08 de julho de 2026
Geral

?Descomplicador?

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 3 min

Eveline Ignácio da Silva Marques, coordenadora do curso de pedagogia da Universidade do Sagrado Coração (USC), identifica no professor-mediador um elemento fundamental para a escola entender e encarar problemas intimamente relacionados à adolescência.

“O professor-mediador desenvolve projetos para trabalhar com a família e com temas que são mais complicados na adolescência, questão de intriga, o próprio bullying. É um ganho”, aponta.

O profissional voltado para a solução de conflitos, entende, traz um ganho de qualidade no relacionamento escolar que o professor em sala de aula não poderia desenvolver. “Como professora, sei da necessidade que a gente tem de ter outros profissionais ajudando no dia a dia da sala de aula. Inclusive considero que chega a ser uma proposta inovadora”, classifica.

Marques analisa que o professor-mediador proporciona a abordagem de um ângulo diferente nos conflitos em âmbito escolar.

“Quando a gente fala em ser mediador, ele não vai estar direto na sala de aula com o aluno para trabalhar conteúdo e, então, é um outro olhar, um olhar diferente do convívio, que não é o olhar que o professor tem”, diagnostica. “Por mais que o professor queira realizar outras atividades, tem um compromisso com o conteúdo, com a nota, correção, daquilo que tem que ser trabalhado e desenvolvido durante o bimestre. Outros profissionais que atuam na escola, principalmente na escola pública, que tem muita carência de profissionais, são muito importantes”, acrescenta.

Marques salienta também que a função do professor-mediador não entra em conflito com o psicólogo escolar e opina que uma atuação complementa a outra. A pedagoga considera o professor-mediador totalmente capacitado para resolver os problemas de conflito, de ambiente escolar.

“Se o professor tem um tempo só para fazer isso (mediação) acredito que ele tem condições plenas. O psicólogo escolar vai atuar diretamente mais em questões psicológicas mesmo, que aí sim o professor não tem condições de lidar. Mas na questão do convívio, de um ambiente que seja organizado, agradável, que proporcione uma convivência escolar harmoniosa, acho superimportante”, destaca.

A atividade do professor-mediador, segundo Marques, contribui até para minimizar equívocos e falhas no ambiente escolar na interpretação de comportamentos de alunos. Com um profissional voltado exclusivamente para questões de relacionamento, constata-se que menos conflitos são gerados por problemas de saúde do que por inadequação. “Tem muitos alunos que são ditos com problemas psicológicos que na verdade não têm. Eles têm problema de comportamento, eles não conseguem lidar com conflito, não conseguem ter amigos, mas não têm nenhum distúrbio, nenhuma patologia. O professor tem tanta demanda na sala de aula que não consegue nem diferenciar isso”, observa a pedagoga.

Novas demandas

A presença do professor-mediador atualiza e prepara a escola para atender de maneira satisfatória as novas demandas que a sociedade atual cria. Marques salienta que o acesso de praticamente todas as crianças, mesmo as das camadas mais populares, à Internet e outras mídias alterou completamente a forma dos relacionamentos, mas a escola continua exatamente no mesmo formato de muitos anos atrás. “Competir com isso é um desafio para o professor. E sozinho ele não dá conta, por mais que queira, se esforce. Ter uma pessoa de apoio é muito importante”, considera.

A pedagoga entende que a presença do professor-mediador abre um canal mais adequado de aproximação com os alunos para que os conflitos sejam identificados. “Quando uma criança passa por uma situação de bullying, por exemplo, ela está ali junto com todo mundo, com os outros alunos. Dificilmente ela vai contar isso para alguém. Se tem outra pessoa que pode ouvir, chamar, conversar, tem possibilidade de atuar melhor do que o professor na sala de aula”, aponta.

Marques elogia também a metodologia da justiça restaurativa usada pelo programa, conceito que trabalha diálogo, reflexão e responsabilidade e desperta a consciência nos alunos sobre seus atos.

“Tem a questão de ‘será que eu penso sobre o ato que eu cometi?’. É importante uma reflexão. E outra: ‘quais as responsabilidades do meu ato. Eu posso pegar um lápis e furar o olho do amigo? Mas o que isso gera?’ Muitas vezes o aluno em seu desenvolvimento não consegue perceber”, finaliza.