterou Jarildo Carlos Alves, irmão de André.


Atenção

A família e os amigos de André Rocha aguardaram até as 11h30 de ontem a presença do secretário municipal de Saúde, Fernando Monti.

Não foram contemplados e aproveitarão a sessão da Câmara desta segunda-feira para pedir o afastamento dele. No entanto, segundo a reportagem apurou, representantes da pasta procurarão a família até amanhã para que possam esclarecer eventuais dúvidas sobre o episódio de domingo passado.

Na última sexta-feira, a secretaria pediu reforço policial durante a manifestação de ontem. Pelo menos quatro viaturas da Polícia Militar estiveram na local. A manifestação teve início em frente à UPA, mas parentes e amigos também entraram na unidade em protesto. Eles demonstraram ainda indignação com a informação prestada à imprensa de que a vítima seria usuária de drogas. Mais uma vez, a negaram com veemência.


Entenda o caso

O entregador de água André Luiz da Silva Rocha deu entrada na UPA domingo passado queixando-se de dor de dente. Recebeu uma medicação e foi liberado. No entanto, pediu à assistente social um passe de ônibus, que usaria para visitar um primo hospitalizado após um atropelamento.

A solicitação, porém, foi negada. Nervoso, ele teria se alterado e agredido a funcionária da UPA, que passou por exame médico, onde lesões foram constatadas em sua perna e na face.

A alteração de Rocha e a agressão à assistente social fizeram com que o segurança da unidade contivesse o paciente. Ambos entraram em luta corporal, mas como estava agressivo, o médico plantonista resolveu sedá-lo com a medicação Midazolam 15 miligramas. André morreu na sequência.