|
Aceituno Jr. |
|
|
|
Monja Coen tem como foco melhorar a vida das pessoas |
Você já deve ter ouvido muita gente falar que para ser feliz, para se alcançar um ideal é preciso lutar, certo? Sim, é preciso lutar. Deve ter ouvido também que é preciso lutar por algo que se acredita, ou se quer, até morrer, certo? Algo assim como “vida gloriosa é a dos os soldados que vão ao campo de batalha dispostos a lutar, lutar, lutar até morrer”. Ou seja, somos educados a acreditar que temos que ter um ideal e para chegarmos lá precisamos estar dispostos a tudo, até a perder a vida.
Monja Coen Sensei não comunga dessa ideia. Ao contrário, diz ela: “não existe nada por morrer ou matar. Nada! É preciso ter causas pelas quais se viva. Lutar por algo que valha a pena manter-se vivo, celebrar a vida. Nada por morrer, tudo por viver”. Confiando nessa premissa, essa mulher de palavras fortes, mas doces ao mesmo tempo, veio a Bauru falar sobre paz. “E jamais se deve fazer a guerra, jamais se deve usar armas, ainda que seja para promover a paz. Há um outro jeito de se alcançar essa paz e isso é através da cultura de não-violência”.
E ela tem bagagem para falar. Afinal, a monja zen-budista Coen Sensei é uma das principais líderes espirituais budistas do Brasil, se não a principal. Ela esteve no Sesc-Bauru para ministrar uma palestra com o objetivo de divulgar o princípio da não-violência e a criação de culturas de paz. Num momento de revolta e de conflitos mundiais e após as últimas manifestações no Brasil, até com agressões físicas dos manifestantes, o evento “Pela Paz” promoveu encontros para celebrar uma cultura de união e harmonia, além de promover o desenvolvimento pessoal e a compreensão dos acontecimentos locais, nacionais e mundiais.
Exemplos de vida e cuidados
Permeando todas as suas falas com histórias, seja de sua própria vida ou de mestres que viveram há séculos, Monja Coen vai dando exemplos e contando fatos para exemplificar os conselhos que dá para melhorar a vida das pessoas. A começar pela busca da chamada Inteligência Espiritual – “precisamos cuidar do nosso meio ambiente, não só o externo, mas também o interior. Ouvir a si mesmo, ficar longe das nossas guerras internas. Estar abertos para viver cada dia com plenitude, cuidar do físico, estimular os neurônios, manter a mente ativa e ter um coração bondoso”.
Mas como? Ela mesma dá as indicações
Jamais jurar vingança – “O preço de alguém que se vinga é ter uma mente atormentada”. Conta uma história em que várias crianças morreram por causa de uma vingança que parecia ser legítima. Havia um homem que, ao fazer justiça por conta de uma atrocidade cometida com seu povo, acabou por envenenar várias crianças e por conta disso não conseguia mais ter paz, embora achasse que sua vingança fosse legítima. “Claro que ele não poderia nunca mais fazer voltar o tempo, é impossível voltar atrás, mas você pode adotar crianças, cuidar de outras crianças como forma de ir em frente e vencer sua guerra interna.”
Isso serve de exemplo para a gente no dia a dia. Se tivermos cometido um erro, o jeito mais correto de aplacar a consciência não é ficar remoendo e sim ir em frente e procurar acertar, procurar ajudar mais os outros, não errar mais. Cair faz parte da natureza humana. E sobre isso a monja fala com otimismo de quem professa o budismo a ensinar que “o lugar que se cai é o mesmo de se levantar”.
É preciso aceitar que a raiva existe – Sabedora que é de que grande parte da violência ocorre em função de um sentimento chamado raiva, mas que também esta pode ser positiva, porque a “indignação é legítima, especialmente quando alavanca mudanças positivas para a humanidade”, ela ensina que uma forma de evoluir, de mudar o mundo, inclusive, é trabalhar a raiva. Monja Coen Sensei lembra que a raiva existe e não se pode “fingir, nem engolir. Faz parte da natureza humana.”.
O problema está em como agir diante dela. Se explodir (e isso acontece muito em casa, no trabalho, nas relações familiares) pode gerar a violência e até causar tragédias. Se aceitar, se “engolir sapos”, a pessoa fica doente. Diante disso, o que se pode fazer? “Sentir a raiva e não disparar o gatilho. Sentir sim, mas deixar passar”, ensina ela. A ciência comprova que todos os acontecimentos duram apenas 10 segundos no nosso cérebro. Um átimo. Depois disso, o restante é memória. Ficamos lembrando o que houve e remoendo. “A raiva não é o inimigo e sim o que faz com ela, com essa energia. Por isso, devemos e podemos sentir raiva, mas não podemos fazer nada com ela, nem explodir, nem implodir, engolir. Identificamos, sentimos e deixamos passar”.
Praticar a respiração - Uma forma também de não explodir está na respiração que ela ensina o público a fazer na própria palestra. Inspirar, expirar, inspirar, expirar calmamente, durante alguns segundos. Sempre, todos os dias, prestar por alguns segundos atenção à respiração. Faz uma diferença incrível na saúde, no físico e na mente.
A monja lembra que além da raiva há mais duas coisas contra as quais internamente temos que lutar: a ganância e a ignorância. A ganância que inclusive leva a atos como a corrupção. “Aliás, corrupto vem de coração partido, ao pé da letra”, diz ela. E a ignorância porque faz com que muitos cometam atrocidades por desconhecimento. É o caso de preconceitos.
Sedimentando a luta interna contra a raiva, a ganância e a ignorância já temos todo o caminho aberto para a verdade e para bondade. Para sermos o que ela sempre insiste em dizer “bons. Temos que ser bons. Não desista, insista”.
Não desistir de fazer o bem e nem desistir de si mesmo – Monja Coen lembra que para os humanos há salvação. Basta espelhar-se em exemplos como os de Buda, de Jesus, do profeta Mohamed (Maomé) e do Dalai Lama” que deixaram (e deixam ainda) exemplos de que o mundo é bom, as pessoas podem ser boas. “ Homens que foram exemplo, como Jesus que é o caminho da paz, embora depois muitos tenham matado em seu nome. Mas vale a pena, não desista”. Mas mesmo quando vê tanta coisa errada nos dias de hoje deve-se lembrar que há um caminho do bem. Deve-se olhar para si mesmo e redescobrir-se e trilhar de novo o caminho do bem. Que é, antes de tudo, gostar-se.
“Faz parte do pacote do ser humano, da condição humana ter consciência do que se é e do que se faz, não somos animais”, mas é justamente por isso que devemos praticar a bondade, a caridade. E uma das melhores formas de se conseguir fazer o bem é não desistir de si mesmo, ensina ela. “Insista, não desista. Diante do que for. Diante das injustiças sociais, a gente se cala. Não podemos nos calar. Devemos nos manifestar. E dá para termos manifestações brandas, pacíficas. Os atos recentes no Brasil mostraram que a maioria das manifestações não foi violenta. Não devemos ter raiva e sim manifestar o amor. Beijar o cavalo do policial pode parecer um ato de amor, mas não é, acaba sendo um ato violento, então para termos resultado precisamos escolher bem nossos atos”. Mas então como ter atos de amor? A resposta vem de forma simples:
Manter as mãos em prece – “Manter as mãos unidas, as mãos em prece, evita brigas”. E se a gente parar para pensar é isso mesmo. Não se pode acusar ninguém se você não tiver o dedo livre para levá-lo, nem levantar a mão para outra pessoa é conveniente com elas em forma de prece. O adversário, se houver, fica acuado, recua diante de mãos em prece.
Rezar do jeito que souber – “Meditar e orar é uma das melhores formas de melhorar a vida da gente. Várias vezes por dia. De manhã, de tarde, à noite, na hora das refeições. E rezar como? Do jeito que você sabe. Com ou sem oração. Apenas rezar, apenas pensar, fazer uma prece e agradecer o que tem. Rezar inclusive quando se tem insônia. “Quando se acorda no meio da noite, em vez de brigar com o sono, pense: ´oba, é mais uma oportunidade para eu rezar. Quanto mais eu rezar melhor vai ser para mim e para todos. Que bom que eu acordei e vou poder rezar de novo´, você verá que isso muda o sono, que será muito mais tranquilo”, garante ela.
Sem resmungar – “Nós resmungamos muito, reclamamos muito e por isso mesmo São Bento no mosteiro dizia que era proibido até mesmo o murmúrio correto”. Ou seja, nós reclamamos muito, às vezes até sem razão. Isso traz angústia. Quanto menos reclamarmos, menos teremos motivos para reclamar. Vira um círculo vicioso para o bem.
Ouvir muito – “Quando estiver em conflito com alguém, procure ouvi-lo primeiro. Quando precisar falar com alguém, também ouça. Todo mundo sabe que nos dias de hoje, em família, o diálogo é mais ou menos assim, entre pais e filhos: -‘ih, lá vem. Ah, já sei o que você vai falar`. Antes de se antecipar, deve-se ouvir. Se despir de preconceitos. E ao ouvir se descobrem muitas coisas positivas”.
Agradecer o alimento – O agradecimento como um todo deve estar presente na vida de todo mundo. Mas mais ainda ao que nos dá a vida que é o alimento. Ela prega o resgate daquele ato simples de muito antigamente “abençoar a comida na hora de comermos, seja qual for. Fazer as melhores escolhas, preparar com amor é bom, mas é fundamental na hora de comer agradecer e benzer o alimento”.
Cuidar da língua – Para finalizar “se você quer um mundo menos violento, cuide da sua língua e do seu gesto. Gritar é fácil, difícil é falar baixo”.